CONTRA A PROPAGANDA DO PARTO ORGÁSMICO

O parto doi, negá-lo é impossível. Mas a verdadeira questão não é ter ou não parto sem dor e até orgásmico, mas compreender o que significa promover a ideia do parto orgásmico. É preciso ter mais visão e se encantar menos com o glamour quando se lida com assuntos como esse que tocam na carne e na autoestima das mulheres. Lançar a ideia do parto orgásmico significa criar um ideal que é, de fato, raramente alcançado, e que tem como efeitos colaterais fortalecer medos e inseguranças e desviar a atenção do que interessa.


O parto doi. 99,9% das vezes, doi. Se queremos trabalhar com as mulheres que fazem parte desses 99,9% da população feminina, mulheres reais - e eu me incluo nesse grupo, porque meu parto doeu e foi maravilhoso - não trata de querer retirar a dor do parto mas dar a elas, as mulheres, força de sobra para dizer: doi? e daí? Queremos mulheres que aguentem a dor, não que fugiam dela idealizando um parto com orgasmo. Essa é coisa de mídia, de marketing, coisa para vender novelas e fazer dinheiro em cima das que abocanham a fantasia. No Brasil, esse lance pode gerar em breve médicos obstétras, enfermeiras obstetras e obstetrizes vendendo o parto orgásmico pelo singelo valor de R$ 20 ou 30.000. É parto orgásmico, viu? Vale o "investimento". E quando a mulher não conseguir alcançar esse ideal, o que acham que vai acontecer? Ela vai se sentir uma incompetente, exatamente como os médicos a fazem sentir ao prescrever a cesárea sem necessidade. O mesmo resultado se deu durante a campanha maciça pelo parto domiciliar levada adiante por uma larga facção do movimento pela humanização. Facção esta que tinha obviamente sua fatia de lucro envolvida no assunto ao qual convenientemente ninguém reparou. Agora, para manter o glamour e aumentar a demanda, como qualquer escola de marketing ensina, é preciso bombar, criar mais expectativa, chamar a atenção, e até "chocar".  E o que há de mais chocante do que comparar parto e orgasmo? A ideia faz sentido; a modalidade, o contexto e a miopia cultural de seus promotores é que não.


Vivemos numa sociedade que se autoeducou a ter pavor da dor. Há muitas razões para isso, razões históricas que não vem ao caso analisar. O fato é que mesmo com dinheiro e conforto a dor não é totalmente evitável. Por isso existem pílulas para tudo. Quem lançou essa "moda" foram os Estados Unidos, que coincidentemente é de onde vem também a campanha do parto orgásmico. Numa cultura enraizada no medo do sentir e na ganancia pelo lucro floresce uma indústria farmacêutica bilionária que junta as duas coisas: produz pílulas para não sentir que a fazem rica. O que porém não melhora a qualidade de vida americana, que tem um dos índices mais altos de depressão.


Negar a dor do parto e vender orgasmos no lugar é puro marketing. Mais uma vez o Brasil segue como uma ovelhinha os americanos com suas invenções mentais. É um produto mental vender partos com orgasmos. O feminino, a Terra, a Grande Mãe, a Deusa sabem que doi, mas sabem também que as mulheres são poderosas e infinitamente mais fortes do que aquela dor. A vida real pede mulheres reais. Chega de ver a experiência do parto pela lente do androcentrismo da nossa cultura que cria ideais.  


Promover o parto orgásmico não é uma atitude feminista, mas burguesa e machista, capitalista e marketeira. Agora se vc sentir dor é porque não sabe ter orgasmos enquanto expulsa um feto de dentro da sua barriga. Mais uma vez o partograma, tão denigrido pelo movimeto pela humanização do parto e nascimento volta, triunfante. Mais uma vez existe um parâmetro externo à mulher que mede sua performance. Por causa dos partogramas da suposta humanização tivemos e temos tantas mulheres decepcionadas consigo mesmas porque não tiveram o parto domiciliar que a mídia "humanizada" proclama como O Parto. Agora teremos a nova onda das que buscam o parto com orgasmo. Novo produto no mercado!


Todo mundo que lida com parto de forma ética e responsável sabe que o parto depende de maneira preponderante das condições psicológicas da mulheres, de seu nível de segurança pessoal, da sua auto-estima, do momento de vida que ela está passando, de sua história pessoal, dos relacionamentos à sua volta e até de suas perspectivas futuras. Desconsiderar o psicológico foi um dos maiores erros de grande parte da humanização até hoje. Respeitar o psicológico incomoda porque requer ir mais devagar, não se adapta a slogans e não ganha o mercado com tanta facilidade. Mas corresponde à realidade de mulheres reais, que merecem a consideração e a atenção adequadas. É surpreedente que mulheres cultas, engajadas socialmente e que se dizem feministas não atinam para os sentidos menos aparentes e nem por isso menos presentes dessa "festa do parto orgásmico". 


A suprema beleza do parto não está nos prazeres que conhecemos mas numa dimensão transcendente, profundamente espiritual e animal ao mesmo tempo que algumas pessoas conseguem vivenciar, e quando o fazem são transformadas. É na espiritualidade do parto, uma espiritualidade enraizada na carne e no sangue, nas lágrimas e no sorriso, nessa experiência quase mística que está seu diferencial. Mas é verdade que é preciso ter espírito sutil para enxergar isso.


Sim, algumas mulheres podem ter um orgasmo durante o parto. Digo isso porque suponho que as promotoras do parto orgásmico não sejam mentirosas. Conheci até hoje (ultimos 12 anos) somente 1 (uma) mulher que vi em foto sorrir durante o expulsivo; não sei se teve orgasmo, sei que sorria. Nunca ouvi relatos de mulheres que tiveram um orgasmo durante o parto. Mas mesmo que haja 10, 100 são exceções que não fazem média. Li e ouvi relatos de partos maravilhosos com dor e cheios da presença da Deusa. Para mim, esses contam. Mulheres de carne e osso, com suas dores e temores, suadas e vitoriosas, com lágrimas de dor e alegria - essas contam. E essas são as sementes do futuro da humanização do parto.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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