O NASCIMENTO DE UM NOVO PARADIGMA

Após séculos de submissão, as mulheres buscam reconhecimento com quem participa diretamente do processo de crescimento de um novo ser, conquistando um espaço privado para o surgimento de uma nova história, na qual é inserida como protagonista, atrizes de suas vidas (BARROS; ROCHA, 2008).

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Historicamente o sujeito deste presente trabalho foi subjugado pela cultura patriarcal dominante e seu poder opressor.  A mulher, classificada e denominada à partir do olhar do homem,  não tinha direitos sobre o seu corpo, este sendo sempre  inferior e dependente ao corpo masculino. Alain Touraine (2007, p. 208), em um dos seus estudos, afirma que o lugar central é das mulheres, pois foram elas vítimas da polarização das sociedades que acumularam todos os recursos nas mãos de uma elite dirigente. É através da revolução feminina que a mulher mostra ao mundo sua voz e vai ao encontro da sua essência, em busca de sua liberdade e autonomia. Este trabalho pretende abordar o mover da mulher rumo a sua identificação, manifestação e empoderamento, através do evento predominantemente  feminino e transformador que é a gestação e nascimento, o ser mãe. 

 

 

 

AS DONAS DA HISTÓRIA

 

O interesse para a realização desse trabalho reflete de um caminho percorrido, uma soma de vivências divididas entre o ser mulher na contemporaneidade, sua construção e o ser enfermeira. Ser está naquilo que é e como é, na realidade, no ser simplesmente dado, ou seja, é desdobrar-se em possibilidades, buscando sentido para as vivências e experiências em seu tempo enquanto sujeito de singularidade, único no jeito de ser, pensar, agir e estar no mundo (HEIDEGGER, 2002 apud BARROS; ROCHA, 2008).

 

Estaria na síntese dessas vivências a origem dos meus questionamentos acerca do papel da mulher, que luta para transformar submissão em protagonismo, como também a postura dos profissionais que a assiste. Tal postura na maioria das vezes influenciada pela visão distorcida da atenção a saúde da mulher, encharcada pelo modelo hegemônico de cuidar da medicina, centrado no hospital, desrespeitando o direito de autonomia da mulher em seu processo de saúde, em uma lógica biologicista, com uma concepção mecanicista e fragmentada do corpo humano (DA ROS, 2000 apud SANTOS, 2002, p.70).

 

A abordagem cartesiana, disseminada por Decartes, foi coroada de êxito, especialmente na biologia, mas também limitou as direções da pesquisa científica. Afirma Fritjof Capra (2006, p. 37) que o problema é que os cientistas, encorajados pelo êxito da abordagem cartesiana em tratar os organismos vivos como máquinas, passaram a acreditar que estes nada mais são que máquinas. As consequências adversas dessa falácia reducionista tornaram-se especialmente evidentes na medicina, onde a adesão ao modelo cartesiano do corpo humano como um mecanismo de relógio impediu os médicos de compreender o ser humano.   

 

Essa abordagem cartesiana tem por base a cultura patriarcal que estabeleceu uma ordem rígida em que se supõe que todos os homens são masculinos e todas as mulheres, femininas, e distorceu o significado desses termos ao conferir aos homens os papéis de protagonistas e a maioria dos privilegiados da sociedade (CAPRA, 2006, p. 34). O que no campo da obstetrícia reflete no domínio do corpo feminino e de suas decisões acerca do parto ou do que é o “melhor” para a mulher e seu bebê. Andrea Robertson (2011) faz as seguintes perguntas: As mulheres foram enganadas para confiar nas pessoas erradas durante o parto? Colocamos nossa fé em médicos homens quando nós deveríamos ter tido mais fé em nós mesmas? Tais perguntas apontam para uma uma a mudança de valores, o declínio lento, relutante, mais inevitável do modelo cartesiano e do patriarcado, a partir de questionamentos vindo de mulheres que estão cada vez mais ativas e buscando a identificação e entendimento do self, dos seus direitos e papel nesse mundo, onde a motivação por esse mover está diretamente relacionada a gestação e nascimento, por serem esses eventos inerentemente femininos e transformadores. O nascimento se encontra no âmbito das aberturas para o mundo, onde o ser mulher será constituído, dando lugar a um vir a ser mais espontâneo e realizador. A mulher se reconhece e se faz reconhecida como um ser capaz.

