O PARTO COMO FATO SOCIAL E CONDIÇÃO DE GÊNERO

A abordagem ao parto muda conforme o país no qual acontece. Isso porque o parto é um fato social, sua visão e prática dependem da sociedade no qual está inserido. Não podemos compreender o porquê o parto é vivenciado, praticado e ensinado numa determinada maneira sem compreender a sociedade e, sobretudo, as relações sociais de gênero desta sociedade. Relações de gêneros são as relações entre homens e mulheres situadas na realidade social. Uma relação de amor também é uma relação de gênero, uma vez que ela é realizada por um homem e uma mulher que cresceram e se formaram mental e emocionalmente num determinado contexto histórico-social e cultural. Todos

somos historicamente condicionados, manifestamos os preconceitos típicos de nosso tempo, classe social, visão de mundo, padrão afetivo e psicológico. Não podemos estar imunes a esse tipo de condicionamento, porém, podemos estar conscientes dele e nos libertar na medida do possível e do desejável. Ter consciência de nosso lugar e de suas (de)limitações é um traço que caracteriza a nova ciência, a nova psicologia e o pensamento feminista.

O parto não poderia fugir dos condicionamentos culturais e das relações de gênero, uma vez que ele é um fato que acontece às mulheres e uma vez que a medicina é um campo prioritariamente masculino e seu modelo de análise está fundamentado naquelas que a psicologia junguiana associa a características masculinas: razão, praticidade, rapidez, linearidade no pensamento, tecnologia. Apesar destas qualidades (masculinas) serem positivas em si, elas se tornam negativas quando assumem o monopólio na forma de entender a realidade e, sobretudo, produzem estragos quando aplicadas ao pé da letra ao parto. Como a sabedoria chinesa conhece há milênios, o Tao, o caminho do meio como síntese dos contrários, é o método e o fim que dá resultados positivos.

A realidade social na qual as mulheres estão inseridas não é favorável a ela e as características psicologicamente associadas ao feminino (sensibilidade, sentimento, intuição, ciclicidade, conhecimento vivencial, receptividade) não são nem apreciadas nem muitas vezes levadas em conta. Não são valorizadas no dia a dia, no âmbito profissional, no mercado e muito menos na forma como se faz ciência e se aplica a medicina. Estando num mundo estranho a valores femininos, as mulheres também são peixes fora d’água todas as vezes que suas qualidades femininas seriam necessárias e, no entanto, são rechaçadas.

O parto é um típico exemplo disso: o intervencionismo, ato tipicamente fálico, que lembra guerreiros em batalha, heróis em ação, é absolutamente prejudicial e deletério, quando cego e surdo, para mães e bebês na hora do parto (exatamente como Áries, o Deus grego da guerra, perdia a cabeça no corpo a corpo sangrento das batalhas e se entregava à luta extremada, cega e obsessiva. Por este motivo era desprezado pela Deusa grega Atena, que usava a guerra como um instrumento racional finalizado a um bem coletivo). A tecnologia que salva vidas, usadas por “guerreiros em ação”, provoca danos à vida. A ausência do princípio feminino é evidente na falta de bom senso quando se lida institucionalmente com parto, amamentação e maternidade. As instituições sociais e a própria estrutura da sociedade são projetadas por homens para homens na faixa etária em que podem produzir.

Mulheres com seus ciclos, tempos e ritmos, seus filhos, menstruações, menopausas, mamadas, mulheres com olheiras por noites sem dormir, preocupadas com filhos, doenças, notas escolares, problemas de aprendizado, solidão... Mulheres assim têm pouco espaço e pouca compreensão na realidade social em que vivemos. Mulheres com seus úteros são um estorvo para muitas empresas. Bebês que choram que precisam de colo, de presença, de silêncio, de alegria e harmonia incomodam, nada têm a ver com produtividade, controle do tempo, agendas lotadas, barulho e prazos.

As relações de gênero são uma forma de dizer que as relações entre mulheres e homens não são nem inócuas nem neutrais na nossa cultura. O quinhão feminino que as mulheres encaram todos os dias não é reconhecido e as mulheres não têm o poder social que lhes caberia pelo trabalho e pela humanidade que carregam. Impossível transformar a questão do atendimento ao parto, do modelo obstétrico de assistência ao parto, do ensino acadêmico e das relações médico-gestante, sem mexer com o desconfortável conceito de gênero como relações de poder entre homens e mulheres.

A experiência do parto contém um ingrediente diretamente ligado à dimensão de cidadania. Ela levanta as questões relativas ao lugar que as mulheres ocupam na sociedade, a suas atitudes cidadãs, a seu poder (ou impotência) social, seu reconhecimento (ou invisibilidade), sua voz (ou seu silêncio). Todas as verdadeiras transformações interiores se refletem em novos comportamentos e atitudes no mundo. Estamos diante a um novo desafio para as mulheres.

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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