MEDICALIZAÇÃO x HUMANIZAÇÃO: O CUIDADO AO PARTO NA HISTÓRIA

March 31, 2019

O modelo de assistência obstétrica que encontramos, hoje, no Brasil, é caracterizado por um alto grau de medicalização e pelo uso abusivo     de procedimentos invasivos. A humanização do parto viria como forma de garantir uma assistência baseada na evidência científica e na segurança, e não na conveniência de instituições ou profissionais17.     

Concordando com Prado10, humanizar o nascimento é adequá-lo a cada mãe, a cada pai, ou seja, à família envolvida em cada nascimento. A técnica não pode tornar-se mais importante do que as pessoas envolvidas. O parto deve voltar a ser visto como um processo fisiológico natural e feminino.

Ainda, vale ressaltar que:

[...] o fator determinante para uma boa experiência de parto é o quanto a mulher sentiu-se protagonista do evento, ou seja, qual o nível de controle que ela percebeu ter sobre o processo; o grau em que sua opinião foi ouvida; o nível de informação que lhe foi dada durante os procedimentos e se seu consentimento (para os procedimentos) foi percebido como sendo dado10:1.

Destaca-se a importância do profissional de saúde na assistência ao pré-natal, parto e puerpério, de forma a instrumentalizar a gestante, tornando-a sujeito ativo em todos os acontecimentos relacionados ao parto. Humanizar o parto não significa fazer ou não o parto normal, realizar ou não procedimentos intervencionistas, mas    sim tornar a mulher protagonista desse evento e não mera espectadora, dando-lhe liberdade de escolha nos processos decisórios. Portanto, a assistência deve ser de forma a respeitar a dignidade das mulheres, sua autonomia e seu controle, garantindo a criação de laços familiares mais fortes e conseqüentemente um começo de vida com boas condições físicas e emocionais ao bebê.




Revista Enfermagem UERJ
versão impressa ISSN 0104-3552
Rev. enferm. UERJ v.13 n.2 Rio de Janeiro maio/ago. 2005

 

 

 

ARTIGOS DE REVISÃO


 

Medicalization x Humanization: childbirth along history


Medicalización x Humanización: el cuidado al parto en la historia



Sabrina Lins SeibertI; Jéssica Louise da Silva BarbosaII; Joares Maia dos SantosIII; Octavio Muniz da Costa VargensIV

IAluna do 8º Período de Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rua Ângelo Neves 121/102, Moneró, Ilha do Governador, Rio de Janeiro - RJ. E-mail: dra.seibert@click21.com.br
IIAluna do 8º Período de Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
IIIAluno do 8º Período de Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
IVOrientador, Doutor em Enfermagem, Professor Titular do Departamento Marterno-Infantil da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


 

RESUMO

Este estudo surgiu dos questionamentos dos autores acerca dos procedimentos relacionados ao parto praticados na maioria dos estabelecimentos de saúde, refletindo-se nos altos índices de cesarianas realizadas no Brasil. Objetiva-se, através de pesquisa bibliográfica, do período de 1947 a 2004, analisar a evolução do conceito de parto frente a diferentes paradigmas assistenciais. O cuidado prestado à mulher durante o processo de parir sofreu muitas modificações através dos tempos, decorrentes da medicalização e institucionalização do parto, dos avanços tecnológicos e do desenvolvimento da medicina. Tais mudanças tornaram o parto um processo impessoal em prol da redução da mortalidade materna e neonatal. Atualmente, um novo conceito de atenção à saúde, que focaliza a garantia de qualidade de vida desde o nascimento, vem sendo proposto. Com uma assistência humanizada, evitam-se intervenções desnecessárias e preserva-se a privacidade e autonomia da mulher cidadã.

Palavras-chave: História; humanização; mulher; parto.

ABSTRACT

This study has been inspired by the authors' questions regarding the  childbirth procedures practiced in the majority of health centers, which result in the high taxes of cesarean procedures found in Brazil. The purpose was to analyze the evolution of the childbirth concept in the face of different care paradigms, from 1947 to 2004. The care delivered to women during the process of childbirth underwent many changes along the time, as a result of the medicalization and institutionalization of childbirth, as well as of technological and medical improvements. Such changes turned childbirth into an impersonal process in favor of the reduction of maternal and child mortality. Presently a new concept of heath attention, that focuses the assurance of quality of life since the birth, has been proposed. By the humanization of care, unnecessary interventions are avoided and the privacy and autonomy of women are preserved.

