RESGATAR O PARTO É RESGATAR O SER MULHER

Meu primeiro contato com a idéia de um parto humanizado aconteceu há uns 4 anos, durante um curso de programação neurolingüística chamado Leader Trainning. Nesta época, com então 21 anos, é natural imaginar que parto não era um assunto ao qual eu dedicasse qualquer importância. Eu nem era casada. Minha meta era evitar filhos a qualquer custo! Mas ao ouvir o instrutor falar sobre a aterrorizadora visão que uma criança teria do parto e a seqüência de “maus tratos” sofrida por ela logo ao nascer (eu não tinha nem idéia...) uma “ficha caiu” e eu percebi naquele momento que eu jamais poderia fazer aquilo com meu filho. Durante este treinamento, no último dia, fizemos também uma regressão, e eu voltei ao momento do meu nascimento. Durante esta regressão eu nasci de parto normal, e a pessoa que me recebeu ficou um longo tempo abraçada comigo, me dando carinho. Somente muitos meses depois eu me dei conta de que, na vida real, eu nasci de uma cesárea. Talvez meu inconsciente precisasse me fazer nascer de parto normal e dar um novo significado a esta experiência.


O curso acabou e eu segui minha vida. Vieram a formatura, o casamento e a mudança para Belo Horizonte. E algum tempo depois, o que os americanos chamam de “baby fever”, ou a vontade louca de ter filhos!


Tendo o curso em mente, comecei a fazer pesquisas na internet sobre gravidez, parto, cesárea... e foi assim que cheguei ao site Amigas do Parto, e posteriormente a este curso! E foi só então que percebi que o parto é muito mais do que se internar, passar por uma série de procedimentos hospitalares, sofrer dores horríveis por horas ou tomar uma anestesia e ir embora para casa com meu filho nos braços.


Ao ler os depoimentos de diversas mulheres e seus partos, tanto daquelas que passaram por experiências terríveis e traumáticas quanto daquelas que viveram momentos de profunda transformação e comunhão com todas as forças do universo, foi que percebi que o parto é, na verdade, um rito de passagem. Um ritual de significado tão profundo que foi tirado de nós.


É muito difícil explicar para outras pessoas o imenso calor que eu sinto por dentro quando as palavras gestação e parto são mencionadas! É difícil explicar porque o parto é para mim (apesar de ainda não o ter vivenciado) uma experiência única e que tem que ser vivenciada com o corpo, a alma e o coração. É difícil fazer com que as pessoas compreendam porque eu simplesmente não me vejo sendo internada e fazendo uma cesárea com hora marcada com tanta tecnologia a minha disposição e porque eu prefiro ter um parto natural, livre de intervenções, do meu jeito, no meu ritmo. As pessoas olham pra mim e vêem como uma idealista, uma sonhadora, uma louca. Melhor seria se enxergassem a si mesmas.


As mulheres se esqueceram de si mesmas. Nos esquecemos de quem somos, do que representamos e do que somos capazes. Não somos mais agentes de nossas vidas, e sim, em inúmeras ocasiões, meras coadjuvantes em nosso trabalho, em nossas casas, algumas em nossos casamentos e muitas até mesmo em seus corações.

Acho que resgatar o parto é resgatar o “ser mulher”. Neste mundo comandado pelos homens, muitas vezes nos sentimos obrigadas a sufocar as características que nos tornam mulheres antes e acima de tudo: nossa intuição, nossas emoções. Nos travestimos de homens na esperança de que o ser igual nos torne melhores, quando o que nos torna tão especiais é exatamente o ser diferente!!


Não defendo aqui uma nova onde feminista: nada de sair por aí queimando sutiãs em praça pública, esculachando homens e querendo tomar o poder. Uma sociedade matriarcal seria tão ruim ou pior do que uma patriarcal. Não é uma questão de poder, no sentido como hoje entendemos o poder (poder pelo poder). É uma questão de termos poder sobre nosso próprio espaço. De poder fazer nossas próprias escolhas, ter nossas próprias visões, lutar pelos nossos sonhos e ideais e sermos respeitadas por isso.


Também não estou querendo dizer aqui que o certo é ser “Amélia” e ficar em casa o dia todo servindo alguém, abrindo mão de uma atuação em esferas maiores fora do lar, que são tão importantes quanto. Como diria Buda, e eu não sou budista, o certo é o caminho do meio.


Precisamos retomar o espaço que é nosso. Não este local diminuto na esfera masculina do trabalho e do poder organizacional e político que tão insistentemente comemoramos, apesar de todas as mazelas e injustiças que ainda ocorrem por este mundo corporativo, ou vai me dizer que abrir mão da licença maternidade para não perder o emprego é justo? Vai me dizer que ser rotulada como alguém não comprometida com o trabalho só porque teve que sair mais cedo para levar o filho ao médico é justo? Não, não é deste espaço que estou falando, mas do espaço do sagrado, do mágico, e, porque não, do profano? Estou falando de um poder tão natural quanto a vida, e tão simples como o amor.


O caminho não é simples, muito pelo contrário.

Antes de falar em humanização com quer que seja, precisamos olhar para dentro de nós mesmas e nos perguntar quem somos, e o que verdadeiramente queremos.


Por que é tão comum ouvirmos a frase “Na próxima encarnação quero ser homem!!” ? E faço aqui um mea culpa, pois eu mesma já a utilizei incontáveis vezes. Por que renegamos o que nos faz mulheres? A menstruação, a intuição, as emoções, o parto? Por que continuamos passivas, esperando que nos salvem da posição de vítimas na qual docilmente nos colocamos? Esperando que alguém ou algo dê sentido às nossas vidas, quando este sentido já está contido em nós mesmas?


Na próxima encarnação eu quero ser mulher. E quero ser mulher pro resto de meus dias, ainda nesta vida! Não estou falando da mulher exterior: aquela que se depila, faz escova, sobrancelha, tinge o cabelo, se maquia e se arruma impecavelmente. Estou falando daquela mulher que sabe que em si está o maior poder, a maior graça, a maior benção e o maior milagre de todos: a geração da vida.


O homem e a mulher dão origem à vida juntos, mas somos nós, as mulheres, que a geramos por 9 meses. Somos nós que observamos as mudanças em nosso corpo, alma e coração com o crescer e o minguar das 9 luas. Somos nós que entramos em contato com o sagrado e o profano, com o atual e o ancestral, com a vida e a morte. A morte de uma mulher para o renascimento de outra: mais forte, mais consciente de si, mais feliz consigo mesma e com sua capacidade de realização.


Se eu tenho filhos? Não. Ainda não.

Como eu posso então me atrever a escrever tudo isso?

Porque eu creio que dentro de mim já vivem a mãe, a Deusa, e todas as suas manifestações qualquer que seja o nome que você queira usar.

Porque dentro de mim vivem as mulheres de antes de mim, e a força destas mulheres me diz que eu sei do poder que tenho, me diz que eu sei o que fazer e sei que não importa o que me digam, o quanto duvidem, o quanto queiram me persuadir: a força do meu querer e do meu acreditar é mais forte que tudo.


Humanizar é acreditar em nós mesmas. Acreditar que nossa intuição pode ser nossa guia e que não há mal nenhum nisto. Acreditar que somos capazes, que queremos mais e que podemos ser melhores, independente do julgamento de outras pessoas. Humanizar é, a partir do conhecimento de quem somos, acreditar no outro. É acreditar que o ser humano é plenamente capaz de ser e de ir além do que jamais pensou que pudesse ser.


É saber ouvir e calar, é viver e deixar viver.

É, antes e acima de qualquer coisa, respeitar.

Estamos todos prontos para isso? Não ainda. Há um longo caminho a ser trilhado. Há muitos egos a serem trabalhados. Muitas supostas incapacidades a serem vencidas. Muitas supostas verdades a serem desmascaradas. Muitos supostos medos a serem enfrentados.


Além de tudo isto, é importante lembrar da principal armadilha que nos espera neste caminho: o querer ser dono da verdade. Somos seres únicos, e como tal, cada um de

nós tem sua própria verdade e seu próprio caminho.

Nos tempos de mudança é comum querermos impor o que acreditamos ser o mais certo e o melhor. Muitas vezes não com más intenções, mas como um apelo sincero ao que sentimos muito fortemente dentro de nós mesmos. Mas se a verdade fosse uma só, não seríamos tão interessantes.


Humanizar é valorizar o nosso bem mais precioso: o livre arbítrio. Porque tudo deriva daí. Cada escolha que fazemos, cada caminho que seguimos nos leva a um resultado. Todos temos que seguir apenas um caminho, que é o caminho da nossa verdade individual. E precisamos aprender a lidar com  as diferenças. Diferentes opiniões, diferentes visões de mundo. Não seria tão enriquecedor se tivéssemos todos os mesmos conceitos.


O meu maior desafio, a meu ver, é internalizar este respeito. É me lembrar que assim como eu espero que as minhas opiniões e valores e ideais sejam respeitados, eu devo fazer o mesmo com e pelas outras mulheres, que fazem escolhas muito diversas das minhas.


Lembrar sempre que o meu compromisso é com elas, e com suas escolhas, independente de qual escolha seja esta. É muito fácil estar ao lado de pessoas que pensam como nós. O desafio é aceitar o outro.


Mudar. Aos poucos. Mas sempre.


“Quando você tem um desejo, o universo todo conspira para que você possa realiza-lo” – Paulo Coelho.


Amém.


Andressa Borges Fidelis é secretária bilíngüe e mora em Belo Horizonte (MG). Este texto foi redigido como exigência de conclusão do Curso de Humanização das Amigas do Parto de maio de 2004.

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