AUTO-ESTIMA FEMININA E AMAMENTAÇÃO.

 


O leite materno não desce somente porque existe uma fisiologia que o produz, mas é liberado ou bloqueado pela psique da mãe que tem um papel tão importante quando o físico. O caso abaixo é um exemplo de como a auto-estima da mulher influencia a amamentação.

 

E.A.S. tem 27 anos, é casada, trabalha como balconista. Engravidou após alguns meses de tentativas. Ao receber a notícia do exame positivo, mãe e pai ficaram muito felizes. O casal realizou curso de gestantes fornecido pela Cooperativa Médica da cidade. Nota-se que a participação do pai foi integral no curso. Ele fazia questão de estar presente com sua esposa.

 

Davi nasceu de parto normal. A mãe não acredita como isso aconteceu... Cita que nunca quis ter um parto desse tipo, mas aconteceu... Sentiu dores a noite toda, entretanto, achou que fossem  "gases". Ligou para o obstétra pela manhã... foi avaliada e rapidamente encaminhada à sala de partos, com 9 cm de dilatação.

 

E.A.S. conta que foi muito dolorosa a expulsão de Davi, mas se sente muito orgulhosa por ter conseguido.

 

Ainda no hospital, logo após o parto, Davi mamou ao seio.  A mãe sentiu medo e insegurança. Na madrugada, teve dificuldade para amamentar, mesmo sendo auxiliada pela enfermagem. Foi oferecido ao recém-nascido leite artificial.

 

No dia seguinte, o pediatra avaliou o bebê e lhe deu alta hospitalar. Orientou  a mãe sobre vacinas, teste do pezinho, retorno ao consultório, forneceu-lhe uma receita de desobstruidor nasal e... leite NAN.

 

 

E.A.S. conta que gosta muito do pediatra que escolheu para seu filho, e que ele havia sido o seu pediatra! Foi observada a estreita relação de confiança.

Recebi um telefonema na quinta-feira a noite (era um pouco tarde, eu já estava deitada). Era a avó de Davi, mãe da puérpera. Muito preocupada pediu para que eu ligasse para sua filha, pois ela estava com muitas duvidas. No dia seguinte fui visitá-la em sua residência.

 

Casa muito pobre, em uma vila distante. Estavam lá a avó que fez o contato, o pai do bebê, a mãe e dois cachorros. Davi estava dormindo com o pai, na cama do casal. Conversei bastante com E.A.S. e senti que ela estava amedrontada... tinha duvidas sobre cuidados básicos e estava oferecendo ao seu pequeno filho leite "Nestogeno" por ser mais barato do que o prescrito pelo médico.

 

Suas mamas estavam gigantescas... e com muito leite!!! Entretanto, ela não o tinha fornecido para Davi, alegando que o mesmo não consegue pegar.

 

Demos banho no pequeno, e começamos a empreitada para dar-lhe de mamar. A mãe demonstrava pouca paciência... e a avó ficava, atrás de uma porta, fazendo sinal para que eu não deixasse ela desisitir. Davi pegou o seio. Mostrei à mãe que ele estava sugando. Reforcei a importância do leite materno e da sucção para continuar produzindo leite. O pai em todo o tempo da visita continuou no quarto, dormindo! Retornei ao meu trabalho. Mais tarde, entrei em contato por telefone, tudo estava bem.[1

 

Há aqui relação entre o parto e a amamentação, não no sentido material mas símbolico. A mãe não se sentia preparada para o parto normal, apesar do curso para gestantes na Cooperativa Médica da cidade. Nesses cursos são passadas informações genéricas sobre alguns aspectos do parto e da maternidade focando nos cuidados materiais e nas técnicas, conforme a cultura materialista e superficial na qual vivemos. Pouca ou nenhuma atenção é dada à capacitação da mulher, ou melhor, ao despertar de sua capacidade.

 

A insegurança que E.A.S. tinha com relação parto se transferiu para a amamentação. O parto ocorreu “sem querer”. O fato dela ter tido um parto normal e de sentir-se orgulhosa por ter conseguido não significa que ela o tenha absorvido em sua personalidade. Ela continua se sentindo insegura e fraca. Faltou, após o parto, a elaboração da experiência. Não basta o corpo fazer, realizar o parto. A consciência deve, sem seguida, apropriar-se da experiência, fazê-la própria, assumindo-a conscientemente e com ela as capacidades envolvidas.

 

A essa falta de consciência se soma o estranhamento do fenômeno da amamentação, o qual está ligado a dois fatores. Em primeiro lugar, existe uma natural falta de familiaridade com um ser tão pequeno e de aparência frágil que não conhecemos, que depende inteiramente de nós e que “não fala a nossa língua”. É aquela sensação de insegurança no manipular um serzinho desses e de certa forma “não saber o que fazer com ele”. Isso é basicamente devido à falta de hábito. Qualquer mulher após ter passado por um bebê (próprio ou alheio) desenvolve reações apropriadas.

 

Em segundo lugar, está espreitando aqui o sentimento de responsabilidade da mãe para com a vida do bebê, que pode facilmente se refletir no ato de amamentar. Trocar fraldas, lavar, vestir são gestos materiais; se aprendem. Amamentar é uma dimensão física-e-psíquica. Ser nutriz é muito mais do que ser a babá do próprio filho. Ser nutriz pressupõe que é “nosso conteúdo” que nutre e mantém em vida o bebê. E por conteúdo entendo: o alimento material (leite) e aquele simbólico (amor, valores, estilo de vida, educação, sentido da vida).

 

No aspecto simbólico encapsulado no gesto físico de amamentar pulsa, como um coração, a seguinte questão: serei uma boa mãe? Sou capaz de ser mãe? O que tenho a oferecer para um filho? Aquilo que sou é suficiente para dar-lhe o que ele precisa para seu desenvolvimento?

 

Se essas perguntas parecerem profundas demais, quero lembrar que não é absolutamente necessário que tenhamos consciência delas para que existam. É justamente por isso que há mais de cem anos surgiu o conceito de inconsciente: há coisas que a consciência desconhece e que entretanto existem e influenciam nossas vidas.

 

É interessante, nesse relato, que o pai permanece o tempo todo dormindo. Podemos nos perguntar por quê, já que ele participou da gestação e estava muito feliz com a vinda do filho. De fato, ele e o filho dormem juntos...

 

Ser pais participantes da gestação e do parto é estar envolvidos na paternidade, o que é coisa diferente do estar envolvido na relação com a mãe do próprio filho. Uma coisa é apoiar a gestação, outra é apoiar a mulher que a carrega! Esse homem, como muitos, está voltado para o filho. Ele vai ter seu filho, sua progênie. As mulheres continuam, com frequência, sem poder contar com a parceria masculina. Cada um tem um filho, separadamente, mesmo sendo o mesmo bebê.

 

Ao vazio do apoio moral do marido, se soma, à sabotagem do pediatra que, ao receitar o leite artificial, está diretamente desqualificando o leite da mulher. Sobra somente a mãe da puérpera, a qual busca ajuda...

Concluímos que só nos resta a solidariedade feminina, que é a chave que precisamos para empoderar as mulheres, de modo que elas possam ser mães ativas e conscientes de uma nova geração humana, mais saudável no corpo e na mente

 

 

[1] Relato de caso de Tatiana Stanzani Acquarone, enfemeira e facilitadora de amamentação.

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags