O PAPEL DA DOULA PÓS-PARTO NA REDE DE APOIO

O pós-parto pode ser considerado na vivência da maternidade onde a mulher passa por um dos momentos mais confusos de sua vida. A ambiguidade dos sentimentos felicidade/tristeza, energia/indisposição, pode ser uma experiência muito difícil nesse momento e uma rede de apoio bem formada pode fazer com que a passagem da mãe ideal para a mãe real seja menos dolorosa.

 

 

Por rede de apoio podemos citar companheiro (a), familiares, vizinhos e todas as pessoas que possam estar junto com a mãe para dar um apoio. A função da rede de apoio é ajudar a mãe com os cuidados com a casa, com a alimentação dela, com apoio para atividades que possam ser difíceis no pós como tomar um banho, se secar ou se mover (geralmente em caso de cesáreas), segurar o bebê enquanto a mãe come e sanar dúvidas que a mãe possa ter. É muito importante que a rede de apoio entenda que o bebê não deve ser tirado dos cuidados da mãe e sim as coisas em volta dele devem ser preparadas para que ela possa cuidar do bebê para que dessa forma a amamentação e o vínculo mãe com o bebê possa ser fortalecido.

 

 

A doula de pós-parto se enquadra em rede de apoio, mas sua importância é muito singular. Enquanto todas as ajudas com serviço doméstico, alimentação e etc. visam ajudar a mãe a poder cuidar melhor do bebê (ou seja, o foco está no bebê), a doula de pós-parto está ali para amparar e ajudar a mãe. É um olhar e um cuidado exclusivo num momento onde os holofotes saíram da mãe e está naquele novo ser.

 

 

As atribuições da doula seriam:

 

 

·         Elaboração do parto junto com a mãe – Eu acredito que seja a principal função da doula. O parto (ou o nascimento do bebê por cirurgia) é um grande marco na vida da mãe, é o maior rompimento e transformação. A mãe passa de uma vivência intima e intuitiva com o bebê dentro da barriga para a mãe real de um bebê real com necessidades que nem sempre a mãe se sente segura em suas respostas a elas. O parto pode mudar totalmente a relação da mãe com o bebê. Um parto muito desejado que não aconteceu, uma cesárea mal indicada, um parto violento são alguns exemplos de situações que podem causar conflitos de sentimentos na mãe e a sensação de não entender e aceitar os acontecimentos podem ser um “caminho aberto” para uma possível depressão caso a mãe não consiga lidar e elaborar o parto. A doula aqui ajudaria a mãe entender os motivos que levaram a aqueles acontecimentos, encontraria um “ombro amigo” para poder desabafar e principalmente alguém que não a critique por estar se sentindo mal apesar da felicidade que é o nascimento. A elaboração do parto é parte muito importante e toda mulher cedo ou tarde deveria passar por isso para que os acontecimentos daquele momento onde todos os instintos estão tão primitivos possam ser abordados de uma maneira mais racional e dessa forma o entendimento e a aceitação fiquem mais fáceis.

 

 

 

·         Lidar com baby blues e perceber sinais de depressão– No puerpério é comum a mãe se sentir triste. Muita gente acha que é “frescura” essa tristeza e a mãe acaba se cobrando por não estar plenamente feliz. Esse momento também conhecido como baby blues é hormonal e a doula pode ajudar a mãe entender que não precisa estar 100% feliz o tempo todo para ser uma boa mãe e que não estar radiante não significa que a mãe não ame o bebê. Além disso, a doula também pode perceber se esse baby blues não está se estendendo demais e se agravando, caso que poderia ser característica de uma depressão  pós-parto, e nesse caso indicar a procura de um profissional e mostrar a mãe que não existe problema nenhum em precisar de ajuda e que a busca quanto mais cedo mais rápido será o tratamento e cura.

 

 

 

·         Apoio à amamentação – A amamentação é muito importante no pós-parto. Ajuda o útero contrair ajudando a diminuir o sangramento, ajuda a voltar à antiga forma física mais rapidamente e ajuda a fortalecer o vinculo mão/bebê. Como é um momento em que a mãe é responsável pela nutrição que vai manter o bebê saudável e bem alimentado, é também um momento onde as mulheres se sentem mais impotentes e inaptas e é quando os milhares de palpites de pessoas que “querem só ajudar” podem acabar influenciando a boa  amamentação. A doula tem nesse momento o papel de informar a mãe da importância do aleitamento, de dar suporte nos momentos difíceis que possam vir a existir, ensinar métodos eficazes para descansar durante a amamentação, posições para amamentar, ajustar a pega, e se necessário, indicar um profissional especializado em caso de problemas mais graves.

