OS CONFLITOS ENTRE MÃE E FETO

April 29, 2019

As relações entre mãe e feto representam as mais íntimas das relações humanas. Elas não se fazem somente por intermédio das funções sensoriais. Elas se fazem, acima de tudo, pela troca eminentemente vital que nós podemos qualificar de nutricional. Direta ou indiretamente, as necessidades nutricionais do feto têm por origern o sangue da mãe e dejetos de origem fetal que retornam em direção ao organismo materno. Sublinhemos imediatamente que todas as condições estão, a priori, reunidas de forma para que situações de conflito apareçam. Realmente o feto não tem somente genes de origem materna. Ele tem também genes de origem paterna. Em outras palavras, tudo acontece como se o bebê e a mãe, em certas circunstâncias, pudessem ter divergências de interesses, mesmo que eles tenham também numerosos interesses em comum. 

A metafora de "portadores de ações em bolsa", proposta por David Haig', e útil para compreender a natureza dos possíveis conflitos: dois portadores de ações podem ter numerosos interesses em comum, como também interesses divergentes. É como se, no decorrer da evolução, os genes fetais tivessem sido selecionados para aumentar a transferência de substâncias nutritivas, enquanto que os genes maternos foram selecionados para estabelecer limites a essas transferências.


O Advogado do Bebê


Dentro da medida em que a harmonia de interesses entre mãe e o bebê não está completa, concebemos que o bebê precisa de uma espécie de advogado para exprimir suas necessidades. Esse advogado é a placenta. Um dos papéis da placenta é manipular constantemente a fisiologia materna para o benéficio do feto. A placenta "fala" ao organismo da mãe por meio de hormônios (como "'HCG", Hormônio Lactogenico Placentário, etc).


Um Exemplo


Um exemplo suficiênte para demonstrar que essa função da placenta é normalmente mal conhecida:


Durante toda a gravidez, a placenta “pede” à mãe para diluir seu sangue e assim torná-lo mais fluído. Isso acarreta um aumento do volume sanguíneo que pode alcançar cerca de 40%. Isso explica que, assim que medimos, no sangue de uma mulher grávida, a concentração de uma substância tal como a hemoglobina (o pigmento dos glóbulos vermelhos), nós estimamos, antes de tudo, o processo de diluição, quer dizer, a atividade da placenta. É consideravalmente previsível que essa concentração, que atinge a ordem de 12 a 13 (g/d) fora da gravidez, baixará na mulher grávida em função do grau da diluiçção do sangue. Uma enorme pesquisa britânica dispõe de arquivos relativos ao nascimento de mais de 150.000 bebês, com objetivo de estimar as taxas ideais de hemoglobina durante a gravidez (2). A principal conclusão é que uma taxa na ordem de 9.5 vai de encontro a um bom prognóstico. Quando o organismo materno responde mal à necessidade do feto e da placenta e não chega a baixar a taxa de hemoglobina a um nível inferior a 10.5, é um sinal de situação conflituosa. Riscos de prematuridade, de baixo peso no nascimento e de confições patológicas tais como a rpé-eclâmpsia, são aumentados. Outros estudos epidemio-lógicos chegaram a conclusões semelhantes (3,4).


Mesmo que tais dados tivessem sido publicados em jornais de abrangência internacional, em todos os lugares do mundo, milhões de mulheres foram declaradas anêmicas e receberam prescrições de ferro, mesmo que os testes específios para descobrir carência de ferro e anemias não tenham sido solicitados. A incapacidade de interpretar os resultados de um testo tão difundido sobre a taxa de hemoglobina nas mulheres grávidas é um fenômeno perturbador porque é quase universal. Contaram-me a história de uma japonesa, que passou a primeira metade de sua gravidez em Londres, antes de retornar a Tóquio. Uma de suas amigas européias, mãe de quatro filhos, havia lhe advertido muito tempo antes, que no fim da gravidez lhe indicariam que ela estaria anêmica e lhe dariam ferro. O fim da história, que se passou do outro lado do mundo, é fácil de advinhar. O fenômeno não repercutiu somente de um ponto de vista geográfico. Ele se difunde em qualquer meio médico considerado. Uma equipe renomada de epidemiologistas especializados no período que cerca o nascimento publicou, num jornal médico de prestígio, uma pesquisa sobre essa fase do parto que vai do nascimento do bebê à liberação da placenta. A fim de limitar seu estudo à gravidez de baixo risco, os pesquisadores eliminaram todas as mulheres das quais as taxas de hemoglobina eram inferiores a 10 (5). Finalmente a taxa média na população estudada era 11.1. na oportunidade, me foi solicitado remaracar os pontos fracos desse estudo (6).


