O MODELO ENERGÉTICO

May 6, 2019

A Holanda é conhecida por muitas coisas, mas na lingua inglesa ainda há dizeres que se referem à nossa  "zuinigheid". Ser "mão de vaca" é um jeito holandês de levar a vida. Nós não gostamos de gastar dinheiro para algo que está disponível sem que tenhamos que pagar. Observando os cuidados obstétricos holandeses podemos percerber algumas características que têm sobrevivido ao tempo e que ainda representam lições para outros países. Desde o século XVI, as parteiras eram parte do sistema obstétrico e, até onde eu sei, nunca  ouvi ou vi qualquer estudo no qual as parterias foram queimadas na Holanda. Nunca tivemos uma religião de estado e coalições políticas sempre tiverem que ser realizadas para governar o país.


Em Groningen, uma escola para parteria já existia em 1624. A parteira era a menos reconhecida provedora de cuidados obstétricos e trabalhava junto aos médicos, mas não como suas assistentes. Entretanto, o inteiro campo da saúde da mulher era de sua competência, incluindo desde o encontro do parceiro certo até o aconselhamento financeiro. Ele chegou a ter condições de se tornar uma Mestre em Parteria na Universidade.


Em 1865, uma nova profissão adentrou o campo dos cuidados obtétricos. O médico de família. Sob sua competência estavam: a obstetricia, a clinica geral e as cirurgias; ele encontrava-se melhor equipado para servir a população. A parteira permaneceu uma profissional da saúde independente, apesar de, agora, estar em competição com o médico de família e o obstetra.


O serviço de saúde social teve início no começo do século XX, sendo a parteira a provedora de cuidados médicos para aqueles que gozavam por lei desses serviços. As mulheres com plano de saúde tinham a opção de escolher entre a parteira e o médico de família ou até o obstetra. Esta escolha baseada no poder econômico não foi boa para as mulheres. Aquelas assistidas pelo serviço público se sentiram, algumas vezes, não bem atendidas porque quando queriam os serviços do médico de família ou do médico obstetra sem razões médicas, tinham que pagar.


Isso tudo terminou nos anos 80 do século XX quando todos os seguros de saúde fizeram uma escolha de qualidade: as parteiras se tornaram as principais provedoras de cuidados médicos para as mulheres grávidas. Sua profissão foi reconhecida como a especialista da gravidez de baixo risco, do parto, do pós-parto e do puerpério. Sob sua responsabilidade ficaram também o planejamento familiar e a orientação anticoncepcional.


Como foi diferente nossa história daquela Britânica/Americana. Nós nunca tivemos alguém como o médico obstetra DeLee que introduziu a episiotomia rotineira nos partos e definiu a parteria um resquício de barbaridade ou coisa parecida. Ele afirmou que as parterias representam uma ameaça ao ideal da Obstetrícia.


A episiotomia é hoje vista como uma idéia obsoleta e uma forma occidental de mutilação feminina. Uma pesquisa na Argentina, o ano passado, mostrou que  US$30.000 podem ser poupados anualmente, quando somente ela for realizada somente quando necessário. Isto num país onde existem hospitais sem água quente nos chuveiros ou comida para as mulheres durante sua internação.


Agora sabemos o que acontece quando o modelo de atendimento da parteira é descartado, quando não existem especialistas no parto de baixo risco. O parto se torna um procedimento médico e não é mais um dos maiores eventos sociais.


Atualmente, o medo é posto nas mulheres. Medo pelo parto normal, porque os medicos ganham mais realizando uma cesárea do que deixando o parto normal nas mãos da parteira. Nas maternidades privadas no Brasil, por exemplo, este é o modo de parir: mais de 90% dos bebês nascem de cesárea.


O presidente socialista Lula tenta melhorar o atendimento obstétrico, os hospitais públicos recebem verbas para não mais do que 40% de cesáreas, recebendo mais mais pelos partos normais. No setor privado, a auditoria pública está começando a atuar, definindo a questão como un ato criminal, uma ofensa contra a integridade do corpo.


Uma pesquisa na América do Norte mostrava que ao perguntar às mulheres se elas querem uma cesárea eletiva, somente 1% delas deseja esta operação de grande porte sem razões médicas. É a promoção dos médicos que faz com que elas pensem que seja melhor. Na realidade, as mulheres morrem 7 vezes mais de complicações da cesárea do que das do parto vaginal.


No Brasil as mulheres dizem: eu vou ser cortada de qualquer maneira, então prefiro que seja na minha barriga, porque se não isto vai acabar prejudicamendo também minha vida sexual após o  parto.


Em Portugal acabamos de realizar um documentário - "Donas do Parto" - sobre a rotina diária do atendimento obstétrico. Podem encontrá-lo no site www.bionasciamento.com . Quando a repórter estava grávida se sentia satisfeita com seu obstetra até descobrir que os únicos dias nos quais ele "fazia partos" eram Terça e Quarta, de modo que a indução era na Segunda e se não desse resultados, cesárea!