 

 

 

·         Cuidados com a mãe – Aqui a doula faz o papel da rede normal de apoio. A doula pode fazer uma comida, ajudar com alguma tarefa da casa, ficar com o bebê para a mãe se banhar ou comer. Em caso de pós-operatório (cesárea) pode ajudar a mãe a se movimentar, tomar banho ou fazer tarefas que a mãe pode não estar conseguindo fazer. Esse seria mais um trabalho secundário da doula e principalmente caso tenha sido acordado entre as duas partes, porque é um papel que geralmente já é atribuído a outras pessoas da família, mas caso a mãe esteja sozinha e precise de alguém para desempenhar esse papel, a doula pode ser uma opção.

 

 

 

·         Cuidados com o bebê – A doula pode ajudar nas dúvidas principais dos cuidados com o bebê. Principalmente hoje em dia em que os núcleos familiares estão cada vez menores e que as mulheres acabam tendo pouco (ou nenhum) contato com bebês é comum mulheres que nunca nem trocaram uma fralda. A doula pode ensinar coisas básicas como banho, trocas de fraldas, cuidados com o coto umbilical, como também pode ensinar, se for da vontade da mãe e conhecimento da doula, a teoria de exterogestação com utilização de sling. Ajudar a mãe a diagnosticar os tipos diferentes de choro do bebê e ensinar formas alternativas de acalmar, mostrando que a única maneira de se comunicar do bebê é o choro e que tivermos paciência a comunicação fica muito mais fácil. O importante é lembrar que o papel da doula não é o de ser babá ou tomar a frente da mãe para fazer essas coisas, mas sim o ensinamento com a observação e ajuste daquilo que está errado, mas sempre com cuidado para que a mãe não se sinta incapaz ou diminuída.

 

 

 

Com todas as explicações sobre o trabalho da doula dentro da rede de apoio acho importante salientar utilizando conhecimento pessoal que uma doula deveria fazer sempre parte do acompanhamento da mulher dentro do momento do puerpério. 

 

 

Minha experiência de pós-parto foi bem complicada, me encontrei sozinha em uma cidade onde eu não tinha nenhuma rede de apoio (não pessoal, apenas virtual o que já ajudou um pouco para manter minha sanidade), tive uma anemia no pós-parto que me deixou fraca (apesar de ter tido um parto natural) e tinha minha bebê para cuidar. Muitos momentos eu chorava por não conseguir da conta de me alimentar, cuidar da casa e do bebê, sem contar que me sentia mal por estar tão deprimida apesar do nascimento da minha tão desejada filha. 

 

 

Uma doula de pós-parto em minha vida naquele momento faria toda a diferença, eu teria com quem conversar sobre os meus sentimentos que variavam de total tristeza até completa euforia, teria tido um apoio para os cuidados com a bebê não me sobrecarregando tanto quanto eu me sobrecarreguei, teria me alimentado melhor e provavelmente teria curado a anemia em um tempo mais rápido. 

 

 

Uma das coisas que teria sido a mais importante, eu provavelmente teria alguém para me explicar sobre a avalanche de sentimentos que é aquela fase e eu não teria jogado a minha frustração por causa do meu sentimento de impotência em meu companheiro e dessa forma ele poderia talvez tivesse tido mais chances de se aproximar, criar um vínculo com nossa filha muito mais rápido e me ajudar. 

 

 

A doula nesse momento se encaixa perfeitamente como peça que falta para engrenagem da maternidade funcionar, e ela é fundamental também quando há a presença da rede de apoio porque ela só tem olhos para a mulher e é importante ter alguém que olhe por você, que veja a situação com os olhos de igual, como uma mãe-melhor amiga que está ali para ajudar sem julgar, para estender a mão quando pedimos e estiver ao lado mesmo quando parece que sua presença é desnecessária.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

1.      Acolhendo o bebê e a mãe – Um guia para o profissional da saúde – UNICEF

 

2.      A influência da rede social da nutriz no aleitamento materno: o papel estratégico dos familiares e dos profissionais de saúde

 

3.      O papel da doula pós-parto: uma reflexão inspirada na experiência de puerpério de Brooke Shields 

 

4.      Elaboración del parto: La doula y su inserción en la família

 

Trabalho de conclusão do curso online de formação de doulas pós-parto da ONG Amigas do Parto, no segundo semestre de 2011. Email de contato: vendasta.talita@gmail.com

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