IMPORTÂNCIA DOS ASPECTOS PSICOLÓGICOS NO PROCESSO REPRODUTIVO

April 29, 2019


A parentalidade, principalmente quando é do primeiro filho, é considerada uma nova fase de desenvolvimento, um life event muitas vezes difícil para a adaptação psicobiológica, com um cortejo de expressões psicopatológicas que não existiam antes. São muitos os fatores que influenciam os aspectos psicológicos no processo reprodutivo, por este motivo iremos destacar dentro deste tema as principais “modificações psicológicas” no momento da gestação, parto e pós-parto. Estas modificações são facilmente evidenciadas nos casais grávidos, porém não sempre bem ponderadas.

 

A parentalidade*, principalmente quando é do primeiro filho, é considerada uma nova fase de desenvolvimento, um life event muitas vezes difícil para a adaptação psicobiológica, com um cortejo de expressões psicopatológicas que não existiam antes. Estas manifestações patológicas podem abarcar desde a depressão pós-parto, muito mais frequente do que tem sido reconhecida, passando pelas psicósis pós-parto, que são mais rara e podem afetar tanto os homens como as mulheres, muitas vezes representando a primeiroa eclosão de uma descompensação psicótica, assim como uma série de manifestações psicossomáticas, das quais muitos equivalentes “funcionais” da couvade no homem.

Neste capítulo deixaremos de lado essas mudanças emocionais mais profundas, consideradas patológicas, e apontaremos alguns aspectos que podem ser observados com mais frequência.  

O desenvolvimento desse tema nos permitirá refletir sobre a necessidade de superar dicotomias relacionadas com o nascimento. Como sabemos as formas do nascimento foram mudando através do tempo, e ao transferir o processo do nascimento a um espaço mais seguro desde o ponto de vista médico, como é o hospital, se deixaram de lado importantes aspectos que estão presente também nesse momento e que podemos identificar como “psico-biológico”, não contemplados na clássica definição de parto. Nessa definição o parto é considerado como a expulsão ou extração completa do produto da concepção do corpo da mãe” (ref. bibliografica Clap).


Esta definição identifica muito bem o nascimento de um corpo biológico, porém abstrae os aspectos afetivos e socioculturais que também estão presentes e influenciam nesse momento importante do início de uma família como veremos mais adiante.


O início


Elas podem chamarse: Marías, Claudias, Juanas. Eles se podem chamarse: Pedros, Juan, José …., podem ser brancas, negras, amarelas, podem ser jóvens o não, podem ser casados apaixonados o amantes, apesar de todas las diversidades; eles têm um ponto en común: o desejo de ter um filho. Antes de ficar  grávidos já estão gestando sonhos e desejos. Entre o desejo de ser mãe e pai, crescem crianças em meio a fantasías, tramas, sistemas complexos e multifatoriais.

 

Quando olhamos esta imagem, podemos ver uma casal frente a um paisagem, porém se observamos com maior atenção esta figura, veremos de forma mais ou menos escondida, a imagem de um bebê. Esta é uma  foto que encontrei na Internet. Pode ilustrar muito bem como o desejo de ter um filho pode estar presente em nós sem nos darmos conta. Porém como surgem esses desejos? Por que surgem? Que caminhos criam? Quem os determina? Impulso sexual, preservação da espécie, crenças religiosas ou renovação da humanidade. O desejo de ter um filho abriga uma diversidade de motivos baseados em os antecedentes familiares, forças biológicas, marcadas pelos contextos sociais e culturais nos quais o casal está inserido e  também por influências psicológicas.

 

Se pode dividir, apenas em forma didática, os fatores que influenciam as vivências emocionais de uma gravidez em: “Macro ambiente”, que identifica as influências externas ou do meio ambiente em que se encontra a mulher ou o casal; “Matroambiente”, que identifica as influências internas, também chamadas de vivências afetivas e emocionais, sentidas pela futura mãe e pai, sobre o gravidez e o feto; e, por último, “Fetoambiente” que identifica as  influências que estão em íntima relação com o feto e que podem repercutir tanto em a vida intrauterina, como na relação do casal e do ambiente famíliar.


