GESTAÇÃO E PARTO HUMANIZADO: CAMPO FÉRTIL PARA A TRANSIÇÃO EXISTENCIAL DA MULHER

May 9, 2019


    A gravidez e o parto são fenômenos naturais do organismo humano, caracterizados por modificações fisiológicas e mobilizações psicológicas, e modulado significativamente por padrões culturais. Sendo assim, nestas linhas que seguem será desdobrado o processo psicológico de transição existencial que tende a emergir nas mulheres em suas experiências de gestação e parto, quando o corpo se transforma e favorece a passagem para existência de outros Seres no mundo.

    Ao abordar o acontecimento da gestação e do parto pelo viés da humanização, a mulher em sua experiência de gestante é considerada protagonista na história de modo geral. Estar como centro deste evento favorece a mulher caminhos para expressão e consideração de suas necessidades. Ela tem o direito de obter conhecimento técnico que respaldam intervenções da equipe profissional, discutir, posicionar e ser respeitada no plano de ação que lhe é confortável. Neste caso, os profissionais que a acompanha se voltam para focar o ritmo pessoal de cada mulher que gesta, em sua dimensão mental, emocional e fisiológica, garantindo sua presença também nas surpresas que o evento possa revelar.

    Entretanto, há fatores que inevitavelmente irão se apresentar durante esta experiência e dependendo da postura que a mulher junto a seus familiares, amigos e equipe técnica terão, o fenômeno da gestação e do parto poderá ser uma passagem para mais consciência de si no mundo, isto é, de amadurecimento, ou então mais uma experiência de submissão aos padrões opressores em sua existência.   

    Dentre os aspectos antes mencionados na vivência da mulher gestar e parir há o fator condicionante e relevante denominado de Cultura, que envolve todos os padrões mentais existente na consciência humana e dão parâmetro de ajustamento adequado ou inadequado aos eventos na humanidade. Desse modo, a mulher em nossa sociedade que gera em seu ventre um bebê é geralmente impulsionada a assumir posturas baseadas no padrão patriarcal, o qual a potência masculina impera, e a exigirá, por exemplo, estar submissa à intelectualização do conhecimento científico-médico; e ou imersa na dualidade profissão-maternidade que deverá mediar para garantir seu emprego e a correspondência da eficácia imagem da mulher completa; também, provavelmente lhe será exigido o controle dos seus impulsos viscerais que estimula muitas mulheres a gritar, gemer e firmar a condição primitiva do humano parir. Sobre este aspecto, Tanese Nogueira discorre que:


A gravidez, com sua chamada para dentro e para o fundo, é um elemento alienígena neste contexto. É comum a mulher desconsiderar suas reais necessidades, surda ao pedido interno de introversão. Até por uma simples questão de inércia, ela tende a continuar fazendo o que sempre fez e quando sentir vontade de parar, de mudar o ritmo, ouvirá alguém dizendo: ‘Gravidez não é doença’, que, no contexto social atual, significa: sua vontade de parar, de mudar o ritmo é injustificada. A fase que despatologiza a gravidez acaba por fazer jogo do sistema que quer que a mulher continue produtiva e inexigente o mais possível. (“Mulheres e Gravidez Hoje” de Adriana Tanese Nogueira em Empoderando as Mulheres. Psicologia perinatal, uma abordage pós-junguiana e arquetípica.)


Assim, a mulher grávida pode ser induzida ao perigo de ser sufocada com suas necessidades pessoais e alienada de sua condição peculiar de gestar em suas entranhas.

Com o desenvolvimento do conhecimento científico foi possível então constatar, nos modos intelectuais, que a experiência do período grávido-puerperal mobiliza também junto às gestantes, processos psicológicos a respeito de sua história de vida, logo da imagem pessoal que tem de si, como Sarmento e Setúbal afirmam:


Hoje os aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério são amplamente reconhecidos, sendo que a maioria dos estudos converge para a idéia de ser esse período um tempo de grandes transformações psíquicas, de onde decorre uma importante transição existencial. (Rev. Ciênc. Méd., Campinas, 12(3):261-268, jul.-set., 2003)


Neste sentido, observa-se que as condutas da equipe de profissionais apenas baseadas nas suas habilidades técnicas voltadas aos fenômenos físicos não são suficiente para facilitar a elaboração da emergência emocional da pessoa.

