SEGURANÇA, SATISFAÇÃO, EMPODERAMENTO

Há três critérios para definir o parto do ponto de vista das mulheres. Três critérios que representam também três diferentes níveis ou degraus em vista de tudo o que um parto pode dar: segurança, satisfação e empoderamento.

 

É seguro o parto que apresenta a presença mínima de riscos para a mãe e para o bebê. Não podemos nos iludir que seja possível a total ausência de riscos. Qualquer parto envolve algum risco e é com essa margem pequena de possibilidades adversas que é preciso aprender a lidar. A reação de rejeição que suscitam estas palavras deriva do fato de que estamos vivendo numa era em que o controle absoluto sobre a natureza e sobre nossas vidas (corpos e emoções) é considerado não só desejável como possível. Acreditamos piamente, como se fosse um dogma de fé, que a medicina pode nos dar garantias absolutas e nos iludimos de que estamos realmente protegidos das ameaças inerentes ao fato de viver. O parto envolve algum perigo, mas não tanto quanto, por exemplo, percorrer a Dutra (São Paulo-Rio). Entretanto, ninguém deixa de viajar! Arriscamos nossas vidas cotidianamente, talvez sem percebê-lo. Quiçá estejamos acostumados a isso, uma vez que virou rotina. O parto, ao contrário, é um evento singular. Parte da ansiedade que ele produz certamente vem do fato de que busca trazer à superfície habilidades e forças submersas – pouco usadas no dia-a-dia das mulheres urbanas e profissionais.

É satisfatório aquele parto no qual a mulher alcança uma condição emocional discretamente equilibrada. Apesar do fato de que ver o próprio filho pela primeira vez é uma experiência profundamente tocante, é satisfatório [1] aquele parto no qual a mulher não é avassalada por emoções conflitantes (angústia x expectativa; desejo x pânico); no qual ela não é contagiada pelo estresse da equipe médica e de enfermagem, não sofre a presença de pessoas ou de relações invasivas de sua privacidade, de seu corpo e de sua subjetividade. Protegida de elementos perturbadores, ela pode viver seu primeiro encontro com seu filho de forma aconchegante e afetiva.

É empoderador é aquele parto que traz em seu proceder singelo e arrebatador uma experiência de transformação na identidade íntima da mulher. Ele se assemelha a um rito de passagem.
 

A despeito do que se acredita hoje, o parto é conduzido de forma a ser mais perigoso do que poderia ser, acarretando mais riscos do que aqueles inevitáveis ligados ao fato de estarmos vivos e não sermos os senhores da vida e da morte. A parturição está sendo mal abordada e acompanhada. Tampouco, na grande maioria dos casos, o parto é satisfatório. Em raríssimas ocorrências ele é empoderador [2]


NOTAS
[1] Estamos falando da satisfação do ponto de vista da mãe. Não vamos abordar, se não de passagem, a questão dos recém-nascidos. Suponho que para eles também seja pouco satisfatório sua chegada ao mundo e suas primeiras horas de vida, pois, realmente, não consigo me convencer de que um bebê aos berros esteja saudavelmente treinando seus pulmões. Também me parece de nenhum bom senso, acreditar que os bebês apreciem a estada no berçário, tanto é que este é considerado “prejudicial” pela Organização Mundial de Saúde. Mesmo assim, as grandes e luxuosas maternidades de São Paulo mantêm esse serviço dispendioso em funcionamento. Os bebês são ligados a uma máquina que estabiliza sua temperatura, e a aumenta até chegar a 36,5. Não seria mais fácil, simples, econômico e humano colocá-los em contato pele a pele com a mãe? É o que se faz com os prematuros, chama-se ‘sistema Canguru’. Além de resolver perfeitamente a questão da temperatura, permite o estabelecimento do vínculo mãe-bebê. Ao chegar ao berçário os bebês choram muito e, ao que parece, ninguém pergunta se eles estão se sentindo perdidos, abandonados, aflitos, assustadíssimos. Saíram de uma totalidade no útero de sua mãe, onde estavam completamente abraçados por ela, nenhuma parte de seu corpinho sentia vazio ou frio. Sua referência era o corpo da mãe e repentinamente eles são tirados do contato com ela, levados para longe dela, onde sequer podem procurar pelo seu cheiro, buscar seu peito, satisfazer sua fome e acalmar seu medo. Infelizmente, ninguém, ao ver os recém-nascidos berrando nos berçários, pergunta se eles estão felizes. Entretanto, nos faríamos esta pergunta se uma criança de três anos estivesse berrando lá dentro. Se fosse um adulto, então! Será este um subproduto maléfico de nossa sociedade logocêntrica que só é receptiva ao que pode ser transmitido por palavras e processado pela razão? [ voltar ]

[2]Gostei da expressão de uma autora nativa norte-americana a respeito do “significado do poder. Quando você se sente poderoso, você também se sente feliz, cheio de coragem, de valentia, pronto para encarar a vida   de braços abertos, cheio de vitalidade, apto a colocar em prática todos os seus talentos, conectado a todas as formas de vida e harmonizado com tudo aquilo que você é, ou deve ser, neste momento. Todos estes aspectos representam diferentes facetas da Totalidade. O verdadeiro poder nada mais é do que o reconhecimento do uso adequado de todos os nossos próprios aspectos, dons e habilidades” (SAMS: 2000, 336) [ voltar ] para as mulheres.


Adriana Tanese Nogueira, psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org. Trecho extraído do seu livro A Alma do Parto.

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