DOULAS EM PÉ DE GUERRA

April 12, 2019


Tenho uma amiga que é doula há muitos anos, aquele tipo de mulher muito maternal, sempre disponível e simples de coração. Ela doulava antes da moda da doula acontecer.


Outro dia ela recebeu a chamada de um médico que no ano passado realizou seu primeiro parto sem intervenções e ficou maravilhado. Foi com a minha amiga, sem ela não teria acontecido. Ele gostou e estava disposto a repetir a experiência com essa nova grávida.


Eis que dá tudo errado e o médico agitado liga para minha amiga perguntando se ela poderia ir imediatamente para um certo hospital, pois ele estava com uma parturiente em prantos, histérica e pronta para deixar o hospital junto ao marido enraivecido.


Motivo do estresse?

A doula.


A grávida havia contratado a pessoa com a qual fez atividades físicas durante a gestação. Esta pessoa se ofereceu de acompanhá-la no parto, disse que era doula. Havia de fato acrescentado essa palavrinha à suas qualificações profissionais através de um curso vapt-vupt em São Paulo.


O que acontece é que a "doula" aprendeu uma série de técnicas e de princípios (ver minhas deusas da humanização-por-princípio aqui. Estarei escrevendo sobre cada uma delas uma vez por semana) relativos ao parto. Se é verdade que a situação atual exige que abramos o olho e que saibamos nos colocar e ser firmes, é também verdade que sem visão crítica e bom senso não se consegue nada de bom.


A "doula" em questão estava impondo à parturiente o que havia aprendido. Não se trata somente de "faz isso" ou "faz aquilo". É muito mais sutil. Há uma tendência nefasta na humanização - e sobretudo entre mulheres e "doulas" - a criar modelitos do que deve ser, da mulher ideal, da parideira de peito e etc. Isso tudo são "princípios", conceitos que não devem nunca ser aplicados literalmente à realidade. Somente as crianças fazem isso. É comportamento infatil de quem não amadureceu o próprio conceito no qual acredita. Se o tivesse praticado saberia que a vida não é geométrica.


Em fazer isso, está-se repetindo o mesmo idêntico modelo médico, patriarcal e machista, que essas pessoas querem com garra e determinação desmontar. O paradigma médico atual impõe à mulher certo modelo, quem faz diferente é discriminada. O mesmo acontece em alguns grupos da humanização, se você não tem o parto de uma certa maneira não vale nada.


Voltando ao nosso parto, a "doula" em questão foi mandada embora, após a direção do hospital descer para ver o que era aquela bagunça no andar de baixo. Enfermeiras, marido, parturiente estavam em alvoroço. Naturalmente, nossa "doula" havia brigado com a enfermagem... Enfim, um desastre.


Minha amiga chegou e foi dar uma volta com a parturiente, conversaram bastante. Voltaram tomando sorvete.


Logo em seguida o bebê nasceu.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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