Keywords: History, humanization, woman, childbirth.

RESUMEN

Este estudio surgió de los cuestionamientos de los autores con respecto a los procedimientos relacionados al parto practicados en la mayoría de instituciones de salud, reflejándose en los altos de cesarianas en Brasil. Se objetiva, a través de pesquisa bibliográfica, en el período de 1947 a 2004, analizar la evolución del concepto de parto delante de diferentes paradigmas asistenciales. El cuidado proporcionado a las mujeres durante el proceso de parición experimentó muchas modificaciones a través de los años, como resultado de la medicalización y de la institutionalización del parto, de los progresos tecnológicos y del desarrollo de la medicina. Tales cambios hicieron del parto un proceso impersonal en favor de la reducción de la mortalidad maternal y neonatal. Actualmente, se propone un nuevo concepto de atención a la salud, lo cual enfoca la garantía de calidad de vida desde el nacimiento. Con una asistencia humanizada, son evitadas intervenciones innecesarias y se preserva la privacidad y autonomía de la mujer ciudadana.

Palabras Clave: Historia; humanización; mujer; parto.



Considerações Iniciais

Vivemos, hoje, no Brasil, uma situação alarmante, onde o número de partos cesários está entre os mais altos do mundo, podendo ultrapassar 80% dos casos em instituições hospitalares privadas, além da adoção indiscriminada de práticas desnecessárias, atribuindo-se ao parto normal, muitas vezes, uma conotação negativa perante as mulheres. Sabe-se que tanto a mortalidade materna quanto as esterilizações cirúrgicas estão diretamente relacionadas ao uso abusivo de cesarianas no Brasil, e mesmo assim não temos mecanismos eficientes para seu controle e regulação, submetendo mulheres e recém-nascidos a riscos desnecessários1.

Tal constatação nos chamou a atenção, levando-nos a desenvolver este  trabalho de reflexão teórica, na busca de entender como aconteceu, no decorrer da história, a transformação deste evento natural da vida da mulher em um evento patológico e, portanto, medicalizado.

Para tal, estamos nos embasando em uma revisão de literatura, como forma de nos apropriarmos melhor do assunto, trazendo os aspectos mais importantes deste processo de medicalização e apontando o porquê da necessidade de humanização do parto para o aumento da qualidade no nascimento e a retomada da autonomia feminina.

O texto tem como objetivo analisar a evolução histórica dos procedimentos de assistência ao parto a partir dos conceitos de parto e dos diferentes paradigmas de assistência. Este estudo tem como referencial os paradigmas de assistência descritos por Davis-Floyd 2.

Consideramos que a realização deste estudo poderá influenciar positivamente nas relações interpessoais, de modo que os enfermeiros    atuantes na área se conscientizem, cada vez mais, de seu papel na sociedade, elevando a mulher a sujeito ativo durante todo o processo de nascimento, incentivando a melhoria da assistência e melhorando, conseqüentemente, a relação enfermeiro-cliente-instituição de saúde.      


Metodologia

A pesquisa bibliográfica abrange obras do período de 1947 a 2004, tendo como eixo condutor a evolução histórica do conceito de assistência ao parto. Foram consultadas obras identificadas através das bases de dados LILACS e Scielo, e da busca direta nas bibliotecas setoriais do Instituto de Medicina Social e da Faculdade  de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Escola de Enfermagem Anna Nery da UFRJ.


O Cuidado ao Parto na História

O cuidado prestado à mulher durante o processo de parir sofreu muitas modificações através dos tempos, decorrentes da medicalização    e institucionalização do parto, dos avanços tecnológicos e do desenvolvimento da medicina3. Apesar desses avanços terem correspondido às expectativas de queda da mortalidade materna e principalmente infantil, eles contribuíram para que hoje a parturiente seja a paciente, sem direito sobre o próprio corpo, violada e muitas vezes desrespeitada como ser humano e cidadã - plena de direitos. Ao refletirmos criticamente sobre a dominação do corpo da mulher, percebemos a demarcação do corpo da gestante com nomes médicos, característicos do gênero masculino, sendo eles usados como alguns dos dispositivos simbólicos de dominação4.

