ESTRATÉGIAS E PLANOS PARA A HUMANIZAÇÃO DO PARTO

 

 

 

Introdução

 

 “Atenção humanizada é algo amplo e que envolve um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam a promoção do parto e do nascimento saudáveis e a prevenção da morbi-mortalidade materna e perinatal. Inicia-se no pré-natal e procura garantir que a equipe de saúde realize procedimentos comprovadamente benéficos para a mãe e o bebê, que evite as intervenções desnecessárias e que preserve sua privacidade e autonomia.” OMS (Organização Mundial da Saúde)

 

Algumas pessoas tratam a humanização do parto como uma espécie de luxo ou favor. Um favor que os médicos ou as instituições de saúde prestam para algumas mulheres que se estão sendo atendidas através do SUS reivindicaram, ou se estão pelo sistema particular e de convênio pagaram a mais por isso.

 

Humanização do parto vai muito além de tocar uma música ou ser referir carinhosamente à gestante enquanto se faz um procedimento que para o profissional de saúde é rotineiro.  Para entender como é uma assistência humanizada ao parto precisamos entender sobre o protagonismo da mulher neste momento que para ela é único e sagrado.

 

Sabemos que para o profissional de saúde ao longo do tempo fica muito difícil se envolver e praticar a empatia para com os pacientes. As rotinas de trabalho e até a auto-preservação emocional fazem com que tentem se afastar o máximo possível para que possam agir de acordo com todo o conhecimento técnico adiquirido. Mas ao fazer isso deixam de lado que cada gestante que será atendida tem uma história diferente e necessidades diferentes. Cada parto tem um ritmo que não pode ser padronizado. 

 

As instituições possuem protocolos para agilizar o trabalho e também para se garantirem legalmente. Quando estes protocolos passam a barreira do direito e da individualidade devem ser revistos. Um exemplo é a Lei 11.108, de abril de 2005. A Lei do Acompanhante. Para muitos hospitais mesmo depois de sete anos da sanção da Lei, o protocolo ainda é: não permitir a entrada de pessoas que não sejam funcionários dentro da sala de parto ou centro cirúrgico.

 

As gestantes tem pouca informação sobre o processo de parto e quem seria o melhor profissional para acompanhá-las. A idéia que uma cesariana é mais segura que um parto (mesmo em gestações de baixo risco) e que o parto sempre é um evento de muito sofrimento e dor também está enrraigada na nossa cultura. O atendimento à parturiente centralizado no médico e cercado de tecnologias não é o mais adequado para a maioria das gestações que são de baixo risco. Mas a grande maioria das gestantes, por desinformação, não aceita ser examinada ou ter o parto acompanhado por um obstetriz ou enfermeira osbtétrica

 

O objetivo deste trabalho é traçar algumas estratégias que possam ser utilizadas por profissionais e instituições para humanizar a assistência ao parto.

 

 

Direito de Escolha

 

Segue um texto meu publicado no blog Mamíferas sobre o suposto direito de escolher como será o parto das gestantes brasileiras:

 

Usando bazucas para matar moscas.

 

Antes de começar gostaria de agradecer o convite e dizer que não foi fácil escolher um tema para postar aqui. Que responsa! :D Pronto, pode começar!

 

Numa das conversas com o meu marido (café da manhã aqui é papo bom na certa!) ele me contava sobre uma expressão muito usada na profissão dele de Programador. “Using a bazooka to kill a fly (usando uma bazuca para matar uma mosca)”. Eles utilizam a expressão quando estão desenvolvendo algum programa e alguém resolve usar uma tecnologia muito avançada mas que não se aplica à resolução do problema e pior, acaba piorando e complicando as coisas.

 

Eu nem preciso me explicar muito, garanto que algumas pessoas que estão lendo já entenderam o paralelo. Estamos “usando” muitas intervenções médicas para o nascimento dos nossos bebês. E na grande maioria das vezes sem necessidade alguma. 

 

Eu sou sim uma ativista do parto normal com respeito. Admito isso e podem me chamar do que for, isso não vai mudar o meu ideal. Quando toco no assunto “parto com respeito” sempre escuto ou leio frases que vem de pessoas diferentes, mas sempre com o mesmo “conteúdo”. Geralmente essas frases querem explicar que mesmo a mulher optando por uma cesárea ela não vai deixar de cuidar ou amar o seu filho. Afinal temos a liberdade de escolher como o nosso filho vem ao mundo.

 

Será que temos mesmo?

 

Pensem comigo:

 

Se sou uma gestante de 36 semanas e meu médico desde a primeira consulta está de acordo sobre um parto natural. Mas numa das nossas conversas ele começa e me falar que “quem sabe o bebê entre em sofrimento” “você tem a bacia muito estreita, será que vai dar conta de um parto normal?” e muitas outras frases lançadas ao vento. Se eu me informei e sei que nada do que ele tá falando é realmente uma indicação de fazer uma cesárea eu troco de médico. Mas se não me informei e acredito piamente em tudo o que o meu médico diz? 

 

Será mesmo que serei livre para escolher?

 

Se sou uma gestante de 08 semanas totalmente desinformada sobre parto e meu médico calcula a minha data provável de parto e já marca a cesariana. 

 

Eu tive realmente direito a uma escolha?

 

Se estou de 38 semanas e começo a me queixar sobre alguns sintomas comuns da gestação e meu médico fala (e toda a família já vinha falando mesmo) que “agora já dá pra tirar, pra que ficar sofrendo”? 

 

Eu escolhi? Ou fui influenciada em um momento sensível?

 

Quero parir em casa, tenho um médico que já acompanhou partos em casa, uma doula e uma equipe. Me preparei para isso e minha gestação é de baixo risco. Descubro que me médico não pode mais acompanhar partos em casa por “recomendação” do CRM e na minha cidade não há nenhuma enfermeira obstétrica que atenda partos domiciliares.

 

Eu tive meu direito de escolha respeitado?

 

Sou gestante e meu parto será pelo SUS. Queria ter um parto de cócoras. Assim que chego na maternidade me colocam soro com ocitocina, fazem eu ficar de jejum ou com dieta líquida e me deixam sozinha com meu marido que pouca experiência tem nisso. Quando chega finalmente a hora do bebê nascer me levam para uma mesa obstétrica me colocam deitada com as pernas para cima e amarradas, fazem episiotomia sem conssentimento e muito menos necessidade. 

 

Eu tive mesmo liberdade para escolher como eu queria parir?

 

Antes de sair bradando aos 4 ventos que “cada um escolhe a melhor maneira de ter o seu filho” pense um pouco nestas situações. 

 

A mulher passa por um período de regressão e fica um pouco infantil durante a gestação. Isso é absolutamente normal. O que ela precisa para ter um parto com respeito é de informação e acolhimento. Ela não precisa ficar alienada. Mas o que eu vejo é muitos profissionais aproveitando dessa fase para tirar a liberdade oferecendo em troca uma garantia de sucesso que não existe. Porque embora não pareça, bebês e mães também sofrem complicações nos hospitais e também sofrem complicações por causa de cesarianas. Não existe nada garantido. 

 

Nós não queremos “um parto como antigamente”. Nós queremos uma assistência humanizada onde a mulher que é quem vai parir esteja no protagonismo do seu parto. Onde suas escolhas (de ter um parto em casa, em casa de parto, no hospital, na água) sejam respeitadas e que ela não tenha que lutar contra tudo e todos para conseguir isso. Queremos uma assistência baseada em evidências e não em hábitos profissionais. Não queremos ser tratadas como mais uma peça numa linha de montagem. 

 

Tratar o parto como um processo natural não é um retrocesso. É uma evolução. As ferramentas certas devem somente ser utilizadas no momento em que se precisa delas.

 

Vamos parar de usar bazucas para matar moscas?

 

Infelizmente a liberdade de escolha ainda é uma mentira. Quem opta por uma cesariana consciente ou não dos riscos que isso traz certamente tem maior facilidade em conseguir o que quer. Mas não é uma escolha livre e muito menos informada. Como levar a informação para as mulheres e casais grávidos?

 

 

Informação 

 

Uma das estratégias que funcionam bem para propagar a informação sobre o parto humanizado são os Grupos de Apoio. Normalmente eles são coordenados por doulas e outros profissionais que atuam com gestantes (psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas) e por mães que busaram informações sobre o parto humanizado e desejam ajudar outras mães. Estes grupos realizam reuniões periódicas com alguns temas. Diferente de um curso para gestantes no grupo é feito uma roda de conversa. Eles podem ter um custo para a gestante/casal ou não. Quando não são cobrados contam sempre com trabalho voluntário dos profissionais que abordam o tema. A rede Parto do Princípio divulga vários desses grupos espalhados pelo país. Para ser um GAPP (Grupo Apoiado pela Parto do Princípio) pelo menos uma das reuniões do grupo deve ser gratuita. 

 

Outra maneira de propagar a informação é buscar integração com as Unidades Básicas de Saúde. Muitas vezes na própria UBS existe algum grupo de gestantes funcionando e muito raramente é conversado sobre o trabalho de parto ou sobre o atendimento humanizado. Confeccionar panfletos sobre como aliviar a dor no trabalho de parto ou como o acompanhante pode ajudar também pode ser muito útil. E se houver abertura em hospitais particulares ou convênios onde já tenha um curso de gestantes formado, a estratégia pode ser levar informações sobre o risco de uma cesariana agendada comparada ao risco de um parto normal.

 

Para conseguir espaço em determinadas instituições deve-se ter muita empatia e respeito. Por mais que não se concorde com o que de fato esteja acontecendo dentro de um hospital ou maternidade deve-se ter muita paciência para conseguir passar a mensagem para as equipes e para as gestantes sem criar atrito e manter as portas abertas.

 

Quando um grupo em uma cidade maior se estabelece acaba chamando a atenção da mídia local. As coordenadoras devem preparar os temas para entrevistas ou programas de TV e rádio principalmente se houver alguma movimentação nacional pelo parto humanizado. Estudar as evidências científicas e as estatísticas dos partos da região onde se vive é essencial.

 

Procurar apoio de universidades. Os alunos e docentes especialmente os do curso de Enfermagem são muito interessados no tema Humanização. Através de uma universidade podem ser realizados simpósios e cursos para os estudantes e para os profissionais da região a serem ministrados por obstetrizes e médicos que prestem a assistência humanizada e pratiquem a Medicina Baseada em Evidências. Esta é uma ótima maneira de informar quem já trabalha ou ainda vai trabalhar na área obstétrica. É preciso investir na educação profissional. Não adianta informar somente as gestantes se dentro dos hospitais e maternindades não há um profissional sequer que entenda o que esta mulher está pedindo. Percebe-se que há uma certa resistência dos médicos e estudantes de medicina em participar de eventos que falam sobre Humanização. Mas com a demanda criada pela informação que foi levada até as mulheres isso tende a mudar. 

 

 

Envolvimento Político

 

Para conseguir alcançar certos objetivos dentro de uma cidade ou região também é preciso um envolvimento político. O caminho para isso é procurar a Secretaria de Saúde da cidade e a Secretaria da Mulher. Existem Conferências Municipais, Estaduais e Nacionais que tratam das Políticas para Mulheres. E muitas coisas só podem ser realizadas se estão dentro do Plano de Políticas para Mulheres da cidade, estado e do país. Construção de Casas de Parto por exemplo é uma das coisas que deve estar dentro deste plano. Não é preciso se candidatar a um cargo político, o trabalho é de controle social. Levar para as Secretarias o que precisa ser feito e cobrar o que eles prometeram que iam fazer. Por mais que se mantenha uma postura apartidária, é importante saber que algumas coisas só irão mudar se forem sugeridas e mais tarde cobradas. Algumas ações contra a violência obstétrica e contra o abuso das cesarianas já estão sendo movidas através do Ministério Público. 

 

 

Trabalho Voluntário

 

O serviço de Doulas Voluntárias para os hospitais e maternidades (principalmente os conveniados ao SUS) trazem muitos benefícios para as parturientes e como consequência para a população e o movimento da Humanização do Parto. 

 

Para começar um trabalho voluntário não é necessário uma equipe completa. Pode uma doula apenas se apresentar para realizar o trabalho e fazer isto em num turno em um dia na semana por exemplo. Cada instituição tem suas próprias regras sobre o voluntariado. Há o pagamento de um Seguro Obrigatório para quem faz trabalho voluntário. Deve ser conversado com a instituição sobre isso, para saber quem vai pagar esta taxa, o voluntário ou o hospital. 

 

Se for possível, organizar uma equipe de doulas voluntárias com reuniões periódicas, uniforme e crachá de identificação. Confeccionar panfletos explicando o papel da doula para a parturiente e o acompanhante. É importante que a equipe trabalhe de maneira coesa para que a atitude de uma não atrapalhe o trabalho da outra. Se o hospital ou maternidade não dispõe de equipamentos para auxiliar a parturiente no momento do parto (bola, cavalinho, massageadores, óleos essenciais, banqueta de parto) providenciar a compra através da instituição e se isso não for possível cada doula fica responsável por levar seus equipamentos. 

 

 

 

Conclusão

 

O Parto Humanizado no Brasil é cercado de mitos e desinformação. As Doulas tem muito trabalho pela frente para alcancar o máximo de pessoas possível e ajudar a  descconstruir a cultura tecnocrata e centralizada na figura do médico. 

 

É delas a missão de ajudar cada mulher atendida a resgatar o poder que ela tem para parir. Mas pode-se ir além disso se cada doula se levantar para mudar a realidade obstétrica local.

 

Não é um caminho fácil, mas é necessário. E existem muitas frentes para atuar. Que cada doula encontre o seu caminho e que juntas possam mudar a forma como as famílias recebem seus filhos.

 

 

 

Referências

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Parto Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher. Brasília. 2001. 

 

TANESE NOGUEIRA, Adriana et alii. Guia da Doula Parto. São Paulo. Biblioteca 24 Horas. 2010.

 

MERCER, Marilia. Usando uma bazuca para matar uma mosca. Disponível em: http://www.mamiferas.com/blog/2012/06/usando-uma-bazuca-para-matar-uma-mosca.html Acesso em: 04/08/2012.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual Prático para Implementação da Rede Cegonha. Disponível em: http://www.saude.mt.gov.br/upload/documento/444/manual-pratico-rede-cegonha-[444-090312-SES-MT].pdf Acesso em: 09/08/2012.

 

ÚRIA, Manuel. Legislação Sobre o Voluntariado 2. Disponível em: http://voluntariadohospitalar.blogspot.com.br/2008/11/legislao-sobre-o-voluntariado-2.html Acesso em: 09/08/2012.

 

Informe Ensp: Mulheres e o direito de escolha do parto. Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/30779 Acesso em: 09/08/2012.

 

NETO, Clemente. Humanização da Assistência Obstétrica. Disponível em: http://www.amigasdopartoprofissionais.com/2011/12/humanizacao-na-assistencia-obstetrica.html Acesso em: 12/08/2012

 

Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos (RNFSDR). Dossiê Humanização do parto. Disponível em: http://www.redesaude.org.br/Homepage/Dossi%EAs/Dossi%EA%20Humaniza%E7%E3o%20do%20Parto.pdf Acesso em: 12/08/2012

 

Monografia Elaborada por Marilia Carolina Ferreira Bittencourt Mercer Entregue a ONGAP Como Pré-requisito para Obtenção de Aprovação no Cursode Formação de Doulas Parto. Londrina, 13 de Agosto de 2012.

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