 

Talvez o mais importante em tudo isso seja o fato de o antigo sistema de valores estar sendo desafiado e profundamente modificado pelo surgimento da consciência feminista que se originou do movimento das mulheres (CAPRA, 2006, p. 43). 

 

O movimento pela humanização tem no Feminismo uma de suas principais inspirações. Da anterior e inacabada luta pela emancipação das mulheres pôde resultar, de um lado mulheres que levam a sério o que querem, buscam informação, questionam e agem autonomamente; do outro, profissionais que levam a sério a experiência delas, que podem ouvi-las e questionar modelos de atendimento pré-estabelecidos. Pois, se as mulheres fossem meros objetos (mesmo que “delicados”) da ação obstétrica elas mereceriam somente impessoal piedade por suas “dores de parto” e seu “destino cruel de mulher”; mas quando são vistas como sujeitos sua voz pode ser ouvida e o diálogo tem condição de nascer (TANESE NOGUEIRA, 2011)

 

Após o nascimento de minha filha Mel, em casa, pude vivenciar a divindade do parir inteira, o que Jung (2000) apud Xavier (2006, p. 185) define como numinoso,  sentimento avassalador da totalidade da alma. Uma vivência extra-espacial e extra-temporal, pois o tempo e o espaço na hora do parto são perdidos, o universo “para”, nada mais importa, só aquele momento. Num sentimento de libertação, o parto ativo gera uma completude com a natureza.  O parto domiciliar põe em evidência um duplo aspecto da pessoa: seu caráter ao mesmo tempo imanente [dotado de uma essência pessoal - um “viajante”, um “espírito”], e transcendente [como parte da realidade cósmica da natureza e ligado à noção de pessoa enquanto ser “sensível” ao mundo social e em relação permanente com ele.] (SOUZA, 2005, p.109)

 

Parir ativamente tornou possível sentir o poder da minha feminilidade e do ato fisiológico, sem a necessidade de utilização de nenhum medicamento, onde a própria força da essência feminina se torna irreprimível. Essa experiência me trouxe a oportunidade de conhecer mulheres que estão cada vez mais conscientes de seus direitos, não aceitando mais a medicalização de seus corpos, exigindo a mudança no paradigma atual da assistência ao parto, uma nova visão da realidade, uma mudança fundamental nos pensamentos, percepções e valores. Com elas pude ter a confirmação de que o parto não somente transforma toda a realidade, mas retoma o encontro ao self. O construto self expressa na teoria de Jung a totalidade da personalidade global – como unidade na qual se unem os opostos constituintes da psique. É o arquétipo central da ordem, da totalidade do homem (JUNG, 1975 apud XAVIER, 2006, p. 188). 

 

Permitir-se sem a necessidade de aprovação de terceiros, encontrar-se sem a necessidade absoluta de outrem, pois o nascimento é um evento íntimo e pessoal, onde a mulher deve enfrentar-se, ver a realidade e não apenas um reflexo no espelho. E estar preparada para esse evento, para o nascimento, nos pede esse reconhecimento, no qual deveria ser um dos principais objetivos das preparações para o parto. Afim de uma decisão consciente de onde queremos estar, de como e com quem queremos parir a partir de quem somos. É deixar que seus sentimentos se manifestem  para conseguir  confrontar aqueles que a impeçam de prosseguir, e deixar manifestar sua sabedoria  intuitiva que é tão segura e válida quanto o pensamento racional 