No passado, o parto era acompanhado por mulheres em ambiente domiciliar, por parteiras ou comadres, que eram pessoas de confiança    da gestante ou de experiência reconhecida na comunidade, que tinham algum saber acerca dos mecanismos de reprodução5. A participação masculina até o século XII era muito pequena, contrária aos padrões culturais dominantes na época, levando a um atraso no desenvolvimento de uma atividade médica ligada à mulher. A assistência à parturiente era considerada assunto de mulheres, em que as parteiras criavam um clima emocional favorável, com suas crenças, talismãs, orações e receitas mágicas para aliviar a dor das  contrações, e os homens apenas realizavam assistência a partos de animais6.

Aos poucos a figura masculina começa a surgir no cenário do parto, marcando a forte presença do gênero existente na época. Na idade média, dominada pela igreja, tem início a atuação do parteiro-sacerdote, cuja colaboração era pedida pela parteira nos casos complicados7. As parteiras, além de ajudarem no processo de parir, eram benzedeiras que recitavam palavras mágicas para auxiliar no controle da dor e no parto, além de realizar abortos, e serem cúmplices em infanticídios e abandonos, o que deu margem ao descrédito da profissão. A imagem da parteira sempre foi ambígua8, podendo ser valorizada ou condenada conforme fica claro na seguinte citação:

Ela pode ser aborteira ou denunciar mulheres que abortam, tornar-se cúmplice de infanticídios ou auxiliar a reprimi-los, facilitar o abandono de crianças ou participar da procura de mães que doam seus filhos8: 34.

Tal ambigüidade levou a uma intervenção do Estado e da Igreja cujos objetivos alegados eram impedir a realização de abortos e infanticídios, coincidindo com as perseguições às feiticeiras, entre  as quais muitas eram parteiras que foram queimadas pelas fogueiras da Inquisição, conseguindo transformar sua prática em uma atividade suspeita. Segundo Giffin1, a partir do século XVI, essa tradição (partejar) começa a sofrer regulamentações, governamentais ou da igreja, submetendo as parteiras das cidades européias a exames prestados diante de comissões municipais ou eclesiásticas.

Apesar da aproximação médica ao parto no início do século XVI, foi durante os séculos XVIII e XIX que essa prática se desenvolveu, organizou, e se legitimou, em meio aos discursos de exaltação da maternidade9.

A criação do fórceps, pelo cirurgião inglês Peter Chamberlain, e o desenvolvimento da técnica, leva a um declínio na profissão das parteiras, permitindo a expressão concreta da intervenção masculina nos cuidados ao pé do leito, e substituindo enfim o paradigma não-intervencionista pelo parto controlado pelo homem3. Como meio de facilitar tais intervenções, e sob a influência de François Mauriceau, da escola obstétrica francesa, o parto horizontal também passa a ser adotado10.

Mais do que qualquer outro instrumento, o fórceps simbolizou a arte da obstetrícia médica, influenciando sua aceitação como disciplina técnica e científica consolidando definitivamente o conceito de que o parto é um evento perigoso. De acordo com Sato e Brito6:2, a partir daí, o parto acabou sendo caracterizado como evento médico, cujos significados científicos aparentemente viriam a ser privado, íntimo e feminino, e passa a ser vivido de maneira pública com a presença de outros atores sociais.

No entanto, a competição entre médicos e parteiras estendeu-se durante séculos. As parteiras, não tendo acesso à universidade, portanto, ao conhecimento, foram aos poucos se tornando subordinadas aos cirurgiões e físicos e se afastando gradualmente das práticas obstétricas. O avanço do capitalismo industrial acabou por culminar com o monopólio dos médicos no exercício da obstetrícia. Entretanto, foi necessário todo o século XIX para que fossem desenvolvidas novas técnicas de cirurgia, anestesia e para o uso da assepsia durante o trabalho de parto, e a institucionalização do parto foi fundamental para o desenvolvimento de tais técnicas. Com o aprimoramento do saber médico, o índice de mortalidade materna começou a diminuir, o que contribuiu para a aceitação da hospitalização perante a sociedade. Ter seus filhos em hospitais passou a parecer mais seguro para as mulheres9.

No Brasil, o desenvolvimento da obstetrícia não se deu de forma distinta da Europa. No período colonial, as parteiras eram detentoras da arte de partejar, possuidoras do saber empírico e praticantes de artes místicas como forma de minimizar o sofrimento das parturientes.

