SER MULHER PARA SER PARTEIRA

 

A Oficina-Debate “De Enfermeira, Médica, Antropóloca a Parteira: um resgate às raízes” ocorrida no dia 1º/12/2005 durante a II Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento (Rio de Janeiro, RJ), teve Naolí Vinaver, Guadalupe Landerreche, Claudio Orthof como participantes e Maysa Luduvice na moderação. Parteiras com diferentes trajetórias profissionais e histórias pessoais, entrentanto, todas de acordo com uma coisa substancial que marcou a mesa: para ser parteira precisa primeiro ser mulher. Você é mulher, mãe, esposa... e depois enfermeira, aqui usado no sentido também de parteira profissional.


Esta, que parece uma redundância, uma vez que a palavra “parteira” já se encontra no feminino, é na verdade uma chave de entendimento fundamental para compreender a mudança de paradigma que ocorre uma vez que o ser mulher é inserido conscientemente na atividade de parteira.


A questão de gênero penetra a realidade do parto, seja aquele hospitalar, intervencionista, como aquela do parto natural, oriundo da tradição das parteiras. As enfermeiras hoje no geral, e aquelas obstetra em particular, vivem um dilema doloroso que as coloca entre manter seu lugar de trabalho ou perseguir um sonho – aquele de partejar – que parece impossível nas condições efetivas em que se encontram.


A enfermagem parece ter um papel de suporte do trabalho médico. As guardiãs da “casa-hospital”, transpondo para o profissional um papel que as mulheres sempre tiveram, e frequentemente ainda têm, de administradoras da casa. Quando porém se trata de obstetrícia, as enfermeiras, que por sua vez deveriam ter uma formação de verdadeiras parteiras, encontram-se numa situação frustrante, revelando o desequilíbrio existente nas relações de gênero internas ao hospital. Falar em relações de gênero significa falar em relações de poder. Tem liberdade uma enfermeira-parteira de atender um parto hospitalar? Tem tempo? Tem condições? Tem oportunidade?


É por isso que as participantes da Oficina insistiram na importância de se ter orgulho de ser mulher e mãe. É diferente encarar as enfermeiras como profissionais ou como mulheres. Enquanto mulheres, disse Guadalupe Laderreche, é que temos que fazer com que o parto seja melhor. Há muito o que fazer. As enfermeiras devem ajudar as mulheres a recuperar sua auto-estima, dar-lhes a confiança de que precisam. Inclusive àquelas que tiveram cesárea de emergência, dizer-lhes que não fracassaram, que seus corpos pediram ajuda e que esta lhes foi dada. É importante ajudá-las para que fiquem tranquilas, e usem toda sua sabedoria de mulher para enfrentar esse momento.


Nesta mesma linha, foi frisado que, assim como o parto, a parteria é dinâmica: ser parteira tradicional não quer dizer ser sempre igual (por exemplo, nunca utilizar medicamentos). Da mesma forma, o uso dos recursos técnicos do hospital não significa perder a tradição. As parteiras tradicionais estão sempre aprendendo. Portanto, é preciso estabelecer uma parceria com as enfermeiras obstetras: ambas são mulheres e vão evoluindo, enriquecendo-se reciprocamente, sem competição. A dimensão científica deve andar junto com o saber tradicional. A essência da parteira é o de ser uma mulher sábia, que tem consciência que sua capacidade de parir é sua maior força, sabe que vai seguir aprendendo, ama a vida, e, mesmo sabendo que é difícil, decide dedicar sua vida a ajudar os outros. E mesmo quando o ambiente está contra, seu “coração de parteira” sabe o que deve ser feito e o faz, acabando por receber o respeito e o reconhecimento que lhe é devido.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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