O Macroambiente


Apesar da fisiología do parto ser a mesma, estudos antropológicos demostram que em nenhuma sociedade o parto é tratado apenas de forma  exclusivamente fisiológica, é também um acontecimiento bio-psico-social, rodeado de fatores ócio-culturais, emocionais e afetivos.


As mulheres que são mães pela primeira vez podem confrontar uma realidade frequentemente diferente dos sonhos que tinham em relação a este momento.


Por mais que uma gravidez tenha sido planejada, a realização do sonho de ter um filho pode ser definido como de “um choque súbito”. A mulher passa a ser diferente. Uma futura mãe é vista como um objeto de interesse, e passa a ser uma preocupação da sociedade.


Quando a mulher está grávida muitos dos aspectos de sua vida privada passam a ser conhecidos por seus amigos, familiares, equipe médica, que fazem o acompanhamento biológico de sua gravidez. A sociedade como um todo, está  atenta à mulher grávida, com interesse e preocupação, mas não por ela em si, ou pelo que faça. Mas porque é portadora de uma nova vida. Uma das consequências dessa atitude é a falta de confiança da maior parte das futuras mães para levar a bom término esse fenômeno impar da naturaleza.


No Brasil, constatamos que está vigente um modelo de atenção ao parto que se define como evento médico, carregado de risco. Neste modelo a mulher grávida é tratada como paciente, ou seja, com alto potencial de sofrer uma complicação médica. O médico, ou o professional  responsável da assistência utiliza, muitas vezes,  intervenções obstétricas que são produto de um zelo que na maioria das vezes é exagerado. Esta visão eminentemente médica, subtrae da gravidez todos os outros sentimentos e sensações que a mulher, ou melhor, o casal pode estar sentindo do ponto de vista psíco-bio-social, tratando esse episódio como um evento médico isolado.


O significado que as mulheres atribuem à experiência da gravidez e nascimento, é, na maioria das vezes, minimizado, e los sentimentos presentes são considerados menos importantes que a suposta segurança que dela e de seu filho devem ter.


Algumas investigações realizadas no Brasil sobre este tema tentam explicar a forma pela qual os valores culturais, como o medo da dor ou a mutilação perineal no  parto vaginal referida por algumas mulheres, la preservação da imagem corporal feminina e a fascinação pela moderna tecnología, são manipulados pela biomedicina, pela industria farmacéutica e instrumental, para liberar a mulher e os médicos desses inconvenientes, pratica habitual na medicina ocidental.


Assim vemos que esses fatores passam a ser chamados de falta de preparação psicológica para o trabalho de parto e parto, transformando-o em justificação médica para poder realizar intervenções que na grande maioria das vezes não são necessárias.


Apesar de todavia não contamos com uma explicação ou evidência científica para justificar esses fatores negativos, a idéia de um provável dano do períneo, que pode ser provocado pelo parto vaginal, interfere na estética de seu corpo e também com no futuro potencial sexual da casal, esses valores são entendidos como centraies à imagem corporal e à identidade feminina.


Estes motivos passam a justificar intervençõess cirúrgicas como forma de prevenir uma lesão corporal, justificando-se como medicina preventiva. Nesses processos tais intervenções passam a ser denominadas cesáreas electivas, insinuando-se que a cultura da cesárea espelha um desejo feminino. É importante deixar claro que estou me referindo às cesáreas desde a perspectiva sociocultural, pois existem muitos fatores que envolvem este tema que é complexo e que não iremos aprofundar.


O parto, como outros processos fisiológicos, nunca é totalmente natural, tal como o comer, o beber, o movimento físico, as relações sexuais, a puberdade, a maturidade, etc. Essas funções fisiológicas são culturalmente definidas, encontrando um conjunto de regras, convenções e rituais que generalmente não são escritos e que os governam. Assim é o parto, que também varia de acordo com os costumes sociais. Por isto, tratar a gravidez e o parto, la própria maternidade e paternidade não somente como um fenómeno fisiológico, mas como experiências socialmente construídas, nos permite ampliar a comprensão dos casais durante o processo da gravidez.


