O PARTO É SÓ DAS MULHERES?

Michel Odent escreveu que o parto é um espaço feminino e que os maridos melhor ficariam se estivessem fora dele. Esta perspectiva não deixa de ser verdade, mas é também uma afirmação que se coloca num preciso momento histórico. Ela não pode ser abstraída do contexto sócio-cultural no qual foi coniada.


Numa psicologia patriarcal, homens são masculinos e rejeitam traços femininos embaraços para sua imagem pública. Mulheres se contróem como seu oposto completar, muito femininas e sem características do outro sexo, como autonomia e independência. Logo, homens assim não entendem muita coisa de parto, este é um fenômeno estranho no qual não querem realmente se ver envolvidos. Por esse motivo, esses homens não podem ser de grande ajuda na durante o parto, apesar de se levado a participar dele.


Numa sociedade patriarcal, os homens não são amigos do feminino. Consequentemente, numa situação tão delicada quanto poderosa como o parto eles podem não ser os melhores aliados. Estes homens geralmente acreditam mais no médico do que na intuição de suas mulheres, se opõem ao parto domiciliar e se dizem preocupados com o parto porque “prezam a vida do bebê”. Este tipo de atitude, coloca as mulheres como irresponsáveis, as vê como se estivessem, egoisticamente, pensando só em si e não no que é melhor para o bebê. Ao escolher realizar o parto de forma diferente daquela institutional, a que o médico prefere, essas mulheres estariam dando uma de louca. Não passa pela cabeça de muitos homens que, ao contrário, essas mulheres estão sendo sábias e responsáveis.


O alicerce do parto humanizado é a mulher ativa. Esta autonomia feminina surge na mulher a partir de seu empoderamento, o qual é apoiado pelas pessoas ao seu redor. Em momentos de prova e teste, como é o parto, uma mulher precisa de verdadeiros fãs, de uma torcida generosa. Nem sempre seu marido é a pessoa certa. Daí a conclusão de que o ambiente do parto deveria ser off-limit para o homem.


Entretanto, lenta mas inexoravelmente, as relações de gênero e as identidades de homens e mulheres estào evoluindo. Nesse contexto de transição histórica as divisões entre funções masculinas e femininas vão se suavizando e mesclando umas com as outras. Na realidade atual, há um pouco de tudo ao mesmo tempo. Há homens que não podem ver sangue mas assistem filmes violentos. Há aqueles que são companheiros maravilhosos de suas mulheres parturientes. Há os que não entendem balhufas de gestação e bebê e pouco fazem para estar por dentro e há os que participam ativamente, apoiam e lutam pelo que suas mulheres querem. Portanto, cada caso é um caso, e cada relação de casal deve ser observada com atenção antes de ser encaixada num modelo pré-determinado.


Para algumas mulheres seu companheiro é melhor doulo do que uma amiga. Por que não? Ao querer construir um modelo novo de atendimento e de entendimento do parto, é importante evitar a abordagem abstrata (mental) que impõe modelos, criando “referências fixas” e idealizações. Muitas vezes, estas idéias são tiradas de livros ou de discursos construídos em outros contextos e tempos, e repetidos por pessoas que não refletiram seriamente sobre eles e acabam por recriar o antigo paradigma baseado em “verdades absolutas” e “cientificamente válidas” porque as autoridades assim falaram.


Mulheres e homens estão evoluindo e isso significa que estão saindo dos papeis fixos de “fêmea” e “macho”. Embrionalmente, aqui e alí é possível enxergar os movimentos evolutivos na direção de uma maior complexidade e consciência. Logo, o parto é também tocado por esta transição. Não é o sexo que abre ou fecha as portas da cena do parto, é o sentir-se à vontade com tal ou outra pessoa. Se trata de ser livres para escolher quem se quer por perto, sem cobranças ou obrigações.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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