Na Espanha, 35% das mulheres sofre de depressão após os procedimentos médicos, chamados parto.


As mulheres ficam grávidas e são feitas para dar à luz a seus bebês.

Aquilo que vocês vêem é dar à luz e não expulsar bebês.

Aqui há uma diferença significativa.


Na Holanda, 1 a cada 3 mulheres dà a luz em suas casas, donas de si,  apoiadas por seus parceiros, pela parteira e por uma enfermeira ajudante. A taxa nacional de cesáreas no país é de 14%. Somente 30% das mulheres são levadas ao hospital e atendidas pelo obstetra e a enfermeira. As outras 30%, dão à luz nos hospitais por escolha própria e recebem o atendimento da parteira e de uma enfermeira hospitalar. Ao deixarem o hospital, recebem o atendimento domiciliar de uma enfermeira ajudante por, no mínimo, 48 horas até 8 dias, além das visitas da parteira. Nossa taxa de mortalidade perinatal é de 7/1000 e o dinheiro gasto é de cerca de 1/10 daquele gasto nos EUA.


Então, como podemos explicar a diferença nas atitudes?


A educação sexual começa cedo na Holanda e pelo menos 30% das adolescents tem uma vida sexual ativa durante o colegial. A mais alta percentual de contraceptivos orais é usada na Holanda e a porcentagem de mães adolescentes é uma das mais baixas no mundo. Orientações sobre a doenças sexualmente transmissíveis é gratuita e disponível, e programas sobre educação sexual são dados desde o jardim de infância.


As mulheres querem dar à luz como resultado de sua vida amorosa que começou em casa e elas querem fazê-lo da forma mais natural possível. Publicamente, não há discussão sobre se vagina ficaria mais larga após o parto. Se perguntarem sobre sua vida sexual, a maior parte das mulheres irá dizer que ela melhorou após o parto.


Por que somos assim?


Provavelmente é por causa de nossa herança social. Nós gostamos de andar de bicicleta ou de caminhar, no lugar de pegar o carro. Por que gastar dinheiro  por uma energia que você tem por si mesmo? Por que quando o resultado do uso da tua energia é melhor do que daquela importada?


Como podemos, então, ajudar para que isto aconteça também fora da Holanda?

As parteiras devem clamar para ser as principais provedoras de cuidados para o parto. Para isto foram inclusive reconhecidas e capacitadas pelas diretrizes européias. Precisa que elas mostrarem a coragem de assumir seu papel.


Isto, por exemplo, funcionou no Canadá e na Nova Zelândia e pode ser uma meta a ser alcançada em 10 anos.


Por que a Europa e o resto do mundo estariam interessados em saber a respeito deste modelo de cuidados?


Eu acho que é porque ele honra as mulheres, porque é menos caro, está centrado na comunidade ao invés do hospital, enfim porque seus resultados são melhores.


Um país tem cidadãos e estes são também consumidores dos serviços de saúde. Ambos os status dão-lhes uma escolha: o que você quer ser e a qual preço. Como paciente você pode ser o mais firme possível, mas ainda assim você tem que se submeter ao médico que está no controle.


Não existe país no mundo que possa sustentar uma população de 100% de pacientes. Se este for o caso, se trataria um estado muito doente e a democracia teria sido jogada pela janela. Ter uma população saudável está no interesse do estado.


Por que, então, não começar com a próxima geração? Por que não instaurar as condições para que as pessoas da próxima geração nasçam como seres humanos e não como pacientes até que se prove sua saúde?


Quando você, como mulher, começa sua vida reprodutiva, dirige-se geralmente para o medico e deposita sua confiança nele ao invés de olhar para você mesma e para os poderes que possui. Este começo é o que tem o maior impacto na comunidade. Nascer numa comunidade que pode apoiar você e sua família é um valor humano muito precioso. As pessoas no Norte do Canadá costumavam ser levadas ao hospital para dar-lhes um atendimento de melhor qualidade. Hoje, elas permanecem em sua comunidade, com melhores resultados. Isto pode ser feito quando os principais provedores de cuidados médicos, como a parteira e o médico de família, estão bem treinados na seleção de risco.


Em suma, este Modelo Energético pode ser aplicado em qualquer lugar. As mulheres amadas e as que se sentem mulheres e não pacientes submissas a procedimentos medicos, vão prover e dar melhor suporte para suas famílias e o mesmo acontece com os parceiros que se sentem ouvidos e queridos. É meu desejo espero que o curso de Atendimento Obstétrico Domicíliar apoie este Modelo Energético. Se trata de uma ferramenta maravilhosa para incentivar as parteiras que queiram trabalhar fora do ambiente hospitalar. O que vai significar cooperar com outros profissionais, como o educador perinatal, o consultor de amamentação, o médico de família e o médico obstetra, se for necessário.

 

Mary C. Zwart, midwife

European Perinatal School

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags