É O PARTO UMA "CAIXINHA DE SURPRESAS"?

As palavras têm poder e qualquer populista, qualquer manipulador de massas escolhe bem as palavras que vai usar em função do efeito que deseja surtir. Mas podemos também usar as palavras conscientemente no sentido de esclarecer, clareando o que o mal uso delas provocou, desatando os nós que conceitos mau usados produzem no cérebro ingenuo e desinformado.

 

Uma das idéias que soa tão "bonitinha" quanto subrrepticiamente perigosa é aquela que reza que o parto é "uma caixinha de surpresas". É uma "caixinha" no diminutivo, evocando algo infantil, pequeno, singelo e fofinho, como os sentimentos que uma mãe tem pelo bebê que está por vir.


Esta caixinha está cheia de "surpresas", metáfora que bem representa a barriga em si, as surpresas agradáveis da maternidade (como será o bebê? seus olhos? seus cabelos? seu sorriso?). O parto é "uma caixinha de surpresa" porque é o momento da festa em que o que estava escondido, o filho, vem finalmente à luz e eis que o conhecemos! Ah, a felicidade.

 

A este sentido idilíaco, a mentalidade medicalizada da obstetrícia que se espalhou na cultura moderna acopla outro sentido, sinistro e ameaçador. A "caixinha de surpresa" se torna uma imagem ambígua que serve para apontar para a "caixa (ou caixão?) de pesadêlos" no qual o parto pode se tornar. Instigando a tremedeira emocional, a insegurança relacionada à possibilidade de que na hora mais feliz possa ocorrer o trágico, a obstetrícia, ou melhor sua demônica sombra, se infiltra no coração de mães e pais e ganha poder sobre eles.

 

Isso é populismo: vencer uma disputa SEM usar argumentos racionais, demonstráveis e universais, mas infundindo medo, captando consenso pela manipulação das emoções. Onde há pouco conhecimento e pouca consciência, o populismo triunfa.

 

Deixe-me destruir essa fantasia, pois ela deve sua existência à necessidade de garantir a presença do médico, ou seja, proteger seu trabalho, suas entradas, sua função. Existe uma guerra de poder em sala parto, que nada tem a ver com a saúde de mãe e de bebê. Se tivesse a ver, 80% dos médicos sairiam da sala parto, pois é sabido que eles mais atrapalham do que ajudam. Médicos existem PARA tratar de doenças, sem doenças a figura do médico, sobretudo hoje em dia nessa orgia de remédios e aparelhos tecnológicos, sem doença o médico não tem razão de existir. Não sejamos ingênuos de pensar que seus egos não estejam envolvidos e que médicos são como Maria Teresa de Calcutta, sempre prontos a fazer o bem dos outros.


O parto de baixo risco é o ápice de um processo que começa bem antes, durante a gravidez. Quando acompanhado e num contexto saudável (mesmo no campo sem pré-natal mas com uma vida físca e psicologicamente equilibrada) o parto acontece, e sem problemas. Crianças nascem sem a autorização dos médicos.


Conforme diz Marsden Wagner, pediatra da OMS e um dos maiores promoteres da humanização internacional, intercorrências que possam ocorrer durante o parto são em sua grande maioria perfeitamente solucionadas pela parteira responsável. Quando um médico é preciso, a ida ao hospital (num parto domiciliar planejado, por exemplo) leva o tempo que a sala operatória estaria pronta, porque a menos que não seja uma cesárea programada, as salas operatórias devem ser preparadas e um anestesista chamado, o que não ocorre num piscar de olhos.

 

Uma mulher saudável e psicologicamente equilibrada tem altíssimas chances de ter um parto natural, saudável e tranquilo. A única surpresa em jogo é o bebê que vem ao mundo. A única caixinha que se abre é a do útero que desprende seu tesouro. Num parto desses o médico é perfeitamente dispensável, assim como todas as paranóias sobre bombas relógios trancadas em caixinhas de surpresas que ocupam o lugar do bom senso e do coração.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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