Entretanto, no Brasil, a evolução da obstetrícia se deu de forma lenta e gradual, uma vez que dependia da vinda de profissionais estrangeiros ou do retorno de alguns aristocratas que tivessem ido estudar na Europa. Quando a corte portuguesa veio para o Brasil, parteiras francesas formadas foram trazidas pela Faculdade de Medicina de Paris. Além de partejar, elas vacinavam contra varíola, sangravam e tratavam de moléstias do útero11.

Em pouco tempo, também foram inauguradas as primeiras faculdades do Brasil, incluindo o curso de parteira. Vale ressaltar que todos os professores dos cursos de farmácia, medicina e de parteiras criados eram médicos, e que permaneceram por décadas apenas como um estudo teórico, utilizando-se bonecos para as simulações. Como forma de facilitar o estudo do corpo da mulher, os médicos do século XIX passaram a discursar em favor da hospitalização, da criação de maternidades e a colocar em dúvida a competência das parteiras12.

Na sociedade colonial, as mulheres tinham seu papel determinado pela vida familiar, vinculado a sua atividade puramente reprodutiva, onde se podia perceber uma tendência pró-natalista, com a igreja fomentando a procriação e atribuindo aos sofrimentos decorrentes do parto uma oportunidade purificadora, redentora dos pecados, para a ressurreição. Giffin e Costa1, ao falarem sobre o início da dominação do corpo feminino, na época, relatam que de forma particular e decisiva a igreja teve como grande aliada a medicina. Médicos e padres tinham acesso à intimidade das mulheres, mesmo que com objetivos distintos: um voltado ao cuidado com a alma; o outro, com o corpo.

Esse projeto colonizador pró-natalista transcorre até o pós-guerra enquanto começam a surgir movimentos favoráveis ao controle demográfico nos Estados Unidos e Europa, com o argumento de que o crescimento econômico e o desenvolvimento só poderiam ser alcançados com a redução do ritmo do crescimento demográfico. Entretanto, além das dificuldades técnicas e dos costumes da época, a obstetrícia teve como principal impasse a noção da própria medicina de que esta era uma prática de menor valor, relacionada principalmente pelo fato de que era uma atividade caracteristicamente feminina. O final do século XIX foi marcado por discussões acerca de a quem competia o cuidado com o parto, e as declarações oficiais afirmavam não ser digno de um médico ou cirurgião tal prática, cabendo-lhes apenas os atendimentos mais graves, onde se necessitava a utilização do fórceps ou a execução de cesarianas7,9.

Vale destacar que a posição das mulheres frente ao processo de medicalização não foi propriamente a de vítima4. As mulheres de classe mais alta não aceitavam mais sentir a dor do parto e não desejavam correr mais riscos, além de parir com a assistência de um médico significar maior poder aquisitivo de seus maridos. Com isso, a consolidação do processo de medicalização e hospitalização do parto acontece em meados do século XX, juntamente com o surgimento das grandes metrópoles e a criação de hospitais, marcando o fim da feminilização do parto, levando ao predomínio do parto hospitalar, marcado por intervenções cirúrgicas, utilização de fórceps profilático e episiotomias desnecessárias5.

Hoje, que nos encontramos na época do desenvolvimento da engenharia genética, fertilização in vitro e da medicina fetal, vivemos um grande dilema, no qual o uso indiscriminado da tecnologia transformou o parto num acontecimento perigoso e distante da mulher, roubando-lhe a autonomia e privacidade, fazendo muitas vezes com que este evento natural se transforme em um momento traumatizante para a gestante.

Durante a história, a medicina adquire o poder de transformar eventos fisiológicos em doenças, representando uma forte influência ideológica na nossa cultura, capaz de tratar a gravidez e a menopausa como doenças, transformando a menstruação em um distúrbio crônico e o parto em um evento cirúrgico.

No entanto, acreditamos ser de grande valia a seguinte observação:

Países como Holanda e Inglaterra, com índices de mortalidade materna e infantil baixíssimos, ainda baseiam toda a assistência ao parto na  figura da obstetriz ou parteira. Nestes países os médicos obstetras são considerados especialistas que tratam apenas de eventuais complicações e das gestações de risco. As obstetrizes cuidam do pré-natal e fazem o parto normal da grande maioria das mulheres13:1.

Levando em consideração tais evidências, entre tantas outras, não podemos deixar que o saber médico dominante use os conhecidosfatores de risco - preocupação com a segurança da gestantes e do bebê - como forma de justificar a medicalização do processo natural de nascimento, desacreditando qualquer alternativa diferente da tradicional14.


