OS TRÊS PRIMEIROS TRIMESTRES: AS DEUSAS EM CONFLITO. PSICOLOGIA PERINATAL ARQUETÍPICA

Ao saber-se grávida, a mulher pode alegrar-se ou desesperar-se, resignar-se ou preocupar-se. Uma gravidez sempre é recebida como um evento que rompe a rotina e prenuncia grandes transformações, a maioria das quais imensuráveis. Mesmo sabendo racionalmente que um bebê dá trabalho e custa dinheiro, uma mãe de primeira viagem não poderá ter real noção do que isso significa na prática até experimentar em primeira pessoal. Se já for mãe, ela poderá se supreender com a gravidez diferente da anterior. Cada bebê é único assim como cada gestação. Irmãos podem ser indivíduo completamente diferentes e seus pais devem estar prontos para a surpresa. As atuais condições psico-físicas da mãe, assim como as ambientais, sociais e financeiras tornam cada gestação uma experiência única. Nunca podemos antecipar com exatidão o que está vindo ao nosso encontro.


O fator incontrolável é sentido tão próximo quanto impalpável. Em nossos tempos sem um Deus onipotente que a tudo provê, tempos de ansiedade e precariedade, uma gravidez mesmo desejada e procurada é um desafio que a mulher sabe ser, em primeiro lugar, seu. A gestação ocorre em seu próprio corpo. Não se trata de um projeto intelectual, de um trabalho empenhativo ou de uma tarefa complicada. O cerne da vivência se localiza no âmago de ser ser, está literal e metaforicamente dentro dela, em suas entrenhas, tão íntimo quanto desconhecido. O bebê é uma incognita: quem ele é, o que ele quer, o que vai exigir dela. A gravidez também: como funciona, como seu corpo vai reagir, como será o parto, como será o pós-parto. Enfim, o que acontecerá com sua vida? Objetivamente, ela não tem como saber se irá dar conta ou não, se aguentará a dor do parto, se será uma boa nutriz, se conseguirá levar adiante os estudos ou trabalhos e seus projetos.


Aqui há de haver a primeira grande entrega da mulher. Ingressar e aceitar uma gravidez requer um ato de fé. Não a fé num Deus distante, racional e masculino. Não a fé em médicos e exames, os modernos substitutos do deus onipotente e muletas para nossa insegurança. A gravidez requer fé na Vida, no processo da Vida, cujo corpo é o nosso. Fé no dinamismo fisiológico e na novidade que se avoluma. Fé no novo sol nascendo. Fé de que apesar das dificuldades vale a a pena e será uma aventura maravilhosa. Nenhuma prescrição e senso comum pode suplantar essa abertura do coração, esta entrega profunda de alma, silenciosa e eficiente, que dá asas à gravidez, raízes e linfa vital, a sustenta até seu desfecho final e inaugura uma maternidade a pleno vapor.


Um solo fértil e nutridor é preciso para a entrega de fé, a qual está guardada em toda mulher, de toda idade e condição. Nem sempre entretanto é desperta. Quando ocorre pode não ser profunda e inteira, mas vinculada a uma expectativa social, um “assim deve ser” e não um “assim é”. A alegria exibida esconde camadas subterrâneas de conteúdos que geram instabilidade. A gravidez é vivida por mulheres de carne e osso, contextualizadas, criadas numa sociedade que as molda e orienta, que exige delas papeis, funções, aptidões e estereótipos. Portanto, é indispensável ampliar o foco para compreender o que ocorre na gestação de cada mulher.


A sociedade contemporânea está construída em torno no trabalho que por sua vez está vinculado ao capital e à economia mundial. Cada um de nós é um pião pertencente a uma grande máquina e sabemos disso se observamos a maneira como corremos freneticamente preocupados com o amanhã, com o aumento dos preços, com a insegurança nas ruas e com as perspectivas profissionais. Num coletivo como esse, não se pode perder tempo, deve-se “correr atrás”, as pernas precisam ser rápidas e ágeis ao atravessar a rua, o trabalho dobrado para ser mantido, o sono encolhido e os momentos de diversão hipertrofiados, como fossem uma explosão de fogos que dão vazão à tensão acumulada.


