A EDUCADORA PERINATAL NA SAÚDE PÚBLICA

May 13, 2019


“A função de educadora perinatal exige um “ouvir” atento, paciente, complexo, informado. E uma atitude que deve seguir estes mesmos padrões. Ela vai buscar compreender, mesmo que nas entrelinhas, a realidade única daquela mulher que a ela se mostra (ou dela se esconde). Participará de suas descobertas femininas ou semeará no terreno de sua vida (fértil ou não) as sementinhas de uma possibilidade. A possibilidade de identificação com a Grande Mãe, com a imensa energia criadora e maternal do universo.”



INTRODUÇÃO


    Neste trabalho pretende-se analisar o papel da Educadora Perinatal no Serviço de Saúde Pública, particularmente no SUS (Sistema Único de Saúde) e as possibilidades que são apresentadas ou que podem ser construídas para o desenvolvimento de um trabalho voltado à Humanização do Nascimento a partir de uma visão mais esclarecida e uma postura mais consciente destas mulheres/mães.


     Apesar de apresentar diretrizes atuais do acompanhamento pré-natal realizado no SUS, meu intuito será discutir o que pode ser trabalhado com a clientela que responde a um sistema instituído, com regras determinadas e com um funcionamento com grau baixo de mutabilidade, e não questionar protocolos de atendimento do pré-natal SUS.

     As mudanças, se ocorrerem, poderão e deverão ser motivadas muito mais pela “clientela” SUS do que por esforços profissionais isolados que contrariem o instituído.

     Independente dos caminhos desordenados que vêm sendo seguidos e que levam muitas vezes à “desumanização” do pré-natal, parto e puerpério, este é o caminho conhecido e, por si só, considerado seguro pela maioria das gestantes que buscam o pré-natal SUS.

     O trabalho será baseado no chamamento de Odent: “Os limites do que é politicamente correto ou errado não são imutáveis. Convidamos você a trabalhar em uma epidemiologia que abra caminhos”.

     O objetivo, então, será entender com maior profundidade nosso complexo sistema de saúde e neste, abrir caminhos.


SAÚDE PÚBLICA


     A Saúde Pública pode ser compreendida como a esfera da saúde que centra sua ação a partir da ótica do Estado. Numa concepção mais tradicional, é a aplicação de conhecimentos que tem por objetivo organizar sistemas e serviços de saúde, atuando em fatores condicionantes e determinantes do processo saúde-doença controlando a incidência de agravos através de ações de vigilância e intervenções governamentais.

     Observando esta definição, tem-se ideia do quão pequeno é o espaço para a manifestação de individualidades, diferenças. Segue-se um padrão protocolar de atendimento às necessidades. Necessidades que parecem muito mais determinadas por um Estado, do que por um cliente do serviço.

     As diretrizes na Saúde Pública correspondem a uma busca de “uniformização”. Se formos entender este conceito dentro de uma sistematização de cuidados pré e pós-natais, percebemos o quanto contraria o desenvolvimento de uma vivência gestacional e pós-natal que , indubitavelmente, é constituída por experiências únicas e pessoais, por isso, nunca “uniformes”.


A MULHER NA SAÚDE PÚBLICA


     De acordo com Hirata no Boletim da Saúde, 2004, no mundo globalizado em que vivemos, as mulheres estão cada vez mais inseridas e assoberbadas. Esta globalização trouxe modificações ao papel das mulheres nas esferas da vida política e social. Neste contexto, a maternidade muitas vezes é colocada de lado, e engravidar ou não passa a ser mais do que uma escolha pessoal, torna-se também profissional e social.

    O Programa de Planejamento Familiar, elaborado pelo Ministério da Saúde, é uma conquista da luta das mulheres brasileiras que necessitaram garantir seus direitos de cuidados à saúde e embasaram esta luta na comprovação de seu potencial produtivo.

     Apesar de inúmeras modificações e garantia de direitos conquistados, a mulher ainda é vista como a maior, e às vezes única responsável pela decisão de ter filhos, cuidar dos mesmos e manter a cultura da continuidade das relações de gênero, onde o homem decide e a mulher “obedece”. Ampliando este entendimento para a maternidade e suas relações com os serviços de saúde, encontramos, na maior parte das vezes, uma mulher que acata as ordens recebidas dos profissionais responsáveis por estes. Acabam por manter, assim,uma relação de subserviência.