Medicalização como Modelo Tecnocrático

O modelo tecnocrático, conforme descrito por Davis-Floyd2, representa a corrente de pensamento convencional que norteia a prática da assistência obstétrica há várias décadas e que surge com a entrada do homem no atendimento ao parto, e com sua institucionalização situando e elevando a mulher na condição depaciente, sem autonomia sobre o seu corpo, separada dos familiares e do próprio filho ao nascer. O parto é encarado como um processo patológico, de caráter intervencionista e biologicista2,15.

Nesse modelo, a mulher perde sua autonomia, deixando o profissional escolher qual conduta seguir. Inúmeros procedimentos tecnocráticos são incorporados como rotina na assistência ao parto constituindo uma prática mecanizada, como o são os procedimentos de tricotomia da  região genital, a enteróclise, a episiotomia e a anestesia. Para Vieira que cita Miles9, medicalizar significa transformar aspectos da vida cotidiana em objeto da medicina de forma a assegurar conformidade às normas sociais.

A posição ocupada pelo Brasil atualmente, como um dos países com as maiores taxas de cirurgias cesarianas, é reflexo do processo de medicalização do corpo feminino que ocorreu e vem ocorrendo ainda hoje16.

Esse modelo também tem como característica a adoção de rotinas rígidas que levam à desper-sonalização das gestantes e à supervalorização da tecnologia em prol da segurança durante o trabalho de parto, atribuindo à cesariana uma conotação banal, muitas vezes realizada por conveniência dos envolvidos no processo (hospitais, equipe médica, ou mesmo a própria mulher grávida), independente da urgência obstétrica. Diniz e Chacham ao citar The better birth initiative 17:13 ainda salientam que o uso crescente da tecnologia na gravidez também tem como conseqüência o direcionamento da atenção do médico para o feto, deixando a atenção com a mãe em segundo plano.

Vemos, também, que muitas medidas tomadas priorizam a higiene pensando em favorecer o indivíduo, ficando esquecidos os aspectos espirituais, psicológicos e sociais das parturientes, além da separação mãe-bebê (berçário) que foi utilizada por muitos anos como forma de aumentar a segurança (ou controle).


Humanização como Paradigma Proposto na Pós-modernidade

O modelo humanístico, de acordo com a descrição de Davis-Floyd2, consiste em uma corrente de pensamento que adota atitudes não-convencionais para nortear a assistência obstétrica, e que surge a partir dos questionamentos ao modelo biológico-medicalizado, com grande influência do movimento feminista.

O humanismo tem como princípio não seguir o modelo convencional, elevando a mulher a sujeito, dando-lhe direito a escolhas, valorizando a participação da família e procurando incentivar ao máximo a participação ativa do acompanhante na hora do parto15.

A gestação e o parto são processos que geralmente transcorrem sem complicações. Em vista disso, é necessário que o profissional de saúde tenha uma visão crítica, evitando intervenções desnecessárias e potencialmente iatrogênicas. Humanizar significa respeitar a individualidade da mulher16.

De acordo com Diniz e Chacham17:67,

a assistência mais efetiva seria, portanto, centrada nas necessidades das parturientes, em vez de organizada segundo as necessidades de instituições e dos profissionais.


Porque Humanizar

O modelo de assistência obstétrica que encontramos, hoje, no Brasil, é caracterizado por um alto grau de medicalização e pelo uso abusivo     de procedimentos invasivos. A humanização do parto viria como forma de garantir uma assistência baseada na evidência científica e na segurança, e não na conveniência de instituições ou profissionais17.     

Concordando com Prado10, humanizar o nascimento é adequá-lo a cada mãe, a cada pai, ou seja, à família envolvida em cada nascimento. A técnica não pode tornar-se mais importante do que as pessoas envolvidas. O parto deve voltar a ser visto como um processo fisiológico natural e feminino.

Ainda, vale ressaltar que:

[...] o fator determinante para uma boa experiência de parto é o quanto a mulher sentiu-se protagonista do evento, ou seja, qual o nível de controle que ela percebeu ter sobre o processo; o grau em que sua opinião foi ouvida; o nível de informação que lhe foi dada durante os procedimentos e se seu consentimento (para os procedimentos) foi percebido como sendo dado10:1.

