OS SONS NA VIDA INTRAUTERINA

April 29, 2019


O feto é sensível a sons agudos e vibrações intensas, mas também sofre se a mãe está doente, exausta ou intoxicada. Quando o embrião se aninha no útero, tendo seu corpo alimentado pela mãe, como se fosse um de seus órgãos, a sensação de bem-estar é produzida pelos sentimentos de prazer e alegria que a mãe possa estar vivendo. Da mesma forma, se a mãe está triste e estressada, tais sensações podem ser comunicadas para o feto.


O meio ambiente do feto é rico em estimulação acústica proveniente do interior do corpo da mãe através do seu comer, beber, respirar, dos batimentos cardíacos, de suas vocalizações e dos ruídos ambientais atenuados. Porém, o som mais frequente que o feto ouve é o da pulsação da principal artéria abdominal e o segundo mais frequente é o da voz da mãe. A relevância da experiência auditiva pré-natal tem sido demonstrada pelos estudos conhecidos de De Casper e seus colaboradores que provaram a preferência do bebê pela voz familiar de sua mãe, o efeito tranquilizador da exposição ao som dos batimentos cardíacos da mesma após o nascimento e a preferência revelada pelo bebê para ouvir o som de histórias familiares que haviam sido lidas por sua mãe antes do nascimento.


Feijo observou as consequências da associação de um trecho musical apresentado durante doze minutos com relaxamento materno profundo. Esse mesmo trecho foi tocado em intervalos diferentes durante a gravidez. Feijo constatou que o feto respondia muito mais cedo a esta estimulação familiar e interpretou essa reação como uma antecipação do estado de conforto induzido pela estimulação materna. A vibração é o estímulo mais potente e é capaz de induzir mudanças na motilidade fetal, bem como na frequência dos batimentos cardíacos do feto, além de produzir reações aversivas. Vimos que os sons podem afetar e sensibilizar a criança desde a gestação.


Estudos recentes mostram o quanto os pensamento, as palavras, as emoções positivas ou negativas, a música relaxante ou o rock pesado podem modificar os cristais de água. Pesquisadores (Masaru Emoto, pesquisador japonês – o seu trabalho está voltado à investigação das esnergias sutis da natureza e do homem em sua relação com a consciência humana – até o momento não há publicações em português, apenas publicações secundárias) envolveram as amostras de água com papéis, nos quais escreveram a palavra “obrigado” em inglês e em japonês, os cristais resultantes foram perfeitos, belos e luminosos. Já com a palavra “estúpido”, a água não conseguiu formar cristais regulares. Quando a amostra de água ficou exposta à “Sinfonia Pastoral”, de Beethoven ou a uma canção da compositora Enya, os cristais resultantes também foram belos, perfeitos e luminosos, apesar de diferentes. Mas, quando as amostras de água ficaram expostas ao rock pesado ou ao heavy metal, as mesmas apresentaram uma “desustruturação” de seus cristais, um “turbilhão confuso” – imagens de águas poluídas, como diz um pesquisador japonês. Apesar desse estudo se limitar a fotografar os efeitos das palavras, dos sons, dos pensamentos, da música nos cristais de água, se o transportarmos para o líquido amniótico, quais seriam os resultados? Fica claro, até este momento da pesquisa, que o bom e o belo centra e organiza, enquanto o contrário, desestrutura e desorganiza.


Durante a primeira metade da vida fetal, o âmnion cresce mais rápido do que o feto e a medida que este se desenvolve vai adquirindo a sensação vital do batimento cardíaco desse pulsar rítmico que faz fluir o sangue em todo o seu corpo e cuja diminuição acarreta a sensação de falta de oxigenação, de nutrição, de temperatura e de vida. Toda alteração do rítmo cardíaco e, consequentemente, do fluxo sanguíneo através do cordão umbilical provoca estados de estresse ou de alarma fetal.


Nos últimos meses de gestação, o feto cresce e entra em contato com as membranas que o envolvem. O oceano uterino, que antes era um espaço sem fronteiras, agora é um universo limitado onde as costas do feto e o útero da mãe parecem fundidos. O bebê pela primeira vez está envolvido num abraço de carne. Portanto, desde o momento em que o embrião se liga à placenta, imerso no fluído fetal, ele está em contato com as pulsações do batimento cardíaco e com inúmeras sensações vibratórias de movimento e de fenômenos acústicos: o fluxo sanguíneo, sons da respiração, sons das ondas aquosas do líquido amniótico, sons de músicas, sons de vozes, sons que vem do atrito com as paredes uterinas, envolvendo cada vez mais o feto.