 

O pensamento racional e o intuitivo são modos complementares de funcionamento da mente humana.  O pensamento racional é linear, concentrado, analítico. Pertence ao domínio do intelecto, cuja função é discriminar, medir, classificar. Assim, o conhecimento racional tende a ser fragmentado. O conhecimento intuitivo, por outro lado, baseia-se numa experiência direta, não intelectual, da realidade, em decorrência de um estado ampliado de percepção consciente. Tende a ser sintetizador, holístico e não-linear. Daí ser evidente que o conhecimento racional é suscetível de gerar atividade egocêntrica, ao passo que a sabedoria intuitiva constitui a base da atividade ecológica (CAPRA, 2006, p.35)

 

 Por fim é estar preparada para o incerto, ter a certeza de que nada é somente fisiológico e controlável pois estamos falando aqui de natureza.  A mulher que for sujeito de seu parto, independentemente se este tenha sido natural ou não, alcança uma consciência e vivência diferenciadas de sua maternidade, terá no mínimo descoberto novas e encorajadoras potencialidades em si mesma, das quais não tinha consciência anteriormente (TANESE NOGUEIRA, 2011). 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

No material de discussão do Curso de Educadora Perinatal, Adriana Tanese  Nogueira faz a seguinte reflexão: “Meninas, vcs percebem que estamos realmente criando um novo conceito de maternidade? Não é fantástico??  Mulheres em busca de si mesma, usando a maternidade como trampolim para sua evolução num misto de necessidade e vontade!” 

 

Em resposta deixo esse trabalho de conclusão de curso e digo que sim, é fantástico! Permitir os enfrentamentos, mudanças e os conhecimentos que o parir nos proporcionam, o transpor barreiras, lutar por aquilo que acreditamos, fazer valer nossas escolhas e decisões conscientes, ser mulher, ser mãe. Sim é fantástico poder nos transformar, evoluir, reconhecer nosso corpo e ter a certeza da grandiosidade que há no nascimento, pois esse é capaz de mudar o mundo. 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

BARROS, N. J.; ROCHA, M. M. S. Mulher, Mãe e Profissional: Uma breve discussão sobre o reflexo dessas escolhas no modo de ser mulher. Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, Ipatinga, 2008.

 

CAPRA, F. C. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 2006, 448f.

 

FLOYD, R. D. Os paradigmas tecnocrático, humano e holístico do parto. ONG Amigas do Parto, 2011. Disponível em: http://www.ongamigasdoparto.com/2011/07/os-paradigmas-tecnocratico-humanizado-e.html

 

TANESEN NOGUEIRA, A. Humanização do parto e feminismo. ONG Amigas do Parto, 2011. Disponível em:  http://www.ongamigasdoparto.com/2011/03/humanizacao-do-parto-e-feminismo.html

 

ROBERTSON, A. A dor do parto: uma questão feminista. ONG Amigas do Parto, 2011. Disponível em: http://www.ongamigasdoparto.com/2011/05/dor-do-parto-uma-questao-feminista.html

 

SANTOS, M. L. Humanização da assistência ao parto e nascimento. Um modelo teórico. Dissertação de mestrado em saúde pública. Departamento de Pós-graduação em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Catarina, 2002. 

 

SOUZA, H. R. A Arte de Nascer em casa: Um olhar antropológico sobre a ética, a estética e a sociabilidade no parto domiciliar contemporâneo. Santa Catarina, 2005. 156f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina, 2005. 

 

TOURAINE, A. O Mundo das Mulheres. São Paulo: Vozes, 2007, p.208  

 

XAVIER, M. O conceito de religiosidade em C. G. Jung. v. 37, n. 2, pp. 183-189, maio/ago, 2006.

 

Roberta Mattos de Souza é enfermeira. Email: roberta1986@gmail.com

 

Monografia de conclusão do curso de formação Educadora Perinatal. Junho 2012.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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