As influências do “macroambiente” apontadas, e outras que sabemos estar presentes e não foram assinaladas, interagem com as vivências afetivas do casal grávido, que também denominamos de “matroambiente”.


O matroambiente


Desde o ponto de  vista psicológico, no ciclo vital da mulher existem  períodos de transição que fazem parte do desenvolvimento da  personalidade e que têm vários pontos em comum. A puberdade, a gravidez e o climatério são três períodos biologicamente determinados e caracterizados por modificações metabólicas e hormonais complexas. Essas fases são consideradas instáveis devido à grandes modificações que envolvem tanto os aspectos sociais como as novas adaptações emocionais, sendo necessário um reajuste interperssoal e intra-psíquico. Apesar da existência de estados emocionais peculiares na gestação se reconheçam, a origem dos mesmos é muito discutida. Iremos pontualizando alguns dos aspectos emocionais, que dividimos em quatro  trimestres. Obviamente, não todos os aspectos são vividos por todas as mulheres e casais com a mesma intensidade.



O primeiro trimestre


A sensação de estar grávida pode ocorrer antes da confirmação clínica. Não é raro encontrar mulheres que captam as transformações bioquímicas e corporais que mostram a presença da gravidez. A partir do momento da percepção, consciente o inconsciente, se inicia o vínculo materno-filial e as modificações em cadeia das diversas formas de intercomunicação familiar. Nesse momento, se instalam também a vivência básica dos quatro trimestres do ciclo gravídico-puerperal: “la ambivalência  afetiva”.


O período de incertidão sobre si está ou não grávida pode ser breve porém muito intenso. Para algumas mulheres supõe um período de angústia, para outras se trata de um período de euforia. A insegurança lhes permite jogar imaginariamente com seus desejos e com a possibilidade de “talvez estou grávida”. Que é bem diferente de “estou grávida”. Ou, talvez, introduz uma dimensão de liberdade ilusória, um sentimento parecido ao das crianças, quando fazem de conta, por exemplo, que são um animal, uma professora, uma mãe e ainda assim continuam sendo elas mesmas. Assim acontece com a mulher quando está neste período de dúvida. A ambivalência frente à nova situação confirma a teoria de que somos seres movidos por emoções e por isto capaces de desejar e não desejar, movimentos emocionais que ocorrem simultáneamente. Não existe uma gravidez totalmente aceita ou totalmente rejeitada. A ambivalência afetiva é um fenômeno natural e caracteriza todas as relações interperssoais significativas.


O relato de uma paciente pode mostrar-lhes o sentimento ambivalente nesta fase:

Uma menina de 18 anos nos dizia: “....em alguns momentos meus sentimentos se misturam, às vezes quero muito meu filho, porém renego as limitações de ser mãe”. Outra de 24 anos dizia: “...aceito o inevitável, porém preferiria que fosse diferente, tenho medo de ficar muito presa e de que isto afete a relação com meu marido”.


O segundo trimestre


Ao passar esta fase de impacto emocional, a mulher se encontra próxima do segundo trimestre. Esta fase pode considerar-se um poco mais estável do ponto de vista emocional. A mulher pode sentir o “prazer de gestar uma nova vida”, porém os conflitos emocionais continuam presentes.


Os acontecimientos centrais desta fase são as modificações corporais e o início dos movimentos fetais. Nesta fase a gravidez é evidente, o ventre se arredonda, os seios aumentam, as modificações corporais são visíveis. Efetivamente seu corpo não é o mesmo. A mulher pode sentir orgulho pelo corpo grávido, como pode ter a sensação de deformação, devido à transformações do esquema corporal. O medo e a  angústia frente às modificações corporais estão associados ao significado simbólico de sentir-se modificada como pessoa pela experiência da maternidade e também de não poder recuperar mais sua antiga forma. Muitas vezes a imagem que a mulher tem de seu corpo não corresponde à forma real. Nós trabalhamos com dinâmicas que favoreçam a expressão do sentimento sobre o gravidez. Esses desenhos surgeram de uma atividade. Podemos ver nos desenhos que, às vezes, se imaginam com um corpo grande e um feto pequeno, ou então se vê o feto sem o corpo da mãe. Esto desenhos podem nos dar uma idéia de como se sentem com relação a seu próprio corpo.


