POR QUE AS MULHERES ACEITAM?

Algumas questões de gênero e culturais no atendimento hospitalar tradicional.


Surpreende-nos o fato de que as mulheres geralmente aceitam o que lhes é imposto. Na maioria dos serviços médicos, elas não têm a opção de escolher a posição para dar à luz. Adotam aquela que a instituição lhes impõe, que, em geral, é a tradicional, de pernas pro ar, complementada por profissionais debruçando-se sobre elas e tentando empurrar o bebê para fora com os próprios braços.


Esta imagem nos entristece. Dizemos que elas perderam a auto-estima e estão alienadas de seus corpos e de sua cidadania. Pedimos paciência e compreensão aos profissionais.

 

Isto é correto, mas não suficiente. Peca-se frequentemente pelo olhar unidimensional, por visões psicologísticas que focam o indivíduo e perdem o contexto amplo no qual estão inseridos e em função do qual desenvolveram suas personalidades, limites e escolhas (ou falta de escolhas). Ações generosas de curto alcance e sem a visão de conjunto não surtem efeitos, a não ser o de nutrir o paternalismo e a tutela dos mais “fracos”.


No que diz respeito à realidade do parto hoje, é preciso compreender, em primeiro lugar, que um hospital é um bicho de sete cabeças para qualquer um que não esteja familiarizado com ele.


O cheiro, os ambientes, os uniformes, a correria, o rítmo que segue padrões não nossos, a falta de real comunicação, melhor a ausência de relação entre quem trabalha lá e quem está de passagem: tudo isso contribui para o desempoderamento total da mulher (e da grandíssima maioria dos pacientes).


Existe aqui uma questão clara de gênero e de poder social. O médico com seu avental, e incluo aqui todos os de uniforme – que seja o avental branco do médico, a farda do policial, a veste do padre -, por si só representa um poder inibidor, colocando quem o usa em outro e superior  patamar.


O hospital é o templo sagrado dos de uniforme branco, ao qual eu, mulher comum, não pertenço. Lá vigem suas regras, seus códigos, que eu, mulher comum, não conheço e ninguém me explica. Não têm tempo para me explicar? Ou, é melhor me deixar no escuro?


Em segundo lugar, as mulheres são costumeiramente cidadãs de segunda categoria e quando devem abrir as pernas se sentem mais humilhadas do que nas demais situações sociais, menos fortes, menos capacidadas para dizer o que querem. São a parte mais fraca do sistema, sobretudo em um hospital onde vão parir, expor suas partes tão cobiçadas-temidas-guardadas (tudo ao mesmo tempo) a estranhos.


O fato que os profissionais vejam vaginas expostas rotineiramente só leva a dar menos importância ainda à minha vagina -  a de mulher comum. Um desinteresse na verdade hipócrita, porque vivemos numa sociedade onde uma vagina exposta permite à dona ganhar milhões de reais.


Todos esses elementos podem não ser explicitos, ou não estar conscientes em cada um dos protagonistas (os de branco e os "coloridos", os uniformizados e os à paisana), entretanto pertencem à mesma sociedade na qual todos nós vivemos, tenhamos consciência ou não disso.


Concluindo, as mulheres não mudam de posição porque não lhes é perguntado. Lhes é comandado de ficar de pernas pro alto, na mais antifisiológica, social e psicologicamente humilhante posição possível. Ninguém as olha nos olhos e pergunta de verdade o que elas preferem. Isso é tratar o outro como um objeto, não como um sujeito. Mesmo que seja sujeito ignorante, alienado ou perdido: a pergunta, de quem está disponível para ouvir, é o início de toda mudança. É relacionar-se.

 

Se queremos humanizar precisamos nos relacionar como seres humanos, além e acima de papeis e uniformes. 

 

 

Adriana Tanese Nogueira, psicanalista, autora, educadora perinatal e fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

 

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