A gravidez, com sua chamada para dentro e para o fundo, é um elemento alienígena neste contexto. É comum a mulher manter-se alheia ao pedido interno de introversão, até por uma simples questão de inércia. Seguirá o mesmo ritmo de antes até que algo imperioso a arraste para dentro e force uma nova direção da libido. Mas não podemos sempre esperar pela patologia para a mudança do quadro. Frequentemente, a situação segue a rotina pré-gravídica feitas algumas conceções, produzindo sintomas mais sutis e ambíguos que muitas vezes permanecem sufocados pelo lugares comuns que como bloques de mármores são-lhes sobrepostos na tentativa inútil de interpretá-los.


Por não termos uma psicologia social especificamente feminina, por não termos uma teologia popular que dê conta dos fenômenos da vida das mulheres e porque a modernidade há quintenhos anos sistematicamente afastou-nos da sabedoria feminina do passado, por isso tudo e pelo fascínio e efetividade que representa, recorrer à psicologia arquetípica das Deusas da mitologia grega é um recursos dinâmico e eficiente, desde que se compreenda a essência de cada uma delas.


A Deusa que regia a maternidade e o processo gestacional e que representa a mãe por excelência é Deméter.


Deméter


Sábia e paciente, Deméter!

Acalentando seus filhos, ouvindo os desabafos de suas amigas, compreendendo e cuidando de seu homem, alimentando as relações, tecendo a teia que dá origem à comunidade humana.

Deméter, seu regaço é fonte de infinito acolhimento, sabedoria amadurecida ao longo dos anos e transmitida de geração em geração, de mãe para filha, e para netas e vizinhas e afilhadas. E qual felicidade quando se descobre grávida, novamente grávida! Aquela sensação de plenitude, pura graça divina que transcende qualquer explicação ou compreensão humana. A gravidez a faz desabrochar, impecavelmente sintonizada com a vida, o universo, seu desígnio. Como é bom ter filhos, cuida-los, amamenta-los! Que encanto trazem com seus sorrisos e olhares, suas descobertas e conquistas. Preciosos frutos de seu ventre, orgulho de sua vida, maravilha sem fim. E todo o trabalho que eles dão? Mas o que é isso, perto da alegria e realização que trazem? Sejam abençoadas as crianças, com suas risadas, suas falas e sua bagunça! Deméter não se incomoda, arranja sempre um jeito de ter tempo, forças e compreensão, além de brincar e se divertir com eles.

Deméter cuida pouco de si, não gasta nem tempo nem dinheiro em se enfeitar, vestir, maquiar. Não acha isso suficientemente importante, prefere investir seu tempo fazendo um delicioso pão, preferivelmente num fogão a lenha, produzindo roupas para seus filhos, curtindo com eles qualquer momento da vida.


A beleza de Deméter resplandece nas dobras e cantos do dia a dia, nos momentos de intensa tristeza, nas grandes e pequenas alegrias, nas perdas e nos dons que a vida trás. Ela passa séria e responsável, porém suave e terna, pelo tumulto da existência. É o porto seguro para onde voltar, encontrar sossego, nutrimento para o corpo e a alma. Deméter costura cuidadosamente os trapos e remonta os cacos, encoraja e anima com realístico otimismo e devolve seus entes queridos ao mundo.


Este rápido olhar sobre a alma da mulher-Deméter nos traz imediamente a sensação de que estamos diante de uma mulher não urbana. Uma saudade de pão feito em casa, de amor sem julgamentos, de perfumes e rítmos agrários, de sol entrando pelas janelas de cortinas floridas, de cozinha arrumada a festa, de risos de crianças, de tempo que passa como um infinito suave que estabiliza o  coração, dando-lhe raízes, sossego, serenidade.


Não é disso que vivemos. A Deusa de nossa civilização ocidental chama-se Atena que apresento em sua melhor versão.


Atena


Que grande mulher é Atena!

Inteligente e culta, tem mil idéias e projetos. Quer mudar o mundo, melhorar a qualidade de vida, lutar contra o preconceito, a injustiça, a mentira. Entre suas muitas preocupações, tem a da educação das crianças, pois ela sabe que são nosso futuro. Um futuro hoje tão incerto! Mas, quem sabe, os cidadãos de amanhã nutridos e criados num espírito diferente poderão construir um mundo melhor.

