A GRAVIDEZ E OS PRIMEIROS DOIS ANOS DE VIDA DA CRIANÇA SÃO MOMENTOS CHAVE DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

April 29, 2019

RESUMO

 

A gravidez e os primeiros tempos de vida da criança são períodos críticos em que vários factores de risco se podem conjugar e comprometer a capacidade parental e o  desenvolvimento da criança com repercussões ao longo da seu ciclo de vida. Mas são

também momentos potencialmente transformadores, para os quais poderão contribuir a solicitude dos profissionais de saúde.


Palavras-chave: Gravidez; Depressão na Gravidez e no Pós-parto; Vinculação, Parentalidade; Factores de Risco e Protectores; Rede de Suporte.

 

 

O período da gravidez é curto, uma passagem e preparação para outro, longo, o de ser mãe e pai para sempre. Durante este período profundas alterações psíquicas ocorrem na mulher e no homem, preparando-os para a parentalidade. É um tempo de vulnerabilidade

psicológica que irá ter repercussão na interrelação com o bebé e no seu desenvolvimento.

Os dois primeiros anos de vida são a fase em que o desenvolvimento humano é mais rápido mas também mais vulnerável, em que é maior a dependência do meio. Neste período a criança adquire a posição erecta, a marcha, a fala e inicia a socialização. Mas necessita para isso de estabelecer uma relação privilegiada com os pais, que serão o suporte para o seu desenvolvimento emocional, cognitivo e social futuros. Estes são dos períodos mais sensíveis na vida humana, em que a existência de uma rede  multiprofissional atenta e solícita à volta da família pode ser determinante. No nosso país já existe uma rede de Cuidados de Saúde Primários que releva estes períodos e cujo trabalho é de valorar.

 


A GRAVIDEZ

A gravidez é um acontecimento que marca para sempre a mulher e o homem, pela intensa metamorfose psíquica que irá reorganizar a sua identidade e transformá-los em mãe e pai, aptos a cuidar de um ser novo e desconhecido, o bebé. Consideram-se como tarefas deste período a aceitação da gravidez, a aceitação da realidade do feto, a  reavaliação das relações com os próprios pais e também com o cônjuge e a aceitação do bebé como um ser separado. Estas tarefas vão-se realizando ao longo dos

três trimestres da gravidez e são geralmente sentidas de forma mais premente pela mulher.

 

No 1º trimestre aparecem habitualmente sintomas psicossomáticos, como enjoos e vómitos, dando conta da ambivalência sempre presente em relação à gravidez. No 2º trimestre, com o aparecimento dos movimentos fetais, a realidade do feto está presente e atenua a ambivalência, mas aparecem os receios sobre eventuais  malformações e perda do feto, alterações da imagem corporal, que se vai deformando e um quadro depressivo pode ser patente. No 3º trimestre aparecem os medos relacionados

com o momento do parto, as dores e pode mesmo aparecer uma angustia de morte da própria e/ou do bebé.

 

Na gravidez o bem estar psicológico da grávida é determinante, devendo-se estar atento ao seu estado emocional e mobilizando o envolvimento do cônjuge e de outros familiares próximos. Vários factores de risco podem concorrer para perturbara gravidez actual:

• gravidez não planeada, não desejada e não aceita, em que não é feita a preparação para o parto, nem há preparação para acolher o bebé;

• gravidez de alto risco;

• malformações do feto;

• morte de um familiar próximo (mãe, cônjuge, pessoa significativa) durante a gravidez;

• patologia psiquiátrica: depressão (fadiga, alterações do sono e do apetite, tristeza, irritabilidade, choro, ideação suicida), psicose, toxicodependências;

Situações de risco relacionadas com os antecedentes obstétricos da grávida:

• Interrupções in/ou voluntárias da gravidez;

• morte in utero;

• partos prematuros;

• gravidez anterior não vigiada;

• colocação familiar ou institucional de outros filhos.

Factores de risco relacionados com o contexto familiar e social do casal grávido:

• violência doméstica (pode ser a causa da depressão materna);

• isolamento social da grávida;

• pais adolescentes;

• relações perturbadas com a família de origem;

• colocação familiar ou institucional na infância.

Para que o médico de família possa aceder a estas situações é necessário mostrar disponibilidade de escuta e de tempo para tecer com o casal uma relação de confiança, base indispensável para qualquer intervenção bem sucedida. Se uma pequena equipa, formada com a enfermeira, a assistente social e eventualmente um técnico de saúde mental do Centro de Saúde, puderem conjugar esforços e intervir articuladamente,

uma mudança transformadora na mulher e no homem grávidos poderá ocorrer.


As experiências relacionais de suporte dos profissionais, por vezes as primeiras sentidas nas suas vidas, no período sensível da gravidez, poderá organizar estas famílias. E a gravidez, período de vulnerabilidade poderá também ser maturativo e transformador. O aparecimento da criança irá acentuar o desejo reparador e reanimar a vida destas famílias.


A RELAÇÃO MÃE-PAI-BEBÉ

A criança nasce com um equipamento neurofisiológico programado, em parte  geneticamente, mas para que as suas potencialidades se possam desenvolver, precisa

de ser estimulada por experiências sensoriais e afectivas e satisfeita nas suas  necessidades. A criança ao nascer vem plena de competências para interagir e chamar a atenção sobre si, mas necessita que o outro, mãe-pai, estejam lá, para sentirem o que

ela sente e para, através dos seus diferenciados aparelhos psíquico e afectivo, darem significado àquilo que ela sente e darem resposta adequada à sua necessidade mal expressa.


Os comportamentos instintivos do bebé, como a sucção, a preensão, o seguir com o olhar, o chorar, o sorrir, constituem competências inatas que geram no adulto um movimento de aproximação e protecção, a base para a criação de uma vinculação mãe-pai-bebé.5,6 A continuidade desta relação e a previsibilidade na prestação de cuidados num contexto de uma relação empática e de afecto constitui o principal motor para o adequado desenvolvimento psico-afectivo do bebé.


A mãe, que transportou o bebé no seu ventre durante nove meses, é quem geralmente mais cuida do bebé. E este reconhece-lhe o cheiro, a voz e até os batimentos cardíacos, o que explica que ao ser pegado por ela se acalme de imediato. A repetição e a  continuidade dos cuidados ao bebé permitem-lhe antecipar esses mesmos cuidados. Se o bebé estiver a chorar com fome basta-lhe ouvir ou ver a mãe para se acalmar, muito antes da mamada. O bebé começa a formar traços de memória e desenvolve a sua capacidade de representação mental. Esta capacidade apoia-se e progride no sistema

interactivo com a mãe, que traduz e dá resposta adequada às necessidades do bebé. Se estas necessidades não são satisfeitas de forma regular e contínua, o bebé não encontra nenhuma previsibilidade no meio que o rodeia e não adquire a capacidade de antecipar,

esta traduz precocemente o surgimento das representações mentais na criança. Situações caóticas, sendo limites as que um bebé vivência com uma mãe toxicodependente, prejudicam o seu desenvolvimento emocional e cognitivo. Mas a mãe não tem de corresponder de imediato a todas as exigências do bebé, aliás deve dar-lhe um espaço

para que ele possa experienciar a separação. São as pequenas frustrações que o bebé vai sentindo que lhe permitem o contacto com a realidade exterior. A função do pai é aqui essencial porque favorece as capacidades do bebé a entrarem em relação com o exterior.

O bebé apreende um estilo relacional mais estimulante e activo que o ajudam na separação da mãe e a diferenciar-se.


O pai participa cada vez mais nos cuidados à criança e apoia a mulher na sua função maternal. Este envolvimento do pai é decisivo para o crescimento e autonomia da criança. Se nas experiências relacionais da criança prevalecer o prazer sobre a frustração, se as suas zangas e mal estar puderem ser exteriorizados sem retaliação, ela começa a ganhar confiança no mundo que a rodeia. Esta é uma experiência capital para a criança, poder exteriorizar a sua agressividade sabendo que há uma força maior que a limita e

contem que é a dos pais que a acarinham e protegem.