Por sau vez, o companheiro pode sentir-se incomodado com as modificações físicas de sua mulher. Pode sentir-se incapaz de experimentar desejo sexual, ou até pensar (dizer) que está feia ou pouco atraente. Não todos os homens reagem desta maneira, porém são atitudes que as mulheres identificam com bastante frequência.


As vivências emocionais sobre o mudança do corpo podem levar a modificações nas relações do casal. Para algumas mulheres ou homens a libido sexual diminue, gerando sentimentos de insegurança, fantasias sobre a relação, ou dando motivos ou possibilidade de busca por parte do companheiro de uma relação extra-conjugal. Por outro lado, o aumento de libido sexual também pode ocorrer. Algumas mulheres se sentem mais estimuladas sexualmente, mais bonitas, sem ter que se preocupar com a anticoncepção.


Outro fator importante nesta fase é o início dos movimentos fetais. É a primeira vez que a mulher sente o feto como uma realidade concreta dentro de si, como um ser separado dela e, ao mesmo tempo, totalmente dependente. O futuro pai pode acompanhar e sentir os movimentos fetais no ventre da mulher, comunicando-se com o feto por um processo semelhante ao sentido por sua companheira. Porém, não tudo são flores, o seja, vivido de forma tranquila. Alguns  homens podem sentir-se deixados de lado quando a mulher fica muito absorta com seu bebê, passando a ser o terceiro da relação. Essa situação pode desencadeanar conflitos psíquicos que, muitas vezes, se associam à experiência infantis das crianças frente ao casal “parental”, ou seja, como o futuro pai e futura mãe se sentiam quando seus pais estavam juntos e ele ou ela ficava como o terceiro na relação. Esses conflitos, quando não bem elaborados podem dificultar a interrelação do casal, do futuro pai com la futura mãe e o bebê, e  interferir na dinámica da vida conjugal.


O terceiro trimestre


No terceiro trimestre volta a aumentar o nível de ansiedade pela proximidade do parto. Desde o sétimo mês pode produzir-se a denominada “versão interna espontânea”, que leva o feto a colocar a cabeça no canal interno do parto. A percepção dessas contrações uterinas e de movimentos fetais podem provocar crises de ansiedade totalmente inconscientes que se traduzem, muitas vezes, em manifestações psíquicas e somáticas.


O profissional que  acompanha a mulher pode pressentir essas manifestações quando a mulher começa a manifestar hipertensão passageira, lipotimias, gripes agudas, etc. Quando esses eventos não têm relação alguma com patologias associadas, podem ser traduzidos simplemente como uma expressão “psicosomática”.


Os sentimentos, muitas vezes, são contraditórios: o desejo de ter o filho, terminar a gravidez, e, simultâneamente, o desejo de prolongar-la para pospor as mudanças das novas adaptações.


É interessante apontar que estes temas têm um carácter de alta conexão com o medo das dores das contrações uterinas do trabalho de parto, ou o medo de morrer no parto, de não ter leite suficiente, de ficar presa a essa situação. La associação com temas negativos, pode estar relacionada com vivências traumáticas do próprio nascimento, como sugerem alguns autores da área da Psicologia.


Porém, ao tentar esclarecer o sentimento de medo de morrer no parto, temos que considerar, além das vivências emocionais, o próprio medo ancestral, apoiado na realidade que se modificou fazem apenas alguns anos com la chegada dos avanços da medicina, como as transfusões sanguíneas, os antibióticos, as ecografias e os exame de alto tecnologia, etc. Não podemos esquecer que, infelizmente, existe todavia uma prevalência de morte por falta de devidos cuidados.


É importante recordar que o pai, também, vive seu período de ansiedade pelo sentimento de responsabilidade, pelo temor que sua esposa morra no parto, pela ansiedade que ela sente e pelo ambiente que os rodea.