Tal fenômeno, de abrangência mundial, é preocupante para aqueles que compreenderam que um dos primeiros papéis dos profissionais de saúde deveria ser proteger o estado emocional da mulher grávida. Mais precisamente, deveria ser evitar o efeito "nocebo" que pode ocorrer nas consultas pré-natais. Haverá o efeito "nocebo" toda vez que profissionais de saúde fizerem mais mal do que bem, em relação ao sistema de crença, imaginação e, portanto, o estado emocional (7). Ora, dizer a uma futura mãe em perfeita saúde que ela precisa de uma prescrição de ferro para corrigir desequilíbrios em seu organismo é alterar seu estado emocional. Tal fenômeno é também preocupante para aqueles que sabem que o ferro inibe a absorção de zinco, um mineral essencial para o crescimento do feto (um mineral não deveria ser prescrito isoladamente, mas sempre em associação com outros). Uma falta de interesse pela fisiologia da placenta é responsável pela situação atual. Os médicos, ao invés de ficarem obcecados pelo diagnóstico de anemia, deveriarn se aterem às situações conflituosas descobertas por uma taxa de hemoglobina que não consegue baixar. Poucos médicos visualizam a espetacular diluição da massa sanguínea das mulheres grávidas. Isso conduz a maioria dentre eles a não prestarem atenção aos estudos, cujos resultados afetariam suas imagens mentais.


A falta de interesse pela fisiologia da placenta tem raízes fundas. Na França, o psicanalista Bernard This, depois de longo tempo, compreendeu as implicações do "esquecimento da placenta", quer dizer, do "mito da fusão" entre mãe e feto8. 0 mito dessa fusão é incompatível com a noção de conflito entre mãe e feto. 0 esquecimento da placenta é indissociável da socialização do nascimento, com suas crenças e seus ritos que interferern nos processos fisiológicos. Quando, no âmbito cultural, as mulheres não colocam no mundo seus bebês, mas "são paridas" por uma pessoa que se apressa em cortar o cordão, a placenta é esquecida.


Outros Exemplos


A placenta não só determina que o sangue da mãe seja mais diluído. Ela pode também reconhecer que o bebê em desenvolvimento tem necessidade de mais açúcar. Em outras palavras, cabe ao organismo materno modificar seu metabolismo de hidrato de carbono. Excepcionalmente, o conflito pode resultar numa verdadeira enfermidade. A necessidade do bebê ultrapassa os limites do que permitiria a mãe de enfrentar a situação sem se desequilibrar. Então, pode se estabelecer um autêntico "diabete gestacional", com riscos de complicações tais como um excesso do líquido amniótico ou uma infecção da cavidade amniótica.


Na imensa maioria de casos, a resposta do organismo materno  tem a necessidade da placenta não ultrapassar o quadro das reações fisiológicas. O organismo materno controla a situação. É necessário dar artificialmente à mãe um excesso de açúcar para descobrir um aumento incomum das taxas de glicose sanguínea (é o que os médicos chamam de hiperglicemia provocada). Como não se trata de doença, as únicas recomendações práticas são açúcares puros (bebidas açucaradas, bombons, etc.), de preferir os hidratos de carbono complexos (massas, pão, arroz, etc.) e também de atividade física regular. Salientemos que não é necessário testes complicados para chegar a tais recomendações, que são úteis para todas as mulheres grávidas. Infelizmente, numerosos profissionais de saúde não hesitam em utilizar o termo "diabete gestacional" a propósito daquilo que é apenas um sinal de atividade placentária. Muitas das mulheres grávidas gravam apenas "diabete" e confundem seu estado com uma enfermidade crônica séria. Trata-se novamente de um exemplo frequente de "efeito nocebo" das consultas pré-natais. Nós podemos dizer que o "diabete gestacional" é um "diagnóstico em busca de uma doença". O Professor Jarrett, de Londres, disse que é uma "não-entidade"9. Uma enorme pesquisa, no âmbito da população revelou que os recursos sistemáticos dos testes destinados a descobrir "diabetes gestacionais" não aliviam de nenhuma forma as estatísticas da enfermidade 10 e, portanto, não têm nenhuma razão de ser.


Aqui, ainda há uma discordância entre os dados publicados na literatura médica e as práticas diárias. Aqui ainda, essa discordância tem por origem profunda uma negligência, quase cultural, para as funções da placenta.


É muito frequente que a placenta solicite simplesmente à mãe mais sangue. Então, o organismo materno aumenta sua pressão arterial. Os resultados de toda uma série de estudos são convergentes, e confirmam que um aumento isolado da pressão arterial na gravidez vai de encontro às boas estatísticas (11,12,13,14). Infelizmente, muitos médicos apresentam o simples aumento da pressão arterial durante a gravidez como uma notícia ruim. Eles consideram isso como uma enfermidade e de que é preciso tratá-¬la. Uma revisão de 45 estudos publicados revelou que os únicos efeitos de um tratamento anti-hipertensivo durante a gravidez era inibir o crescimento do feto e aumentar o número de bebês de baixo peso (15). Os médicos que se interessam pela fisiologia da placenta estão em condições de prever o perigo de tais tratamentos. Ainda aqui, o único fato que nos faz pensar em prescrever tais medicamentos a mulheres grávidas confirma que é habitual confundir um sinal de atividade da placenta com a expressão de um conflito materno-¬fetal não controlado. Muitos confundem a hipertensão isolada da gravidez, sem perturbações metabólicas associadas, com esta enfermidade que é a pré-eclâmpsia.¬


Pré-Eclâmpsia


Com a pré-eclâmpsia nós estamos indiscutivelmente no domínio dos conflitos mãe-feto não controlados, quer dizer, no domínio da patologia. Recordemos que a pré-eclâmpsia é uma enfermidade do fim da gravidez (normalmente do fim da primeira gravidez). É uma enfermidade que põe em jogo a vida do bebê e da mãe. Uma das primeiras razões da existência das consultas pré-natais era tentar fazer o diagnóstico precoce deste quadro. De acordo com as mais frequentes definições de diagnótico da pré-eclâmpsia é necessário, pelo menos, a associação de uma hipertensão e a presença na urina de, no mínimo, 300 mg de proteínas por 24 horas. Habitualmente, pode se descobrir outros distúrbios metabólicos, tais como uma taxa elevada de ácido úrico no sangue, uma taxa baixa de plaquetas sanguíneas e outros aspectos do "HELLP síndrome". Quando há convulsões, a enfermidade é chamada de "eclâmpsia". O termo "toxemia" - que inclui pré-eclâmpsia e eclâmpsia - não é mais usado hoje em dia.