    Segundo Tanese Nogueira (2010) a mulher, nesta fase, esta vivendo um momento de transição de um estado para outro, as suas idéias, perspectivas e prioridades se colocam então como prioridade a serem revistas. A autora ainda comenta que:


Sua personalidade, construída conforme seu sistema anterior, é posta em questão. Para que a nova situação encontre o rumo certo, que irá harmonizar os conflitos e permitir o nascimento da mãe, precisa que ela se deixe banhar pelas águas espermáticas do desconhecido, entrando em contato com camadas mais profundas de si. (“Mulheres e Gravidez Hoje”, em Empoderando as Mulheres… )


Nesta perspectiva, compreende-se que as emoções e memórias em estados reprimidos ou adormecidos emergem na experiência da mulher gestante como meio de favorecer a atualização da sua pessoa, a partir do novo estado caracterizado também por uma regressão psicológica que a orienta para posicionar, suprir e atualizar novas necessidades no seu cotidiano.

    Ainda sobre os aspectos psicológicos emergentes nesse evento A. Tanese Nogueira, ao discorrer a respeito da metapsicologia do parto, menciona que ele pode ser uma alavanca para o processo de individuação da mulher e para auxiliá-la nessa passagem deve-se mirar com clareza os pontos importantes que a facilite para liberdade. Assim, a autora diz que uma psicologia voltada para o parto precisa mais do que prestar atenção às emoções da mulher e trabalhá-las, é necessário ter uma visão orgânica do parto na vida feminina e então proporcionar à mulher concreta passos para agir consciente no que limita a potência de sua intimidade e integração com seu organismo total.

    No âmbito da fisiologia do parto a autora Casilda Rodrigañez contribui para este campo de compreensão ao se voltar às investigações sobre maternidade e sexualidade feminina, e a respeito desses aspectos considera o útero como a matriz da vitalidade da mulher; o coração arcaico que ao estar livre move-se em contrações e expande consciência de vida e amor, fazendo analogia deste movimento ao que em nosso mundo simbólico significa o coração.

    Nessa mesma linha de percepção Juan Marcelo Barberá afirma que as mulheres são socializadas numa ruptura psicossomática entre a consciência e o útero. Rodrigañez, em outras palavras, diz que “El ‘cuerpo’ que lãs mujeres creemos que tenemos, es um cuerpo al que há sido arrebatado el órgano central de su sistema erógeno, es um cuerpo sin útero, com um sistema erógeno que comprende solo vagina y clitóris”, ao se retratar a respeito da inconsciência da presença e bloqueio da ação uterina.

     Relacionando essa perspectiva com a expressão fisiológica do parto Casilda Rodrigañez relata que na gestação o embrião para desenvolver requer um processo de proteção que ocorre na medida em que a mulher protege a si mesmo. Entretanto há o momento em que a contradição entre a consistência da envoltura protetora e a saída do bebê acontece, e este dilema é resolvido a partir da articulação do tecido muscular, forte e flexível, com o sistema nervoso, voluntário e involuntário, realizando um engajamento neuromuscular. Então intervêm os sentidos e a percepção desses pelo organismo indica quando o sistema nervoso voluntário deve se por em movimento para abertura e expulsão.

    Segundo esta pesquisadora, em registros nos versos mesopotâmicos do III milênio a.c. é possível compreender que o útero é considerado como parte do sistema nervoso voluntário, e assim se nosso útero tornou-se inexistente no plano de consciência, a rigidez; o atrofiamento; falta de elasticidade e de desejo que estimule a produção de oxitocina faz emergir não apenas experiências de partos traumáticos, mas falta de leite; depressões pós parto e etc. Neste sentido, o trabalho corporal durante a gestação para o parto e a vivência de parir tendem a abrir espaço para emanação de empoderamento feminino, como Silvia Sterbova e Elena Lázaro chamam de o despertar do útero.

     Ao considerar o evento da gestação e do parto como acontecimento que necessita da visão do organismo como um todo se torna, então, imprescindível para a mulher o exercício de estar atenta às revelações transmitidas pelos seus sentidos, pois por eles ela terá a oportunidade de ser guiada ao estado de presença e logo poderá si perceber nessa nova experiência que mobiliza emoções, sentimentos e garra para firmar novas imagens de si. 


Maíra Darllen. Trabalho de conclusão do Curso Online ONG Amigas do Parto de Formação de Educadora Perinatal, I semestre de 2011.

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