Destaca-se a importância do profissional de saúde na assistência ao pré-natal, parto e puerpério, de forma a instrumentalizar a gestante, tornando-a sujeito ativo em todos os acontecimentos relacionados ao parto. Humanizar o parto não significa fazer ou não o parto normal, realizar ou não procedimentos intervencionistas, mas    sim tornar a mulher protagonista desse evento e não mera espectadora, dando-lhe liberdade de escolha nos processos decisórios. Portanto, a assistência deve ser de forma a respeitar a dignidade das mulheres, sua autonomia e seu controle, garantindo a criação de laços familiares mais fortes e conseqüentemente um começo de vida com boas condições físicas e emocionais ao bebê.

Entretanto, vemos que na prática ninguém empodera ninguém. O obstetra (médico ou enfermeiro) pode dar excelentes condições para que a gestante conduza o próprio parto, mas se a mesma não estiver interessada, não for o seu momento, todos os esforços serão em vão18.

É necessário que os profissionais que atuam durante o parto se conscientizem de seu papel no processo. Não importa se médico, enfermeira, ou parteira, a mulher e o bebê devem ser o principal foco de atenção, buscando-se transformar esse momento tão especial da vida em uma lembrança agradável e de união.

Hoje, o número de solicitações para partos fora do ambiente hospitalar vem aumentando como alternativa de nascimento em ambiente    mais natural. De acordo com Thorell 19, esses pais valorizam o ambiente mais caseiro, que torne o nascimento mais agradável. Eles consideram que a estrutura hospitalar tradicional propicia ansiedade. Entretanto, a maioria dos partos ainda ocorrem em ambiente hospitalar, sendo que outras formas de atendimento ao parto estão sendo introduzidas aos poucos nas unidades de saúde como forma de proporcionar mais conforto às parturientes. Espaços não tão convencionais também estão sendo inseridos na rede de atendimento obstétrico, como as casas de parto normal, que visam proporcionar um  atendimento mais humanizado em um ambiente mais acolhedor.


Considerações Finais

Pudemos perceber que os significados culturais relativos ao parto sofreram grandes transformações no decorrer dos séculos. O parto aos poucos foi se tornando território de exploração masculina. A mulher era atendida apenas na sua atividade reprodutora, e o lado humanístico da assistência ainda não era valorizado. O modelo tecnocrático passa a ser seguido por diversos países como forma de diminuir as altas taxas de morbi-mortalidade materna e perinatal.

Apesar de concordar que a cesariana contribuiu com a queda da morbi-mortalidade materna e perinatal, deve-se ressaltar que sua prática indiscriminada, além de consumir recursos do sistema de saúde, viola o exercício dos direitos reprodutivos por parte das mulheres, que se    vêem incapazes de engravidar, gerar e parir isentas de intervenções médicas. Além disso, os riscos advindos do parto cesáreo são bem maiores, tanto para a mãe quanto para o bebê.

Para a sociedade atual, não cabe mais um modelo totalmente tecnocrático. É preciso questionar o modelo imposto diante dos direitos de cidadania e das preferências individuais. Não se aceita mais passivamente as agressões sofridas durante o parto e é nosso dever propor formas alternativas de atendimento.

Devemos incorporar o novo conceito de atenção à saúde, que ressalta a garantia de qualidade de vida desde o nascimento, com uma assistência humanizada, evitando-se intervenções desnecessárias, e preservando a privacidade e autonomia da mulher cidadã16.


Referências

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2. Davis-Floyd R. The technocratic, humanistic and holistic paradigms of childbirth. Austin (Tex): International J Gynecol & Obst 2001; 75:5-23.         [ Links ]

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14. Odent M. O renascimento do parto. Florianópolis (SC): Saintgermain; 2002.         [ Links ]

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16. Ministério da Saúde (Br). Secretaria de Políticas de Saúde. Área  Técnica de Saúde da Mulher. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2001.         [ Links ]

17. Diniz SG, Chacham A. Dossiê humanização do parto. São Paulo: Rede Feminista de Saúde; 2002.         [ Links ]

18. Parto humanizado. Afinal, o que caracteriza a humanização? Disponível em World Webhttp://www.partohumanizado.blogger.com.br/2003_05_01 _archive.html#1275992. Acesso em 24 jun. 2004.         [ Links ]

19. Thorell A. Uma introdução à enfermagem materna. 6ª ed. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1995.         [ Links ]



Recebido em: 15.01.2005 Aprovado em: 14.06.2005 

Fonte: http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-35522005000200016&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt 

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