A pré-eclâmpsia é uma enfermidade misteriosa que inspirou numerosas teorias. Tudo se esclarece quando nós a apresentamos como a expressão de um conflito entre a mãe e o feto e quando tomamos como ponto de partida uma comparação com aquilo que pode complicar a gravidez em outras espécies de mamíferos. Veterinários usam a palavra “eclâmpsia” a propósito de uma enfermidade grave observada em diferentes espécies, tal como a espécie canina. A história típica é de uma pequena cadela trazendo um grande filhote. No fim da gravidez e no ínicio da lactação, a cadela torna-se agitada e nervosa. Ela apresenta dificuldade em caminhar e suas patas tornam-se rígidas. Na ausência de tratamento, a morte pode acontecer depois de uma fase de convulsões. Para os veterinarios, não há nenhuma dúvida de que se trata das consequências de um conflito entre a mãe e os bebês. O organismo de certas cadelas não pode atender à grande solicitação de substâncias nutritivas, particularmente do cálcio. Essa interpretação é confirmada pelo efeito espetacular de uma injeção intravenosa de cálcio. Convém ressaltar que, dentre os cachorros, a prioridade no fim da gravidez e no inicio do aleitamemento é alimentar os ossos, que são bem mais maduros no nascimento que entre os humanos. Não é surpreendente que, nessa espécie, o que nós chamamos de eclâmpsia é acima de tudo a consequência de uma falta de cálcio no sangue. É um "tétano puerperal".


Entre os humanos, a prioridade não a nutrir os ossos do feto. A prioridade é bem maior: nutrir o cérebro em desenvolvimento. O crescimento espetacular do cérebro durante a segunda metade da vida fetal é uma característica humana. Não esqueçamos que, no nascimento, o cérebro humano já alcançou um quarto do seu tamanho adulto, enquanto que o conjunto do corpo alcançou apenas um vigésimo. Nós podemos concluir que, na nossa espécie, há um conflito entre as necessidades fetais e o que a mãe pode fazer sem desequilibrar seu organismo, é preciso levar em consideração as necessidades do cérebro em desenvolvimento.


Hoje, as necessidades específicas do cérebro em desenvolvimento são bem compreendidas. 0 cérebro é, em grande parte, composto por gordura. Isso significa que as necessidades nutricionais devam, a priori, se exprimir sobretudo em termos de ácidos graxos. Nós podemos introduzir apenas alguns detalhes compreensíveis para aqueles que têm um bom conhecimento da bioquímica dos lipídios. Digamos simplesmente que o cérebro em desenvolvimento está ávido de ácidos graxos, polissaturados de longa cadeia das famílias ômega 6 e ômega 3. Mais precisamente, pelo menos 50% das molécuilas de ácidos graxos que se inserem no cérebro são representadas por uma só molécula, que habitualmente nós chamamos para simplificar de DHA (eu  escrevi um livro (16) para aqueles que, sem o conhecimento da bioquímica, têm desejo de se familiarizar com algumas palavras chaves). DHA é um ácido graxo com cadeia muito longa (22 carbonos), polissaturados (6 duplas ligações), pertencentes à família do ômega 3. Podemos presumir então que, entre os humanos, quando a mãe não pode atender às necessidades crescentes de DHA, uma situação típica de conflito é criada. Para que as necessidades nutricionais do cérebro em desenvolvimento sejam satisfeitas, o preço a pagar é um desequilíbrio no organismo materno. Sublinhemos imediatamente que o DHA (e os outros ácidos graxos ômega 3 com cadeia longa) são abundantes e aparecem na cadeia alimentar marinha. Na cadeia alimentar terrestre, existe uma molécula relacionada que o organismo materno deve transformar.


Nossa abordagem, inspirada por comparações entre espécies, conduz a se estabelecer uma hierarquia entre numerosos desequilíbrios biológicos que foram descritos durante o período das pré-eclâmpsias humanas. A primeira face consiste em comparar o "estatuto" de ácidos graxos da mãe, no caso de uma gravidez normal e no caso de uma gravidez com pré-eclâmpsia. A atenção deve se dirigir, em particular, aos ácidos graxos polissaturados de cadeia longa da família ômega 3. É significativo que, qualquer coisa que aconteça, até mesmo no caso da pré-eclâmpsia, a taxa de DHA - a molécula essencial para o desenvolvimento do cérebro fetal - permanece relativamente estável 17. Essa estabilidade aparente confirma que, dentre os humanos, o desenvolvimento do cérebro é uma prioridade. Ela se faz ao preço de uma série de desequilíbrios que caracterizam a enfermidade da pré-eclâmpsia e que é fácil de se analisar com a interpretação bioquímica. A pré-eclâmpsia representa o tipo de situação conflituosa não controlada pelas simples respostas fisiológicas.


