PARTO, PSICOLOGIA E CIDADANIA

Cada parto faz sentido para a mulher que o teve. Que ele reflita seus desejos ou não, aquele parto ocorreu como resultado de algo que ela provocou, consciente ou inconscientemente. O parto, como toda experiência de vida é o produto de quem somos.


Desatar os nós emocionais que estão na origem do desfecho do parto, e cujas consequências se espalham no pós-parto, é o trabalho da psicoterapia. Uma doula pós-parto tem alcance na medida em que torna a mulher consciente de que precisa se cuidar num nível mais profundo.


Mas, poém, outro viés dessa mesma situação. Se, como educadoras perinatais (e não como psicólogas), quisermos preparar a mulher para o parto, ela precisa ter conhecimento da realidade na qual vive. Não podemos, numa suposta atitude maternal, poupá-la das realidades doloridas do sistema que nos rodeia. 

 

A verdade derradeira é que vivemos em meio à injustiças sociais, intervenções obstétricas desnecessárias, sistema abusivo, autoritarismo por parte dos profissionais de saúde, desatualização e incompetência. Há mulheres que, “por princípio” se submetem ao sistema, outras que se vêem sem alternativas. Os bebês de ambas, que nada têm a ver com a problemática de suas mães ou as obstusidades obstétricas, sofrem, entretanto, nascimentos péssimos. Não nascem, são nascidos.

 

A educadora perinatal é uma cidadã ativa que se encontra numa posição desconfortável, que ela terá que sustentar. Ela pode se sentir desconfortável em falar no que "pode ser" sabendo "o que será". O que fazer, então? Oferecer somente a informação que se encaixa com o que a mulher grávida poderá experimentar ou ampliar o leque e, por assim dizer, abrir o jogo?

 

Perguntas provocatóras são funcionais ao despertar da consciência feminina.  Conforme escreve uma nossa formanda em educação perinatal, Cristiane: “Por exemplo, falo das intervenções no grupo de apoio, oriento, etc. A mulher busca um parto natural, mas está acompanhada por um obstetra que vai fazer todo tipo de intervenção. Aqui temos só um hospital que atende plano de saúde. É péssimo, todo o pessoal é despreparado, só tem cesárea. Nesse cenário, eu digo que se ela deseja um parto realmente natural e fisiológico, ela deveria fazer a opção por um domiciliar, seria a única saída. Mas a grande maioria, teme o domiciliar, ou não pode pagar. Pergunta, qual a saída para essa mulher?”

 

A resposta é que não há saída, ela terá que trilhar o caminho das pedras. Se não está em condições psicológicas de se lançar no parto domiciliar, terá que submeter-se ao sistema. Se não tiver as condições econômicas para contratar uma parteira, terá que enfrentar o hospital. Mas não se trata de, então, “desistir” dessa mulher, a própria educadora perinatal de alguma forma se submetendo aos seus limites. Seu trabalho é o de incentivar a mudança, tendo noção de que se trata de um movimento social de grande proporções que não irá ocorrer de uma hora para outra. As mulheres que buscam um parto alternativo ao medicalizado tradicional (o chamado “normal”) devem ser esclarecidas, mesmo que isso pareça "pressioná-las". O conhecimento claro e objetivo da realidade obstétrica na qual elas irão dar à luz e que seus filhos irão sofrer age no sentido de pressioná-las para que elas, consequentemente, e naturalmente, pressionem médico e sistema para que mudem. Cabe às mulheres fazer esse barco da humanização andar. Na medida em que os médicos, mesmo humanizados, tomam iniciativa, as mulheres permanecem no papel passivo de seguidoras.

 

Mesmo que muitas mulheres não obtenham pessoalmente grandes resultados em seus partos, a pressão que elas contribuiram para criar promove o crescimento de uma massa crítica que no tempo obriga o sistema a prestar-lhes atenção.

 

Empoderar a mulher é, também, colocá-la num beco que às vezes é sem saída. Não podemos poupá-la de confrontar o médico, de se posicionar na frente dele desde o começo, chegar lá com firmeza, mostrar com sua postura que ela que não quer e não entende seu papel como o de estar "nas mãos dele". As mulheres precisam fazer muitos dos médicos que temos por aí se sentir, simplesmente, sem graça, tirando-os da zona de conforto na qual grassam por causa da passividade das mulheres.

 

Temos assim dois viés pelo quais enteder o parto, ambos importantes e complementares. O interior, relativo à história de vida daquela mulher. O outro externo, resultado do sistema social e cultural no qual vivemos. Quem olha por um desses pontos de vista não pode esquecer do outro. Cada profissional tem seu papel, mas sem perder a visão de conjunto.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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