Os sons são importantes na vida intra-uterina, assim como a comunicação das vibrações emocionais e os pensamentos da mãe para o bebê. No feto, o coração começa a pulsar antes de o cérebro se formar. Os cientistas ainda não sabem o que exatamente o faz começar a pulsar. Portanto, há no feto um cérebro emocional bem antes de haver um cérebro racional. Assim, comunicar carinho, cuidado e amor faz com que o pequeno ser se sinta mais sereno e equilibrado. Segundo Verney: “ É importante mostrar que os acontecimentos têm sobre nós uma repercussão diferente nos primeiros estágios de vida. Um adulto, e num grau menor uma criança, tem sempre tempo de elaborar defesas e reações. Ele pode amenizar os efeitos do que ele experimenta, coisa de que o feto é incapaz. Nada vem atenuar ou desviar o impacto da experiência. Essa é a razão pela qual as emoções da mãe gravam-se tão profundamente na sua mente e seus efeitos continuam a se fazer sentir com tamta força ao longo da vida.”


Vimos, então, a riqueza e a importância dos sons na vida intra-uterina. A gravidez se transforma em um canal, através do qual as mães começam a se comunicar com a nova vida. É necessário trabalhar a criança desde a gestação com a boa palavra, com a bela música, com cantos que possam harmonizá-la durante o processo gestacional e conscientizar a mãe das mudanças que ocorrem em seu corpo para que ela possa escutá-lo, escutar a respiração, que é um som musical dotado de beleza, pois fala da vida. Por isso, não podemos bloqueá-la, pois deixamos de levar vida ao pequeno ser. Vida é rítmo, portanto, é importante que cuidemos da respiração, das palavras ditas, da nossa voz, das músicas que escutamos, para que o feto possa recebê-las de uma forma harmoniosa. É como se esses sons abraçassem amorosamente o bebê. O trabalho com as mulheres grávidas é algo novo. Algumas pesquisas foram realizadas, principalmente no que diz respeito a ação dos sons nos fetos, mas gostaríamos de ampliá-las. O acompanhamento das mães e dos bebês desde o início da gestação possibilita a verificação da influência dos sons – harmonia, ritmo, melodia - e da importância da voz, do canto e da fala até as crianças completarem dois anos, mesmo se tratando de crianças que nasçam surdas. Os sons sensibilizam todo o nosso corpo e nosso meio, não só os nossso ouvidos. Como afetamos o pequeno ser com a boa palavra, com a nossa verdadeira voz, com a bela música, com os sons harmoniosos? Ouvir boa música, contar histórias, falar a boa palavra são maneiras de interagirmos com o novo ser de uma forma muito mais harmoniosa e completa. As batidas do coração são como mantras para a criança, portanto trabalhar a partir da respiração o maior equilíbrio da mãe, estaremos a trabalhar o maior equlíbrio da criança no útero. Tornar a voz do pai também importante, ou seja, não só a mãe passará a energia da sua voz, mas o novo pai – que estará interagindo desde o início da gestação. Qua as palavras sejam amorosas – é a linguagem do coração!!




Maria Lúcia P.W. Bicudo, sócia fundadora da ONG Amigas do Parto (afastada desde 2008), é enfermeira, fonoaudióloga e sociológa. O presente artigo faz parte de sua dissertação de Mestrado defendida em Maio de 2005, com o título: “A importância do som, da palavra e da voz na harmonização do ser e sua religação com o sagrado. Por uma nova releitura da Fonoaudiologia”, publicada em Setembro de 2005: “A importância do som, da palavra e da voz na harmonização do ser”. São Paulo, Ed. Altana. E-mail: mluciabicudo@uol.com.br.


BIBLIOGRAFIA


1. A.J.Decasper; W.P. Fifer. Of human bonding. Pp1174-1176.

2. J. Feijo. Le fetus, pp.192-209.

3. Thomas Verny. A vida secreta da criança antes de nascer, p.13.

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