Nossa interpretação e confirmada pelo fato de que uma alimentação rica em ácidos graxos omega 3 reduz os riscos de pre-eclâmpsia. Analisando a composição dos ácidos graxos dos globulos vermelhos, e posslvel determinar a natureza dos lipldios consumidos durante os tres meses precedentes. Uma pesquisa utilizando esse metodo claramente demonstrou o efeito protetor de uma alimentação rica em omega 3.18  Isso esta de acordo com as enormes variações geograficas da enfermidade.


Toda visão teorica da pré-eclâmpsia deve ser confrontada com os aspectos mais misteriosos da doença. Assim, é necessário se dar conta do fato que se trata normalmente de uma doença do fim da primeira gravidez. Ora, foi demonstrado que o metabolismo de ácidos graxos omega 3 depende do número de bebês que a mãe teve anteriormente 19,20. O conteúdo do sangue do cordão em DHA depende da ordem de nascimento. É como se o desenvolvimento cerebral fosse uma prioridade mais significativa e mais incondicional no caso do primeiro bebê. E fácil de interpretar o fato de que uma gravidez de gêmeos aumenta os riscos: o pedido de substâncias nutritivas é o dobro, e em particular o pedido de DHA. A possível associação da "mola hidatiforme" e da pré-eclâmpsia reforça a teoria do conflito genético. No caso de uma mola, ha dois genômas paternos sem genômas maternos. A mola vai de encontro com as taxas elevadas de hormônios placentários HCG. Isso sugere que é desse hormônio que a placenta manipula a fisiologia materna para manter disponíveis as quantidades suficientes de DHA.


Os resultados de uma longa pesquisa canadense foram apresentados como inesperados e de dificil interpretação. Para muitos, eles contribuem para tornar a doença ainda mais misteriosa. É bem conhecido que as mulheres com eclâmpsia tenham riscos maiores de dar à luz bebês de baixo peso. Segundo essa pesquisa, elas têm também maiores riscos de darem à luz bebês grandes. Os autores estudaram arquivos de aproximadamente 100.000 nascimentos que aconteceram em 35 hospitals de Alberta21. Depois de considerarem múltiplos fatores, eles chegaram à conclusão de que os bebês de pesos elevados são duas vezes mais numerosos nas mulheres com pré-eclâmpsia do remanescente da população. Tais resultados são dificeis de interpretar no contexto teórico atual. Partindo da noção do conflito mãe-feto, ao contráio, é fácil entender que, para um bebê de peso elevado, o pedido de substâncias nutritivas é grande e torna o conflito mais severo.


Nossa forma de compreender a pré-eclâmpsia permite também esta ligações entre as diferentes formas conhecidas de reduzir os riscos. Bem entendido, o consumo de peixes de água salgada pode ser considerado como um modo preventivo. Taxas de pré-eclâmpsia são relativamente baixas em países como Japão ou Noruega. Em 1991-1992, em um hospital londrino entrevistei, aleatoriamente, 500 mulheres grávidas e as encorajei a aumentarem seu consumo de peixes do mar. A comparação foi feita com um grupo controle de 500 mulheres com quem eu não tive esses encontros22. Não houve pré-eclâmpsia e nem eclâmpsia entre as mulheres que eu havia entrevistado, contra duas pré-eclâmpsias e uma eclâmpsia no outro Eu sinalizo esse estudo sabendo que seria necessário grupos mais numerosos para chegarmos a conclusões definitivas.


