MULHERES MEDICALIZADAS. POR QUE TANTAS MULHERES QUE BUSCAM ATIVAMENTE O PARTO NATURAL ACABAM EM CESÁREAS?

 

A person has to awaken to wonder
- and so perhaps do peoples.
Science is a way of sending him to sleep again. 
Ludwig Wittgenstein

 



Esta é uma pergunta que muitos se fazem. É um questionamento legítimo e necessário, dada a frequência com que acontecem cesáreas entre mulheres que querem o parto natural, e possivelmente domiciliar. Estou pensando nas militantes ativas, informadas e “empoderadas”.


Alguém tem uma resposta para isso? Sei, existem várias “razões” médicas, mas, uma vez que todo mundo está cansado de ouvir e de repetir que o parto não é um evento médico, sera que poderíamos começar a  raciocinar sobre ele em termos humanos? Humano aqui é psicológico-existencial-filosófico, porque ninguém existe sem isso. Estou falando do que se refere à dimensão comum, universal e íntima de cada um de nós, de qualquer cor, sexo e opções de parto.


Voltando: podemos pensar no que, humanamente falando, leva um parto a se transformar no contrário daquilo que sua “dona” quer? Por que há partos (e bebês!) que decepcionam tão amargamente as mulheres informadras, ativistas e “empoderadas”?


A resposta é muito simples: porque essas mulheres se “medicalizaram” a tal ponto que continuam tão perdidas em relação à capacitação a parir quanto suas irmãs que escolhem a cesárea. A miLitância feminina da humanização do parto comete o erro – normal nos estágios iniciais do “despertar” – de permanecer dentro do mesmo paradigma contra o qual luta. Pessoalmente, assisti ao alvorecer dessa mentalidade, ao seu florescimento e espraiamento. Agora todos podemos ver seus frutos.


Ao querer retirar o médico do controle do parto (correto), elas tendem a assumir o lugar do próprio (errado). Bombardeando seu néo-córtex de informações científicas (as famosas Evidências Científicas), elas acabam, a despeito de suas melhores intenções, com o mesmo vício profissional de todos os profissionais de saúde (medo, insegurança, e a sutil desconfortável sensação de que nunca se sabe tudo). Com o agravante que elas têm a pele fina e o estômago delicado de uma novata, que, ainda por cima, está lidando com seu próprio corpo e a vida de seu próprio filho. Saber demais significa ficar pregadas na cruz entre a “clareza evidente da ciência” e as angústias caladas da mulher-mãe que vai passar por um rito de iniciação que desconhece por definição (cada parto é irrepetível). Essas mulheres acabam por recalcar ainda mais a espontaneidade, simplicidade e fé que no parto são mais importantes do que todos os volumes de obstetrícias e as conversas “empoderadoras” do mundo. 


Ludwig Wittengstein (filósofo austro-hungárico, 1889-1951), dizia: a filosofia é como uma escada, ao chegar lá em cima, se joga fora a escada. Todo conhecimento é um trampolim. O objetivo é chegar àquela simplicidade do Tao, aquele estado onde você não lembra e nem sabe mais de detalhes, teorias e hipóteses. Você simplismente É. Digeriu o saber, incorporou-o em teu ser, comeu, matabolizou-o. O objetivo é Ser (conscientes), não trancafiar-se atrás de teorias e explicações racionais. O conhecimento deve circular pelas veias, nutrir as células, flexionar os músculos, mexer os dedos dos pés. E deve estar presente na medida e combinação certa que seu ser necessita para sua evolução e florescimento.


Ao invés disso, a ingenuidade das aprendizes feiticeiras as leva a lidar com sua gravidez e a planejar o parto como se fosse um jogo de xadrês intercalado por momentos à la Indiana Jones, driblando médicos, datas, exames e possíveis contratempos. Se torna uma questão de Ego: eu sou mais forte do que fulano, do que o sistema, do que tudo. Lembro uma vez de ter lido a frase de uma das líderes mais idolatradas: “Querer é poder – ela escreveu – e querer muito é poder muito.” Uau. Impressionante afirmação do Ego. Tem sua margem de verdade. Não é? E concordo com ela. Sem esta corajosa autoafirmação do Ego, o que seria da gente? Estaríamos à mercê de tudo como folhas ao vento. O problema é que quando esta frase é proferida sem senso crítico e lançada ao mundo de forma absolutista, no lugar de libertar, legitima a presunção e o fanatismo.


Agora, o que essa postura tem a ver com o dar à luz? Com a entrega doce, dolorida, sensual, amorosa, confiante do dar à luz? Como pode uma mulher que fez funcionar o seu néo-córtex adoidadamente por nove meses, que está em contato com centenas de pessoas pela internet, dando palpites de todo o tipo, que está vinculada a informações científicas e as usa para aplacar seus medos, como uma mulher assim, de um dia pro outro, na virada da lua, pode decidir que vai agora desligar o neo-cortex e simplesmente parir? 


Estamos falando de máquinas ou de seres humanos?


Imaginem preparar-se para A Relação Sexual, a única, esperada e agoniada. Por nove meses você lê livros, se informa, conversa com as “pessoas certas” (ou seja, aquelas que te mostraram “O Caminho”). Sabe tudo ou quase de posições sexuais, fisiologia da sexualidade, o que dá prazer a ele e a você, etc. Aí, finalmente chega o Grande Dia, a prova, a demonstração de que você foi uma aluna excelente. Todos os holofotes estão sobre você, não só os teus pessoais, não só toda a tua própria expectativa, como aquela de centenas de outras mulheres aspirantes a próximas “alunas excelentes”... Bom, chega esse dia e... o que acontece? Por que não foi a “experiência sublime” do qual os mestres falaram?


Na minha forma de ver, eu diria que simplesmente há um excesso de Atena, tudo muito mental e racional. E há também um excesso de Hera, “Eu, a senhora do mundo”, muito ego, muita raiva embutida, muita coisa não resolvida e camuflada pelo “empoderamento”. Falta penosamente Héstia, Perséfone nem se fala (quem vai se dar o trabalho de olhar-se dentro? Argh!).


Desta forma, é impossível alcançar Ártemis, a senhora do parto. Simplesmente impossível. É como querer ter um parto à la Leboyer e Odent em plena Avenida Paulista na hora de ponta. O movimento de informações é tão intenso, mais os medos não reconhecidos e negados, mais as inseguranças normais às quais se quis responder com informações científicas – tudo isso faz um tal barulho dentro que impede aquela “santa paz da Deusa” do qual o parto precisa.


Conclusão: cuidado para não usar racionalizações mesmo “empoderadas” para resolver as inseguranças e os medos que estão por baixo. Nenhuma mãe daria um livro de física sobre o fenômeno da luz para ajudar seu filho a superar o medo do escuro. E é isso que as muitas militantes estão fazendo: empoderam suas mentes racionais com evidências científicas e manuais obstétricos no lugar de fazerem empoderarem seu ser interior, a fêmea, a mulher, a deusa.


Para fazer um bolo gostoso é preciso de vários ingredientes e cada um em doses diferentes. Encher a massa de fermento para crescer, inflando o peito e o néo-córtex, ou despejar um monte de açucar para adoçar a pílula dos próximos medos ao som de evidências científicas, não faz fazer um bolo decente. Falta a modesta farinha. Falta a conexão consigo própria. Falta inteireza, humildade e simplicidade de coração.

 

 

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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