Se a criança ficar só, com as suas zangas e frustrações, percebe que é indiferente ao meio, sem valor, desconsiderada e hostilizada por ele. Ficará invadida por sentimentos de ódio, sentimentos que lhe são insuportáveis que vai colocar fora dela, nos outros. Outros que a agrediram e que passam a ser agredidos por ela. Em situações extremas, em que as crianças cresceram num enorme vazio afectivo, há uma total insensibilidade pelo outro que se manifesta em comportamentos agressivos e violentos.


A vida recebe-se na relação com um outro. Um outro mãe-pai, ou um outro com quem a criança possa tecer laços afectivos fiáveis. A criança, ao beneficiar de cuidados parentais satisfatórios e segurizantes, quando ela própria assumir a função parental, providenciará esses mesmos cuidados aos seus filhos. Podem prevenir-se assim muitas das perturbações

mentais na criança e na vida adulta e comportamentos de risco.

 

AS DEPRESSÕES MATERNAS

Os estados depressivos maternos do pós-parto, que se iniciam por vezes durante a gravidez, incapacitam as mães para as suas funções maternais e alteram a relação

com o bebé.A maioria das depressões pós-parto são de intensidade ligeira ou moderada. A mãe pode sentir uma grande ansiedade, com ideias de poder deixar cair o bebé ou de não conseguir tratar dele, o que pode não lhe permitir ocupar-se adequadamente do bebé.

A ajuda do pai do bebé, de outros familiares e o suporte dos profissionais dos cuidados de saúde primários é determinante para que a mãe adquira confiança nas suas capacidades maternas e ultrapasse a sua ansiedade.


O PÓS-PARTO BLUES

Entre a 1ª e 2ª semanas após o parto, 40 a 60% das puérperas podem sentir-se irritáveis, hipersensíveis, com choro fácil, mas rapidamente estes sintomas, associados às quebras hormonais após o parto, desaparecem.

 

A DEPRESSÃO DO PÓS-PARTO

Situa-se entre o 2º mês e o fim do 1º ano após o parto e ocorre em 10 a 15% das puérperas.13 Mas pode chegar aos 50% nos casos de depressão pós-parto anterior. Segundo O’Hara e Swain14 pode decorrer com dois picos, um entre as 6 e 12 semanas e outro no 2º semestre após o parto. Cox15 enquadra estas depressões num fenómeno

biopsicossocial, de etiologia multifactorial: biológica, psicossocial e psicodinâmica. Como a mulher e o meio que a cerca encaram a situação, dando-lhe ou não relevância,

dependerá o pedido de ajuda e a abordagem terapêutica. É muito difícil para a mulher aceitar que está irritável, cansada e triste, que está a ser penoso ocupar-se do

seu bebé, quando o companheiro, a família e a sociedade lhe transmitem que a circunstância de ser mãe lhe deveria trazer a total plenitude e prazer. A mulher sente-

se culpada pelos seus sentimentos e esconde o seu estado depressivo.


A mãe pode até tratar funcionalmente do bebé mas sem a sua capacidade de imaginar e de transmitir emoção e afecto na sua relação com o bebé. É uma relação desvitalizada que põe em risco a constituição psíquica do bebé e perturbam a coesão entre a psique, o corpo, o funcionamento corporal e mental. O bebé torna-se vulnerável à descompensação psicossomática, podendo surgir alterações do sono, alimentares ou atrasos do

desenvolvimento.


São os médicos de família que podem detectar estas depressões, frente a um bebé irritável e com as alterações acima descritas. A mãe, perante o seu bebé em sofrimento, aceita melhor o tratamento. Deve incluir--se o pai que passará a compreender o estado da mulher e a dar ao bebé o suporte emocional de que ele necessita. Para o diagnóstico da depressão pós-parto recomenda-se a utilização da Escala de Depressão Pós-parto de Edinburgo (EPDS), que foi traduzida e validada para Portugal.


A intervenção terapêutica deve avaliar os factores de risco, como as dificuldades temperamentais ou regulatórias do bebé, bebés prematuros ou com malformações, as relações conflituosas no casal, o isolamento da mãe, os problemas sócio-económicos da família. Assim como os factores protectores, o apoio do companheiro, da família próxima (mãe, irmã, tia), de amigas e, igualmente importante, a disponibilidade dos técnicos de saúde. A nível psicofarmacológico o antidepressivo recomendado é a paroxetina, que pode ser utilizado em mães que amamentam.