Atena admira os heróis, pois ela é a heroína dos nossos tempos. Todas as grandes conquistas históricas no campo do direito, da legislação, do trabalho e do espaço civil para as mulheres foram asseguradas por ela.

 

Seus amigos são, quase sempre, homens. Eles, mais do que a grande maioria das mulheres que ela conhece, partilham suas aspirações e entusiasmos. Claro que eles ficam fascinados pelo seu espírito audaz e inovador dentro de um corpo e de um charme de mulher. E, por esta mulher sentem-se atraídos, muito mais do que ela gostaria, pois ela, que nada sabe de romantismo, exige ser ouvida, apoiada, acrescentada inteligentemente. Ela quer companheiros de luta e de aventuras culturais.

Extremamente forte, Atena se esforça para ser e mostrar competência, eficiência, confiabilidade, racionalidade. Protege e esconde sua delicadeza, sensibilidade e carência por traz de uma cabeça clara e lúcida, cheia de bom senso e palavras cartesianas.

Atena perdeu o contato interior com a mãe muito cedo, e ficou sem o norte do feminino instintivo. Sua referência é  o pai e os valores masculinos. Com certeza, ela precisa de muito carinho, mais daquele que ela mesma está disposta a admitir, pois para ela esta necessidade constitui uma inequivocável prova de fraqueza, pelo menos isso é o que o mundo masculino no qual ela vive lhe ensinou. Os momentos de fragilidade e vulnerabilidade que ela se permite são intencionalmente escolhidos, assim como são selecionadas as pessoas que vão estar lá para ampará-la. São momentos, que começam e também terminam, logo ela levanta a cabeça e volta destemida para o mundo.

Uma sensação obscura, porem, diz-lhe que algo está errado, uma saudade de vez em quando a toma e a faz titubear. Algo falta. E, numa análise aprofundada, ela descobre que lhe falta o colo da mãe, a ternura do abraço materno, o afago de quem sabe o que e feminino...

Não é no cabelo ou no dengo
ou no olhar, ó mãe
É ser menina por todo lugar, ó mãe
Ó mãe, me explica, me ensina, me diz
O que é feminina...

         (Feminina, Joyce)


Estamos apresentando modelos, figuras ideais, não espelhos de mulheres reais. As duas grandes Deusas em conflito ao ingressar na gravidez são Deméter e Atena, mas especificamente: Atena lutando contra a tomada de poder de Deméter que é lento, como o progredir da gravidez, mas inevitável e sobretudo necessário. Atena é uma Deusa virgem, o que quer dizer que ela se basta a si mesma. Deméter é uma Deusa de relação, nutridora por excelência. Atena gosta de adultos e de atividades adultas, Deméter de tudo o que é pequeno, que brota, que cresce, que escorrega, cai e levanta. Atena é dura e firme, Deméter macia e terna. Atena pensa, Deméter sente.


Atena é a filha do Pai, a única possibilidade ainda hoje da inserção da mulher na sociedade profissional e de poder. Ela é a mulher ativa, dinâmica, confiável (ou que se esforça de todas as maneiras para sê-lo), pronta, disponível para trabalhar, eficiênte. É a mulher que anda com o escudo sobre o peito e por baixo é a menina singela, ainda nos seus 12 anos, delicada e ingênua. Esta é a Persona que devemos vestir para ingressar no mundo do trabalho. Ao vermos-nos grávidas, Deméter batendo à nossa porta, com seu corpo grande, que faz espaço para os filhos, com seu coração aberto, suas raízes profundas na terra, sentimo-nos atordoadas, confusas, em conflito, inseguras.


Como conciliar as duas Deusas em nós? Quando Atena está no comando, nas revistas top, entre executivos e altos salários, e Deméter anda calada e trancada na figura demodé da dona de casa, pouco esperta e não habilitada para o trabalho “verdadeiro”? Deméter é depreciada seja pela sociedade industrial masculina e seu sistema capitalista seja pelo movimento feminista em geral. Entretanto, é nela que encontramos as raízes fortes e estáveis para uma maternidade plena e gratificante.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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