PERÍNEO, ASSOALHO PÉLVICO E ALGUMAS REFLEXÕES

April 10, 2019

 


1.  INTRODUÇÃO:

 

 

 

 

 

            Durante as 20 semanas do curso de formação de doulas parto, diversos temas muito pertinentes foram abordados, dois dentre eles, inspiraram este trabalho de conclusão de curso: sexualidade e espiritualidade.
            O presente escrito pretende reunir diferentes olhares e saberes sobre o períneo ( que ao longo do curso mostrou-se uma estrutura muito importante para a gestação, parto e pós-parto), afim de ampliar as possibilidades de distintas associações em torno do tema.

 

            O períneo é uma estrutura anatômica que ao longo dos anos foi sendo esquecida. No entanto o conhecimento e o treinamento dessa musculatura em conjunto com outras musculaturas vizinhas, ocupa papel central em diversas tradições em função de suas propriedades fisiológicas e místicas.

 

 

 

2.   PERÍNEO E MUSCULATURA DO ASSOALHO PÉLVICO:

 

 

 

            O períneo é a região localizada entre o esfíncter vaginal e o  esfincter anal. É a musculatura responsável  pelo suporte de todos os órgãos pélvicos e pelo controle de abertura e fechamento dos esfincteres do ânus, da vagina e da uretra. Sendo assim, o conhecimento dessa musculatura, bem como a manutenção da saúde da mesma prevê inúmeros benefícios que vão desde um bom funcionamento fisiológico de todos os órgãos situados na pelve, até boas condições de orgasmo e melhor reconhecimento da própria sexualidade. (OLIVEIRA; VALENTIN , S/data).

 

            Para o acompanhamento de gestantes, o devido conhecimento sobre as funções do períneo e da MAP  (musculatura do assoalho pélvico) como um todo, é fundamental. Por essa razão, veremos a seguir algumas associações possíveis de serem feitas ao períneo, com o intuito de visualizar de que maneiras pode-se trabalhar com essa musculatura com o objetivo de melhorar a qualidade da gestação do parto e do pós-parto.

 

         
                3.  PERÍNEO NA SAÚDE FEMININA  E ALGUMAS PRÁTICAS:

 

           

 

            Os músculos da MAP são de suma importância para a saúde feminina uma vez que dá suporte aos órgãos do baixo ventre. As mulheres, por serem dotadas de útero e ovários, podem beneficiar-se de exercícios perineais para diminuição de cólicas menstruais, melhorias dos sintomas em situações de dismenorreia, regulação dos ciclos hormonais, bem como aumento da percepção corporal e como ferramenta de autoconhecimento, além dos benefícios já mencionados. (CARDOSO; LEME, 2003) ;  (PENA, 1992).

 

            Diversas práticas e exercícios forma elaborados com o foco totalmente direcionado  para essa região como os exercícios de Kegel, pompoarismo, alguns exercícios oriundos do Chi Gong,  dança do ventre, exercícios respiratórios, técnicas de canto, entre outros. Em sua maioria, foram historicamente desenvolvidos, visando além do desenvolvimento fisiológico o desenvolvimento espiritual, uma maior conexão com os ciclos da natureza e o fortalecimento dos recursos emocionais e psíquicos. (SILVE; LEME , 2012); (PENA, 1992).

 

           

 

             Atualmente a porção espiritual desses conhecimentos são quase que totalmente desconhecidos pela maioria das pessoas, ainda que em regiões mais isoladas, onde ainda imperam as culturas tradicionais, é comum que o conhecimento, as práticas físicas e a noção de poder espiritual relacionados à essa região sejam transmitidos  oralmente ao longo das gerações. (PENA, 1992) ; (FABIANOVA, 2011)

 

            Entre os benefícios fisiológicos relacionados as práticas citadas os mais citados são: melhor controle dos esfincteres e tônus muscular que irão propiciar e um bom suporte do órgãos pélvico evitando ptoses;  maior controle dos esfíncteres que propicia o não surgimento das incontinências. Algumas dessas atividades provem também uma melhoria na flexibilidade dessa musculatura, auxiliando na prevenção das lacerações decorrentes do parto, como é o caso do Qi Gong, da dança do ventre e dos exercícios de canto. (CARDOSO; LEME, 2003);  (CHIA ; LI , 2006).