As situações que não revertem necessitam de terapias psicológicas direccionadas à relação mãe-bebé ou pai-mãe-bebé, dispensadas em serviços de saúde mental especializados. A possibilidade dos casais serem acolhidos de uma forma empática por profissionais dos cuidados de saúde primários, que ouçam as suas dúvidas e receios, lhes

reconheçam e valorizem as competências, ao longo da gravidez e primeiroês tempos de vida da criança, mantendo sempre uma continuidade relacional, é dos suportes mais efectivos para a família e garante do desenvolvimento psico-afectivo da criança com repercussões no seu futuro.

 

CONCLUSÃO

A gravidez e os primeiros dois anos de vida da criança são períodos de grande vulnerabilidade para a família, que necessita de uma rede de suporte, já constituída pelos profissionais dos Cuidados de Saúde Primários. Pretende-se alertá-los para os factores de risco mas também para as potencialidades de mudança que estes momentos

comportam e como a sua intervenção pode ser catalizadora do desenvolvimento das famílias e das crianças.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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3. Promoção da Saúde Mental na Gravidez e Primeira Infância: Manual de orientação para profissionais de saúde. lisboa: DGS-DSPSM; 2005.

4. Brazelton B, Greenspan S. A criança e o seu mundo, requisitos essenciais para o crescimento e aprendizagem. Lisboa: Editorial Presença; 2002.

5. Bowlby J. Attachment. New York: Basic Books, 1969.

6. Guedeney N, Guedeney A.Vinculação, conceitos e aplicações. Lisboa: Climepsi Editores, 2004.

7. Douriez MP. Bébé agi, bébé actif. Paris: Presses Universitaires de France; 1984.

8. Molénat M.Grossesse et Toxicomanie. Paris : Éditions Érès; 2000.

9. Brito I. Para uma nova clínica de pais e bebés. In: Leal I, editor. Psicologia da Gravidez e da Parentalidade. Lisboa: Fim de Século, 2005. p. 409--32.

10. Naouri A. Une place pour le père. Paris : Éditions du Seuil; 1985.

11. Lebovici S. Psychopathologie du bébé. Paris: Presses Universitaires de France; 1989.

12. Golse B. In: Corrêa Filho L, Corrêa ME, França PS, orgs. Novos olhares sobre a gestação e a criança até os três anos. , 14, 232-248. Brasília: L.G.E. Editora; 2002. p. 234-48.

13. Postnatal depression and puerperal psychosis. Scottish Intercollegiate Guidelines Network (2002). Edinburgh. Disponível em: http://www.sign.ac.uk [acedido em 20/09/2009].

14. O'Hara MW, Swain AM. Rates and risk of postnatal depression.A meta-analyses. Int Rev Psychiatry 1996; 8 (1): 37-54.

15. Cox J.Troubles psychiatriques du post-partum: aspects sócio-culturels de la “maladie” mentale sévère. In:Mazet P, Lebovici S, editéurs. Psychiatrie périnatale. Paris: Presse Universitaires de France ; 1998. p. 431-41.

16. Kreisler L. Le nouvel enfant du désordre psychosomatique. Toulouse: Privat; 1987.

17. Cox JL, Holden JM, Sagovsky R. Detection of postnatal depression: development

of the 10-item Edinburgh Postnatal Depression. Scale. Br J Psychiatry 1987 Jun; 150: 782-6.

18. Augusto A, Kumar R, Calheiros JM, Matos E, Figueiredo E. Post-natal depression in an urban area of Portugal: comparison of childbearing women and matched controls. Psychol Med, 26 (1): 135-41, 1996 Jan.

19. Puura K, Davis H, Cox A,Tsiantis J,Tamminen T, Ispanovic-Radojkovic V, et al. The European Early Promotion Project: description of the service and evaluation study. Int J Ment Health Promot 2005 Feb; 7 (1): 17-31.


A autora declarou não possuir conflitos de interesses.


ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Isabel Brito
E-mail: isabelcbrito@gmail.com
Rev Port Clin Geral 2009;25:600-4
604 dossier: saúde mental infantil

 

Rev Port Clin Geral 2009;25:600-4 600 dossier: saúde mental infantil

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