REDESCOBRINDO A FORÇA FEMININA - REFLEXÕES DE UMA ENFERMEIRA OBSTETRA

May 9, 2019

Quantas vezes, quando crianças, ou mesmo já adultos, ouvimos a célebre frase “deixa que a natureza se encarregue disso”? Essa expressão popular pode ser muito bem recebida se a colocarmos dentro do contexto dos partos ocorridos no Brasil. No entanto e infelizmente poderíamos afirmar que esta mesma frase está fora de moda quando o assunto é gestação. A tecnocracia tem sido muito mais destacada que a força dos processos naturais. Como revela o documentário “Nascendo no Brasil”, mais de 70% dos partos realizados em hospitais particulares são cesarianas.

 

Por que isto acontece? A falta de informações necessárias à parturiente e seu cônjuge parece ser a grande vilã. As futuras mães são levadas por profissionais da área médica a optar pela técnica, sob a alegação de que o procedimento é menos dolorido. Entretanto, poucas recebem orientação em relação, por exemplo, ao período de duração dessa dor. Em alguns casos, as mães que optam pelo parto cirúrgico chegam a registrar dores durante um ano. Ao contrário, o parto natural pode até apresentar dores mais intensas, porém são muito mais rápidas. Em resumo, apenas na hora do parto.


Vale lembrar ainda que o mesmo documentário revela um triste cenário, comentado por especialistas. Na maioria dos casos, a cesárea poderia ser evitada. Mesmo os números sendo menos expressivos nos hospitais públicos (cerca de 40% dos partos), a cesárea registra índices muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).


O parto normal, como o próprio nome diz, é o procedimento mais adequado para que as coisas funcionem dentro da mais perfeita normalidade. Assim ocorria com nossos antecipados, assim ocorre, ainda hoje, com os primeiros habitantes de nossa terra, os índios.


Aliada à tecnocracia (não estou aqui incluindo a tecnologia quando usada a serviço do bem-estar humano), temos ainda uma face nada agradável do “capitalismo selvagem”, aquela que estimula os profissionais a abdicar do parto natural em troca de um parto menos demorado e muito mais rentável.


Existem ainda alguns mitos que reforçam a expansão dos partos cesarianos, tais como a maturação do feto a partir da trigésima oitava semana gestacional, a necessidade do ser humano controlar a natureza ou a necessidade de se programar o nascimento.


Mas, por outro lado, é bom percebermos que muitas correntes estão se voltando contra esses métodos mais invasivos. Boa parte dos hospitais já tem em sua grade políticas de saúde que priorizam o atendimento mais humanizado dos pacientes, incluindo a promoção dos partos normais, mesmo que ainda sejam induzidos.


Há ainda, é bom ressaltarmos a preocupação de diversas Organizações Não Governamentais (ONGs) que esclarecem dúvidas e estimulam mães a seguirem as regras de um parto normal, seja através de cursos, palestras, congressos etc.

Neste sentido, quando solicitei a minha inscrição para o curso, imaginava que seria “apenas mais um” a endossar o meu currículo. Todos os conhecimentos obtidos seriam meramente didáticos e pouco práticos para a vida. Felizmente, entretanto, estava enganada, pois tive muitas surpresas.


Este curso foi de grande valia. Ao me proporcionar muito mais que um simples conhecimento, ele mostrou que, antes de conhecer ou tentar interpretar as necessidades da parturiente, temos que alcançar o auto-conhecimento, realizando uma introspecção e observação do que vivenciamos.

E foi mais ou menos assim que iniciamos o curso, retornando ao nosso momento do parto. Dessa forma, descobri sentimentos e emoções jamais descobertas ou imaginadas, que me trouxeram uma energia interior que talvez, há muito tempo, estava adormecida.


Essa mesma energia, após um período de “decantação”, a entendi como intuição feminina e descobri que muitas vezes era uma presença constante em meu cotidiano. No começo achava que fosse uma “bobagem”, mas depois de apurada percepção e sensibilidade, pude analisar e enxergar melhor os comportamentos e idéias de nosso mundo tecnocrata, que valorizando tanto a tecnologia, seja por comodismo ou por capitalismo (visando lucros) tem como conseqüência a abolição das relações interpessoais.


Talvez por medo ou covardia, alegamos que tudo isso não passa de uma conseqüência da evolução da civilização. E assim conseguimos tornar até mesmo um acontecimento sublime (o ato de dar à luz), que é um marco na vida de uma mulher, em algo tão tecnológico, complicado e, de certa forma, mutiladora para as mulheres.


Na sagrada hora do parto, a mutilação não é só da carne, mas também da dignidade, pois tolhemos de muitas mães o direito de sentir o que seria o marco mais importante de sua existência, a passagem de mulher para mãe. Arrancamos dela o direito de parir e a colocamos em uma condição humilhante, ao frisar que ela é incapaz de parir e utilizamos as rotinas hospitalares para reforçar toda essa esdrúxula situação.


Em minha análise, pude observar ainda que eu, muitas vezes, pequei contra a mulher, ao deixar que o meu pensar tecnocrático induzisse algumas mulheres a realização de uma cesariana sem necessidade. Em algumas partes do filme “Nascendo no Brasil” cheguei a me ver mesmo que inconscientemente em uma daquelas situações. Eu acreditava, ingenuamente, que estava fazendo o melhor para a mãe, ao optar por uma dor supostamente mais amena.


Com os depoimentos dos palestrantes, pude chegar a conclusão que o parto é algo tão simples como qualquer necessidade fisiológica do ser humano, não precisando de intervenção médica, indução ou aceleração do processo físico. Observei ainda que no momento do parto, nós, profissionais, somos apenas auxiliares a contemplar uma obra, uma perfeição da natureza.


As trocas de experiência com todos os participantes do evento me endossaram e me fortaleceram a buscar uma mudança comportamental. Felizmente, percebi que não estou sozinha em busca de algo diferente ou extraordinário. Acredito que ao unirmos pessoas certas e idéias convergentes poderemos formar uma corrente e através de ações, atitudes e questionamentos, conseguiremos alcançar a mudança do paradigma constituído.


Realizando um paralelo, tomando como base a atividade desempenhada na instituição onde atuo, tomei coragem para dar seqüência a um valioso projeto de amamentação, onde tenho colhido bons frutos com as mulheres. Começamos orientando as mães através de uma cartilha titulada por mim: ABC DA AMAMENTAÇÃO.


Mesmo assim, eu sei que ainda falta muito para poder sanar todas as duvidas das nutrizes e poder chegar a um nível pelo menos próximo ao recomendável pela OMS. Já cheguei a desanimar, pensando que neste mundo só eu e algumas poucas pessoas dispersas nos preocupávamos com o tema. Porém, eu descobri que sou uma de centenas, quem sabe milhares. É bom saber que posso contar com apoio quando necessitar e saber que, com certeza, não estou sozinha nesta luta.


Hildegarth Schultz é enfermeira obstetra num hospital privado em São Paulo. Este texto foi redigido como exigência de conclusão do Curso de Humanização das Amigas do Parto, realizado em maio de 2004

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