 

            Entre os benefícios emocionais/espirituais podemos citar o aumento da autoestima, uma maior conhecimento sobre os ritmos biológicos do próprio corpo, desenvolvimento de uma sexualidade mais saudável , fortalecimento da identidade e da sensação de pertencimento à algo maior e, finalmente, o tão aclamado empoderamento.  (LIZ, 2009).

 

 

 

4.  CANTAR E PARIR :

 

 

 

            A respiração ótima para uma boa execução de canto, inclui a prática de exercícios respiratórios que, em grande parte exigem que o assoalho pélvico relaxe e se tonifique para que o ar que estimulará as cordas vocais seja projetado coma a pressão adequada. Esse mesmo exercício, de relaxar o períneo e soltar o ar ou soprar é muito indicado para o período expulsivo, auxiliando que a força seja desempenhada corretamente e atuando na prevenção de laceração do períneo. Para se manter o céu da boca devidamente arqueado para a prática do canto é instintivo que simultaneamente se relaxe o períneo fazendo uma leve pressão para baixo, o que também facilitaria no encaixe e na expulsão do bebê (FIGUEIREDO, 2012).

 

            Existe ainda uma ideia bastante recorrente entre doulas, educadoras perinatais e parteiras de que  cantar e/ou fazer vocalizações durante o trabalho de parto, além dos benefícios já citados, auxiliaria também no movimento de introspecção e contato íntimo com o corpo, bem como na diminuição da sensação de dor, pois essa vocalização teria o efeito de minimizar a sensação de dor. (OFICIOSYOCUPACIONES, 2012) ; (PARTOHUMANIZADOMEX, 2011.)

 

 

 

5. PERÍNEO, PARTO E SEXUALIDADE:

 


            Por ser através do períneo que se torna possível a contração dos músculos vaginais o períneo está intimamente relacionado à sexualidade. Michel Odent (1984), afamado obstetra, refere-se ao parto como um verdadeiro êxtase sexual, por esse viés é possível refletir que parto e sexualidade são eventos que dependem das mesmas estruturas físicas e psicológicas, visto que ambos ocorrem na mesma região anatômica e envolvem fluidez emocional, entrega, autoestima  e ocitocina.

 

            A ocitocina, também conhecido como “hormônio do amor” é liberada pelo organismo humano em situações onde haja relacionamento, calor humano e afeto. Quando nos relacionamos sexualmente esse hormônio é liberado sendo ele um dos responsáveis pelas contrações abdominais relacionadas ao orgasmo. No trabalho de parto, a quantidade de occitocina secretada é cerca de 1000 vezes maior que durante uma relação sexual, o que sugere novamente a intensa relação existente entre o parto e a sexualidade feminina. (TORNQUIST, 2002).

 

 

 

6.  LACERAÇÕES E MASSAGENS:

 

 

 

            Um dos fatores que mais preocupa às mulheres em relação ao parto é a laceração de períneo. Embora todas as atividades acima citadas colaborem com o bom desempenho dessa musculatura , é através da massagem no períneo que consegue-se resultados numericamente comprovados em relação à laceração.

 

            A massagem do períneo consiste em, com a ajuda de um bom óleo vegetal, exercer leves deslizamentos circulares e centrífugos nas paredes do canal vaginal em direção ao períneo com o intuito de promover um melhor alongamento dessa musculatura. Essa massagem poderá começar a ser realizada antes, mas a pesquisas que guiam essa prática na atualidade, baseiam-se em casos onde a atividade foi inciada nas últimas 4 ou 6 semanas (ONGAP, 2012).

 

 

 

 

7. OUTRAS ASSOCIAÇÕES:

 

 

 

 

            O períneo (bem como todo a circunferência que envolve da articulação isquio-femural), está localizado na porção anatômica  que na perspectiva hindu é comandado pelo primeiro chakra (em sânscrito: roda). Esse centro energético expressa em seu simbolismo as ideias de territorialidade, sangue, reações instintivas, ligação com a terra, fertilidade, sexualidade, vitalidade e outros.(GERBER, 1992).                                              
            Já na medicina tradicional chinesa, é no períneo que está localizado o VC1- ponto de acupuntura que possui a função de regular todos os meridianos yin (polaridade feminina e de nutrição) . Esse é o primeiro ponto de um meridiano energético que irá percorrer o mesmo rejeto da “linha negra”, que surge em decorrência da gestação. (MACIOCCIA, 1996).

 

            Outra associação bastante interessante de ser considerada é a conexão dos movimentos pélvicos circulares e em formato de oito que na dança do ventre são desempenhados. Essa é uma modalidade de dança essencialmente feminina, que pretende expressar os ciclos sagrados da natureza no movimento do ventre feminino. Esses movimentos são invariavelmente realizados com movimentos de contração e relaxamento perineal,  com práticas respiratórias (PENA, 1992).

 

            É interessante perceber que essa dança é também muito relacionada, em nível de senso comum, com sexualidade e poder. Fatore já mencionados anteriormente nesse trabalho porém relacionados à outra abordagem.         

 

8.      CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

 

 

            Ao longo desse trabalho pode-se perceber que além dos benefícios fisiológicos, foi recorrente a presença de alguns termos que transpõe os limites do fisiológico:  percepção corporal, auto conhecimento, autoestima, introspecção, sexualidade, poder, vitalidade, ligação com a terra, reconhecimento do recursos internos, etc.

 

            Pode-se atribuir a presença desses à necessidade de vivenciar-se essas instâncias mais profundamente no período gestacional. Essa necessidade provavelmente seja decorrente  do grande distanciamento que foi socialmente imposto, entre os indivíduos e seus corpos, mais precisamente entre as mulheres e a instância sagrada relacionada à capacidade de gerar, parir e nutrir.

 

            Ao trabalhar-se com a corporalidade humana é inevitável que, juntamente à músculos, ossos e tendões, trabalhe-se também “a alma”, as emoções, os conteúdos psíquicos. O presente trabalho apontou na direção de alguns dos possíveis recursos humanos que poderão ser alcançados através do trabalho realizado em  uma estrutura muscular específica, à saber, o períneo.

 

            Existem poucas referências teóricas que ampliem diretamente a discussão em torno do períneo e de sua potencialidade transcendente a fisiologia, tal fato acabou por limitar o aprofundamento de algumas discussões pretendidas na idealização desse trabalho.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

 

 

CARDOSO, Thais Soares Munguba; LEME, Ana Paula Cardoso Batista Paes. A equivalencia da dança do ventre á cinesioterapia na terapeutica da dismenorreia primaria / Equivalence of belly dance to kinesiotherapy in primary dysmenorrhea therapy in: Fisioter Bras ; 4(2): 96-102, mar.-abr. 2003.

 

 

 

CHIA, Mantak ; LI, Juan: A Estrutura Interior do Tai Chi. São Paulo : Ed. Pensamento, 2006.

 

 

 

FABIÁNOVÁ, Diana: La Luna em Ti. [Documentário]. Disponível em: http://vimeo.com/25671897 . Acesso em: 22 de Junho de 2012.

 

 

 

FIGUEIREDO, Eva.  Aula de Canto Ministrada na UDESC, Universidade de Santa Catarina., Florianópolis, 2012.

 

 

 

GUERBER, Richard. : Medicina Vibracional. São Paulo: Cultrix, 1992.

 

 

 

LIZ, Sueli : Dança do Ventre: Descobrindo Sua Deusa Interior. São Paulo: Baruna, 2009.

 

 

 

MACIOCIA, Giovanne: Fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Rocca, 1996.

 

 

 

OFICIOSEOCUPACIONES, Naoli. [Vídeo] México, 2012. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=VXLnw2J6Vuc . Acesso em 22 de Junho de 2012.

 

 

 

ONGAP : Massagem do Períneo na Gravidez. Disponível em: http://doulasparto-ongap.wikispaces.com/file/view/per%C3%ADneo.pdf . Acesso em: 22 de Junho, 2012.

 

 

 

PARTOHUMANIZADOMEX, Parto em Casa, Una Belleza de Conexión com La Intuición. [Vídeo]  2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=8JEwvY5RDXE&feature=related . Acesso em: 22 de Junho de 2012.

 

 

 

TORNQUIST, Carmen Suzana. : Armadilhas da Nova  Era: Natureza e Maternidade no Ideário da Humanização do Parto. In: Estudos Feministas. Ano 10- 2° Semestre , 2002. 483-492.

 

 

 

SILVA, A. M. ; LEME, A.: Fortalecimento do Assoalho Pélvico Através da Dança do Ventre. Nova Fisio, Revista Digital. Rio de Janeiro, Brasil, Ano 15, nº 86, Maio/Junho de 2012

 

 

 

 

 

 

 

Monografia Elaborada por Ileana Pires da Rosa Corrêa, Entregue a ONGAP Como Pré-requisito para Obtenção de Aprovação no Curso de Formação de Doulas Parto. Florianópolis, 22 de Junho de 2012.

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