VIOLÊNCIA DE GÊNERO ENTRE AS ENFERMEIRAS OBSTÉTRICAS

 

Uma enfermeira obstetra, obstetriz ou parteira que sofre e tolera a violência de gênero em sua casa pode verdadeiramente compreender e realizar os princípios e as práticas da humanização do parto e nascimento?


Esta pergunta é legítima uma vez que a violência de gênero é algo que se reproduz “automaticamente”: nos homens por repetí-la, nas mulheres por vivê-la passivamente. Quando promovemos a humanização estamos querendo frisar, entre outras coisas, que a paciente grávida é uma mulher capacitada para parir de forma ativa e independente. Humanização não se identifica com a exigência de respeitar o processo fisiológico do 

parto. Se assim fosse, estaríamos novamente colocando a mulher no papel de objeto: ela seria vista mais uma vez como um corpo, que seja um corpo entendido como máquina que precisa de conserto externo ou como organsmo inteligente, não faz muita diferença no final das contas.


Humanização do parto é, em primeiro lugar, enxergar e tratar a  mulher como sujeito. Função dos promotores da humanização é estimular a mulher a ser um indivíduo consciente sujeito de seu parto.


Do ponto de visto psico-social, humanização é ajudar a mulher a:


Pensar com sua cabeça

Tomar decisões por si

Responsabilizar-se por elas

Perguntar e informar-se a respeito do que sente necessidade de saber

Expressar o que a incomoda a quem quer que seja

Não aceitar ameaças, maus tratos e pressões

Respeitar o que seus próprios sentimentos

Assumir seus desejos

Ser honesta consigo própria

Ter coragem


Pode uma mulher sem o perfil acima descrito ajudar oura mulher a “empoderar-se”?


Queria-se ou não, veja-se isso ou não, a humanização do parto é um movimento com fortíssima conotação de gênero e que, aliás, tem nas mulheres sua maior aposta para efetivamente mudar as condições do parto.


Parteiras, enfermeiras obstetras e obstetrizes são mulheres e se quiserem fazer “humaniza ção do parto” elas precisam reconhecer como primeiro passo essa mulheridade e sororidade que partilham com as grávidas que elas atendem. Antes de serem “profissionais do parto” são mulheres cuidando de mulheres.


Mulheres que sofrem violência de gênero e se calam são mulheres com raiva passiva e dura. As consequências desse quadro psicológico em suas relações com outras mulheres, sobretudo as em condição de vulberabilidade, como as grávidas e parturientes são três:

A profissional assume a violência de gênero como um fato inevitável da vida e por tristeza recalcada e raiva à flor da pele a reproduz inconscientemente sobre as outras mulheres (“eu sofri e subrevivi, o mesmo você pode fazer”);

Identifica-se com o modelo masculina violento (e com sua raiva à flor a pele mas inconsciente) e são dura, autoritárias e manipuladoras;

Aplica os princípios da humanização de forma racional (mecânica) e portanto superficial, ou seja, dentro do mesmo paradigma objetificante que se quer mudar.


O estudo “Violência de gênero contra trabalhadoras de enfermagem em hospital geral de São Paulo (SP)” de Ane R. Oliveira e Ana Flávia P. L. D'Oliveira realizado somente dois anos atrás (2008) resulta ser “o primeiro no Brasil a abordar o tema violência de gênero entre mulheres profissionais de enfermagem”. Este fato é indicativo de quanto o assunto é inconsciente para a grande maioria de profissionais e instituições.


O conceito de violência de gênero é adotado na pesquisa não é ideológico e sim refere-se a situações reais, são elas:


- violência psicológica; insulto, humilhação, intimidação ou ameaça;

- violência física; tapa, empurrão, chacoalhão, soco, chute ou surra, estrangulamento ou uso/ameaça de arma de fogo ou branca;

- violência sexual; relação sexual forçada, relação sexual por coação ou medo e prática sexual degradante ou humilhante forçada.


Como esta realidade se reflete no parto?

- aceitando a autoridade e a desconsideração dos superiores adminsitrativos e dos médicos;

- não sabendo impor suas escolhas, bom senso e conhecimentos;

- sendo “humilde” e servile com os médicos;

- deixando uma parturiente sofrer para não “criar problemas”;

- fechando os olhos para o que é doloroso de se ver;

- finalmente, tornando-se cúmplice do sistema que desrespeita parto, bebês e mulheres, sejam elas grávidas, parturiente, ou enfermeiras obstetras.


O estudo conclui que “As taxas de violência de gênero entre mulheres profissionais de saúde foram significativas, principalmente para a violência cometida por parceiros íntimos e familiares. Entretanto, a busca de ajuda frente aos agravos sofridos foi baixa, considerando ser um grupo de escolaridade significativa.”


Tocamos a ponta do iceberg.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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