Colocando de lado o consumo de peixes do mar, os riscos parecem se reduzir com ingestões importantes de magnésio (os efeitos preventivos e curativos do sulfato de magnésio são bem conhecidos) 23, cálcio 24 e zinco. Porém, esses minerais são catalisadores que ajudam o organismo materno a fabricar o DHA se a ingestão alimentar e insuficiente. Riscos são também reduzidos com ingestões suficientes de substâncias anti- oxidantes tais como as vitaminas C e E, os carotenos (que dão cores nos legumes e frutas) e o selenio 27. Porém, as moleculas de ácidos graxos têm uma longa cadeia o DHA, são frageis e podem ser facilmente destruídas através de processos

oxidativos.


Nosso modo de entender a pré-eclâmpsia permite também estabelecer ligações entre certos fatores que aumentam os riscos. Os riscos são aumentados no consumo de ácidos graxos "trans" 28, moleculas abundantes nos óleos refinados, nas margarinas convencionais e, normalmente, nos bolos, biscoitos, frituras, "fast foods", etc. Os riscos são também aumentados no consumo de açúcar e de álcool. Eles também aumentam em situações onde ansiedade e depressão 29 são predominantes. Porém, os ácidos graxos "trans", açúcar puro, álcool e hormônios como o cortisol, são agentes que bloqueiam o metabolismo dos ácidos graxos que tendem a prejudicar a sintese de moleculas tais como a DHA.


Os Conflitos Feto-Maternais Não Controlados: um Conceito Necessário.


Essa visão teórica nos conduziu a apresentar a pré-eclâmpsia como "a  enfermidade humana primária" 30, como o preço que tem de se pagar por terem desenvolvido o enorme cerebro que caracteriza nossa espécie. Essa enfermidade seria melhor compreendida se chegassemos a nos libertar das fronteiras incômodas entre os diferentes aspectos do conflito feto-maternal não controlados que são: pré-eclâmpsia, sindrome HELLP, autêntica diabétes gestacional e falta de diluição da massa sanguinea, revelados por taxas de hemoglobina que permanecem elevadas. Assim, a diabete gestacional é acompanhada por uma perturbação do metabolismo de ácidos graxos de cadeias longas e uma taxa de hemoglobina elevada é um fator de risco para a pré-eclâmpsia, etc.


Vários grupos de fatores podem precipitar em direrção ao conflito não controlado. Pode estar aí a origem do defeito da implantação da placenta. Isso é bem aceito no que concerne a gênese das pré-eclâmpsias 31.0 fato de urn antecedente de aborto32, um antecedente de transfusão sanguinea33 ou uma longa vida sexual antes da concepção34, reduzirern os riscos de pré¬eclâmpsia confirma a importancia provavel que os fatores imunológicos têm nessa fase. O conflito pode ser também favorecido por um pedido muito grande de substâncias nutritivas (os gêmeos, os bebês grandes, etc.): as teorias atuais, que tomam como ponto de partida a insuficiência placentaria, não podern explicar a associação bebê grande - pré-eclâmpsia. O conflito também pode ser desencadeado devido ao fato de a mãe não dispor de uma quantidade suficiente de substâncias nutritivas, decorrente de seu estado emocional ou de sua alimentação.


Parece cada vez mais provável que o Homo Sapiens foi originalmente umm primata adaptado à vida nos estuários ou nas costas, lá onde se dispõe, sem restrições, de alimentos favoráveis ao desenvolvimento de um cérebro volumoso. A expressão "conflitos feto-maternais" oferece uma perspectiva para estudar a natureza humana.


Resumo


Os diferentes aspectos da "cientificação do amor" salientam a importância dos primeiros contatos entre a mãe e o recém-nascido. Uma alusão às razões de ser e à realidade dos conflitos mãe-feto dá um significado novo a esse período crítica que segue o nascimento.


Referências


1.    Haig D. Genetic conflicts in human pregnancy. The Quarterly ofBiology 1993; 68 (4); 495-531.

2.    Steer P, Alam MA, Wadsworth J, Welch A. Relation between mahaemoglobin concentration and birth weight in different ethnic groups. BMJ 1995; 310:489-91.

3.    Koller 0, Sandvei R, Sagen N. High hemoglobin levels during pregnancy and fetal risk. IntJ Gynaecol Obstet 1980; 18:53-56.

4.    Garn SM, et al. Maternal hematologic levels and pregnancy outco Semin Perinatol 1981; 5:155-62.

5.    Rogers J, Wood J, et al. Active versus expectant management of stage of labour: the Hinchingbrooke randomised controlled trial. Lancet 1998; 351:693-99.

6.    Odent M. Active versus expectant management of third stage of labour. Lancet 1998; 351: 1659.

7.    Odent M. The Nocebo effect of prenatal care. Primal Health R Newsletter. Spring 1995. Vol 2 No 4.

8.    This B. Le sacrifice du placenta. In: Naitre...et sourire. p 182-20 This B. Aubier Montaigne. Paris 1977.

9.    Jarrett RJ. Gestational diabetes: a non-entity? BMJ 1993; n306: 3

10.    Wen SW, Liu S, Kramer MS, et al. Impact of prenatal glucose screening on the diagnosis of gestational diabetes and on pregnan outcomes. Am JEpidemiol2000; 152(11): 1009-14.

11.    Symonds tM. Aetiology of pré-eclâmpsia: a review f X Soc Med 1980; 73: 871-75.

12.     Naeye EM. Maternal blood pressure and fetal growth. Am j Obstet Gynecol1981; 141: 780-87.

13.    Kilpatrick S. Unlike pré-eclâmpsia, gestational hypertension is not associated with increased neonatal and maternal morbidity except abruptio. SPO abstracts. Am j Obstet Gynecol 1995; 419: 376.

14.    Curtis S, et al. Pregnancy effects of non-proteinuric gestational hypertension. SPO Abstracts. Am j Obstet Gynecol 1995; 418: 376.

15.    Von Dadelszen P, Ornstein MP, et al. Fall in mean arterial pressure and fetal growth restriction in pregnancy hypertension: a meta-analysis. Lancet 2000; 355: 87-92.

16.    Odent M. Les acides gras essentiels. Ligier. Paris 1990.

17.    Wang Y, Kay HH, Killam AP Decreased levels of polyunsaturated fatty acids in pré-eclâmpsia. Am j Obstet Gynecol 1991; 164: 812-18.

18.    Williams MA, Zingheim RW, King IB, Zebelman AM. Omega-3 fatty acids in maternal erythrocytes and risk of pré-eclâmpsia. Epidemiology 1995; 6: 232-37.

19.    Carlson E, Salem N. Essentiality of omega-3 fatty acids in growth and development in infants. In: Simopoulos AP, et al (eds): "Effects of polyunsaturated fatty acids in seafoods". World Rev Nutr Difl~- Basel, Karger 1991; 66: 74-86.

20.    Al MDM, Van Houwelingen AC, Hornstra G. Relation between birth order and the maternal and neonatal docosahexaenoic acid status. EurJ Clin Nutr 1997; 51: 548-53.

21.    Xiong X, Demianczuk NN, Buekens P, Saunders LD. Association of

preedampsia with high birth weight for age. Am J Obstet Gynecololy. 2000; 183(1): 148-55.

22.    Odent M, McMillan L, Kimmel T Prenatal care and sea fish. European Obstetric Gynecology 1996; 68 (1,2): 49-5 1.

23.    Eclâmpsia Trial Collaborative Group. Which anticonvulsivant for women in pré-eclâmpsia? Lancet 1995; 345:1455-63.

24.    Bucher HC, Guyatt CH, Cook RJ, et al. Effect of calcium supplementation on pregnancy-induced hypertension and pré¬ eclâmpsia. JAMA 1996; 275: 1113-17.

25.    Kiilhoma P, Pakarinen P, Gronroos M. Copper and zinc in pré¬ eclâmpsia. Acta Obstet Gynecol Scand 1984; 63: 629-31.


 

Extraído de:

Michel Odent

A CIENTIFICAÇÃO DO AMOR

Florianóplis, Saint Germain, 2002

Cap. 11, pp. 69-80

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags