HUMANIZAÇÃO DO PARTO E COBERTURA DE BRIGADEIRO

 

Estávamos esperando ansiosamente pelo nosso tão amado bolo brigadeiro! Após o arroz e feijão de cada dia, as desne-cesáreas chiques e os partos normais públicos repletos de violência dita, não dita, explícita e metafórica, nós mulheres aguardávamos o nosso doce preferido: o parto natural domiciliar, caseiro, simples, amoroso... gostoso! Hummm.... que delícia! Chegou finalmente a humanização e com ela nossos sonhos foram tomando forma, crescendo, ganhando força. Começamos a querer conseguir de verdade, chegava nossa luta, tínhamos certeza de que seria certeira e vitoriosa.


Ganhamos informações, discutimos o assunto em listas eletrônicas, lemos livros, questionamos nossas mães, nossos médicos, nossas amigas. Nos indignamos, espantamos, choramos... e de novo sonhamos.....


Tricia tinha feito tudo direitinho: exercícios, livros, informação... Trabalhou sua autoestima, se fortaleceu na troca com outras mulheres, ela é cria legítima de uma das facetas da humanização do parto pelo “protagonismo da mulher”, é fruto da primeira geração de mulheres que pariram após as intermináveis discussões virtuais.


“Eu me sentia como um guerreiro indo para a guerra. Estava munida de água, portanto eles não poderiam reclamar da bolsa rompida – era o que eu imaginava! Aguardei, ansiosa, frágil, vulnerável sem me dar conta de que estava entrando em terreno “inimigo”...”


O lema “querer é poder” foi corrigido para “querer muito é poder muito” e há quem compreenda a humanização como um instigar as mulheres para o confronto verbal e comportamental com hospitais e médicos. O lado fraco dessa visão é que as coloca na delicada situação de não poder estar realmente consigo mesmas. É uma mulher poderosa do lado de fora, como um bolo de brigadeiro cuja camada de brigadeiro foi muito caprichada, mas seu conteúdo não. O bolo não está pronto, faltaram ingredientes e não assou o suficiente. A bela camada não compensa, é só superfície. A ideologia que fundamenta este tipo de humanização baseia-se na fantasia de onipotência que acredita poder assumir o controle sobre a própria realidade (física e psíquica) e sobre aquela externa (social e obstétrica).


As mulheres devem ir para à luta, com certeza. Mas inteiras. Camadas sem bolo por baixo murcham. E nós temos ainda uma longa luta pela frente. O campo do direito é um território sem fim a ser explorado.


Continua Tricia, guerreira pega desprevenida: “Eu já estava super frágil, cheia de dúvidas, fiquei me lembrando de tudo o que eu tinha aprendido durante a gravidez. Aquele não era o parto que eu esperava.”


E eis que chovem os “mea culpa”. Assim como na obstetrícia tradicional, a humanização-camada de brigadeiro deixa as mulheres sempre com a culpa de tudo, no final: “Mas eu não conseguia ‘despertar’, acordar, agir. Eu não tinha atitude de questionar alguma coisa, de me levantar, de negar um procedimento. Fui na onda dos acontecimentos, me deixei levar, entreguei o poder de decisão sobre meu corpo, minha saúde e a da minha filha nas mãos da Dra. M. e da instituição.” (Tricia)


É de suma importância conferir os resultados das ações e ideologias no curto, médio e longo prazo: as mulheres não podem sempre terminar por serem as “culpadas”. A obstetrícia tradicional já se incumbe dessa tarefa. 


A humanização é ainda um movimento e uma idéia frágeis. Entretanto, se não soubermos tirar proveito dos tropeços inicias da caminhada só estaremos dando argumento aos detratores. Seriedade é saber assumir os erros inevitávies de todos os começos, somente assim pode-se dar consistência a um bolo de brigadeiro que seja bonito por fora e nutriente por dentro.


Não é produtivo pressionar as mulheres para que se sintam novas Joanas D’Arc imoladas nas mesas duras das frias salas de parto.... É enganoso. O parto não se faz com os músculos, não é filho natural de uma guerra. É direito das mulheres ter um parto natural. E pelos direitos a luta deve ser dura, direta e efetiva. Sem piedade. Mas não é nesse espírito que podemos parir em paz.


Por outro lado temos os muitos bolos podres pingando brigadeiro por cima. Num país com graves falhas sociais, o profissional vestido de branco que parece te tratar bem é visto como “humanizado”. E eles acreditam nisso, ou fingem acreditar: “Ele retrucou que ele não faria um parto assim - um parto onde o médico só deve esperar o neném sair e segurar sua cabeça; isso, para ele, não se faz. E acrescentou: ‘O que estou te oferecendo é um parto humanizado, onde eu vou preservar você e o bebê do sofrimento’” (Maya)


E há os profissionais descolados, prontos para um parto domiciliar, mas ainda não prontos para mexer no próprio bolso e novamente parto vira “coisa para a ‘pequena burguesia esclarecida’” (Liliana), ocupando um mercado em expansão. Mulheres esclarecidas mas sem grana precisam submeter-se novamente à via crucis dos serviços privado e público da realidade obstétrica brasileira. Do que adiantou tanto esclarecimento? Só fez a dor descer mais fundo.


Eis que se a mulher que não paga o que é cobrado é criticada pelos adeptos da humanização-cobertura de brigadeiro: “Ainda que o preço cobrado possa ser justo e mereça ser pago diante da importância e da repercussão que o parto tem na vida da mulher e da sua família, eu e meu marido realmente não tínhamos como pagar pelo serviço particular. E, ao contrário do que já tive o desprazer de ler em algumas listas de discussão sobre partos humanizados, onde as mulheres são acusadas de gastarem levianamente por uma cirurgia plástica ou pela decoração do quarto de bebê, mas se queixam na hora de pagar o obstetra “humanizado” e seu time, nem todas as mulheres pensam e agem assim. Não fiz a decoração do quarto de minhas filhas e muito menos sou adepta de tratamentos estéticos.” (Liliana)


Ninguém duvida que é justo e devido receber pelo trabalho que se faz, mas humanização do parto não pode ser vista como uma nova moda, um novo business para novos profissionais. Humanização é engajamento social, transformação ética. É responsabilidade e serviço.


Ao invés de instigar as mulheres a jogar-se como kamikazes em partos irreais, sem raízes em suas realidades pessoais, financeiras, psicológicas e sociais, é mais efetivo e democrático ajudá-las em suas caminhadas rumo ao que querem para si e seus filhos, oferencendo-lhes a informação e o apoio no respeito à verdade e à diferença. Por outro lado, é socialmente desejável que os profissionais sejam pressionados sem descanso para praticarem um serviço responsável e eticamente engajado.


Humanização é reflexão crítica, questionamento, bom senso e um certo despojamento pessoal. É nosso voto que todos os convidados para esta festa cozinhem muito bem seus bolos para que possamos trocar e dividir em vista de um propósito maior.



*Título pego emprestado de Paloma Terra,  parteira, que teve essa brilhante sacada. 


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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