Em um trabalho já publicado pelo nosso grupo em 1994, sobre a avaliação do casal grávido, encontramos que quando o pai não participa ou é indiferente com respeito à gravidez de sua mulher, encontramos que neste grupo, as mulheres tiveram menor incidência de partos naturais ou em posição de cócoras. As diferenças foram significativas e sugerem que a não participação do pai na gravidez e no parto alimentam na mulher o fracaso do parto natural. A inversa também é válida. Estes dados reforçam a idéia de aconselhar e estimular uma participação mais ativa do companheiro, em todo o processo de gravidez, viver as experiências emocionais e acompanhar o trabalho de parto e parto.


Observações clínicas têm demonstrado que as relações sexuais neste período, quando não há contraindicação médica, são beneficiosas por vários motivos, entre eles: a) mantêm a harmonía conjugal, permitindo momentâneamente tranquilizar suas necessidades e sua ansiedade, e, b) contribuyen a dar flexibilidade e elasticidade aos músculos do períneo tão necessários durante o parto.


O parto


O trabalho de parto é um momento de transição importante. A mulher e seu companheiro, generalmente, estão muito sensíveis. É importante ter um ambiente acolhedor, que favoreça a interação do casal e que também ofereça os meios para a mulher passar o período das contrações uterinas o mais confortável possível.


Em contraste com la gestação, que transcorre durante 9 meses, o parto é abrupto. Introduz rapidamente modificações intensas. A diversidade de  comportamentos no transcurso do nascimento é infinita. Cada mulher chega para dar à luz em um estado psíquico e emocional muito particular, e este deve ser ponderado para facilitar um desempenho psíco-emotivo harmónico.


O parto é momento privilegiado no qual se tem acceso à vida. Um espaço transitório, onde forças antagônicas de vida e morte estão muito próximas. Não necessariamente a morte como finalização da vida, ma a morte simbolizando o final de um processo. É um momento especial na vida, pois simboliza um ritual de passagem onde ocorrem intensas transformações físicas e psíquicas. O homem também vivência esse momento de transição, depois do parto serão definitivamente pais.


Em alguns lugares, como por exemplo onde nós trabalhamos no Brasil, os companheiros das mulheres estão dentro da sala de partos acompanhando e participando de todo o processo; não só do parto, como de todo o transcurso da gravidez.


O parto deve ser considerado como um processo psicossomático, cujas características  são determinadas por numerosas facetas do contexto social e da individualidade física e psicológica da parturiente, de seu companheiro e de seu filho.


Devido a que o parto é vivido como um processo de separação, é muito  importante que se propicie o contato do bebê com sua mãe precozmente, para que ambos possam “recuperar-se” das vivências emocionais desencadenadas pelo trabalho de parto e parto.


O Fetoambiente


Em todo este processo não podemos esquecer-nos do feto. Antes de nascer, já possue a crianaç um lugar neste mundo, esse lugar foi construído pelo desejos dos pais, pelas imagens  sobre ela, pela herança genética e psíquica, que é transmitida ao longo das generações.


Todos esses fatores fazem parte dos acontecimentos essenciais de sua história.


Investigações atuais sobre o psiquismo fetal demonstram que as habilidades apresentadas pelos recém-nascidos, começam a desenvolver-se antes de nascer. Cada história de gravidez e parto se relaciona com comportamentos que continuam sendo observados no período pós-natal. Estas investigações demonstram que, durante o processo gestacional, existe uma comunicação consciente e inconsciente entre a mãe e o feto.


Essas comunicações favorecem o vínculo, positivo ou não, dependendo da qualidade e da intensidade dessa interação. O meio ambiente, como já foi assinalado, também pode afetar o intercâmbio psicológico entre mãe e feto.


Existem algumas evidências de que o estresse contínuo da mãe, como, por exemplo, o sentimento de medo, pode modificar o desenvolvimento do feto, porém são dados ainda controvertidos.


Este campo ainda relativamente novo conta com muitas investigações já realizadas. Há todavia muito que fazer ainda. Consideramos que é importante considerar o feto como o terceiro membro que participa do  processo da gravidez e parto de forma ativa, e que é muito grande sua influência sobre os mesmos, ainda que seja através de sua mãe.


O quarto trimestre


Considerado também como o pós-parto. O puerpério, assim como a gravidez, é um período bastante vulnerável à existência de crises psicológicas, devido às profundas modificações intra e interperssoais desencadeadas pelo parto. Por isto, alguns o consideram como o quarto trimestre do gravidez. Este é um período de transição, particularmente mais evidente com o primeiro filho.

 

Algumas mulheres passan por um período chamado de “blue puerperal” ou leve depressão. O nome “blue puerperal” faz uma associação com as canções cantadas pelos negros Americanos em seus “blues”. Os negros saíram da África para ir à América, perderam sua terra natal. O pós-parto é denominado de blue puerperal pois com a mulher acontece algo semelhante, ela “perde” sua terra natal, o lugar conhecido de filha, perde a “irresponsabilidade da infância para tornar-se mãe d,ando continuidade ao ciclo da vida. Por isso esse termo presta o nome à tristeza que pode sentir a nova mãe nas primeiras semanas de vida de seu pós-parto ou puerpério.


Uma  das principais adaptações que ocorrem no pós-parto é acomodar psíquicamente as vivências emocionais do parto e adaptar-se às modificações do lar, passando de ser filha a ser mãe. Os primeiros días depois do parto estão carregados de intensas emoções, euforia, estados depressivos que se alteram rapidamente. Estes últimos podem alcançar grande intensidade e também podem aparecer de forma mascarada, como melancolia, tristeza, ou comportamentos obsessivos, maníacos ou persecutórios. As alterações denominadas de “blues”, também se devem à modificações bioquímicas e à instabilidade dos níveis hormonais.


Outro aspecto importante é que, para a mãe, a realidade do feto no útero, não é a mesma da realidade do recém-nascido fora dele. Para algumas mulheres é difícil fazer essa transição, principalmente se elas esperam um bebê diferente, tranquilo, que chore pouco e que não necessite tanta atenção dela. Negando anticipadamente a realidade de uma criança, recém-nascido, além disto pode sentir-se assustada ou confusa ou ambas, com a responsabilidade imediata de cuidados  maternos.


A relação mãe-bebê deve ser vista como um sistema circular em constante fluxo dinâmico; o meio ambiente que circunda essa relação contribui para dar qualidade à relação de ambos (mãe-filho) ou não.


Esse período de adaptações deve durar aproximadamente três meses nos casos normais, as principais alterações são sentidas no primeiro mês e gradualmente com o passar do tempo, se tornam mais suaves. A prevenção desse período deve começar cedo completando-se no pós-parto.


Sabendo da importancia que têm os fatores abordados na vida de um matrimônio e na formação de uma família, é importante o trabalho com casais grávidas acompanhando-os nesse processo de transição e transformação psíquica até ser pais e constituir uma família, célula da sociedade.


O grupo de Parto Alternativo no Brasil, desde o ano 1981 instituído na de Universidade (UNICAMP), tem como objetivo enfocar este processo de forma respetuosa, escutando mais ao casal e atendendo um pouco menos os protocolos hospitalares, respetando os processos fisiológicos completos e complexos, abordando aspectos psíquicos e físicos deste período, de forma multidisciplinar com psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, obstetras, anestesistas, parteiras, ou seja com os vários profissionales que estão envolvidos neste período. Consideramos também os aspectos sócio-culturales do casal, assim como incentivamos a participação ativa das mulheres e seus companheiros no processo de nascimento de seu filho.


Por último, buscamos também atuar avançando nos paradigmas da complementariedade, pois assim tenemos mais possibilidades de trabalhar, o processo do nascimento com as noções necessárias que envolvem este fenômeno que pode ser considerado ao mesmo tempo natural e cultural, físico e psíquico.


Termino com a frase de Sheila Kitzinger que diz que “a maternidade e a paternidade são momentos únicos no ciclo vital capazes de oferecer à mulher e o homem oportunidades de alcançar outros níveis de interação e crescimento”.

 

* O termo parentalidade, neste caso, é empregado para definir as vicissitudes psíquicas desencadeadas pelo de se tornar genitor.

 

Silvia N. Cordeiro é psicóloga e integra a equipe do Grupo de Parto Alternativo da UNICAMP.

Email de contato: silvianc2000@hotmail.com

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