     Foram garantidos os direitos ao atendimento seguindo-se os rígidos protocolos de uniformização e controle da saúde.


HUMANIZAÇÃO NO SUS


     O termo humanização nos remete a algumas reflexões sobre os aspectos que justificam seu emprego. A necessidade de humanizar algo parte do pressuposto de que esta coisa pode estar desumanizada.

     O atendimento humanizado tem como foco a dignidade das pessoas em situações de necessidade de cuidados ou atenção.

     A Política de Humanização da Assistência à Saúde (PHAS) foi desenvolvida durante os anos 2003-2004, focando em especial a rede hospitalar. O que o PHAS propôs foi ver o ser humano em sua totalidade e não como um corpo ou a fragmentação deste, sem que seja sujeito na produção de saúde.

     Dentro desta proposta encontramos a visão de que a pessoa deveria ser vista como Consciente e Inteira, com necessidades, desejos e limites.



O  PRÉ-NATAL HUMANIZADO NO SUS


     De acordo com Adriana Tanese Nogueira, a preparação humanizada tem como objetivo mãe e filho felizes e não apenas a segurança física de ambos e a preservação de suas vidas, como é a proposta do atendimento em saúde tradicional. Diz ela ainda que o modelo humanizado não é um modelo, mas um novo paradigma, onde a mulher é vista como sujeito, agente ativo de uma situação. Cita também que mesmo quando ela é vista assim, precisa questionar-se se a mesma se vê desta forma.

     A proposta do Ministério da Saúde tem sido a de humanizar a atenção pré-natal e tem como primeira atividade o acolhimento, considerado aspecto essencial da política de humanização. Deveria contar com a recepção da mulher, desde sua chegada na unidade de saúde, responsabilizando-se por ela, ouvindo suas queixas, permitindo que ela expresse suas preocupações, angústias, garantindo atenção resolutiva e articulação com os outros serviços de saúde.

     Pressupõe ainda que é dever da equipe de saúde, ao entrar em contato com uma gestante, buscar compreender os múltiplos significados da gestação para aquela mulher e sua família.

     A realidade atual nos mostra que a proposta de acolhimento humanizado no Sistema Único de Saúde é bem  intencionado, mas percebe-se que há ainda um longo caminho a ser percorrido. Só é possível trabalhar a humanização se os profissionais envolvidos humanizarem-se intensamente.

     Muitas vezes, em função do excesso de atribuições, compromissos, os profissionais de saúde “autorizam-se” a fazer o que consideram “essencial”, atentando para o prático, o possível de medir e de controlar (pressão arterial, glicose, ganho ou perda de peso, etc...)e todos os aspectos essencialmente humanos passam a ser de responsabilidade de “alguém que se interesse” ou fica a cargo do próprio sujeito atendido, no caso, a gestante.



GRUPOS DE GESTANTES


     Considerando  o colocado pela formadora e doula María Vergara, está se tornando sempre mais difusa a consciência de que é preciso se preparar para o parto (e a maternidade). Este aumento de sensibilização deve-se aos efeitos contínuos do movimento pela humanização do parto e nascimento. Os grupos de gestantes acolhem, na rede de humanização, uma grande demanda, possível de ser vista com outros olhares e humanizada. No trabalho desenvolvido no SUS, tornam-se terreno de ação para a Educadora Perinatal.

     Utilizando o que colocou a formadora e doula Mara Freire sobre o papel da equipe multidisciplinar no momento do parto, e antecipando estas funções para o período do pré-natal, ‘vale reforçar a importância de um trabalho conjunto, harmônico e que tenha como objetivo o bem estar da gestante e do bebê.

     Os Grupos podem ser considerados terreno fértil, pois, com a realização destes, propicia-se um contato mais próximo e direto da equipe de saúde com a gestante, seu companheiro e outros membros da família da futura mãe. Servem ainda como espaço de esclarecimento de dúvidas, compreensão do processo gestacional e pós-natal, com a inclusão de sentimentos, pensamentos e sensações que em outros ambientes e situações (como consultas médicas) apresentam difícil expressão.

     A discussão livre com profissionais, outras gestantes e familiares traz “calor” à relação e a possibilidade de serem ouvidas com simplicidade e com menor temor às críticas.

     A função da Educadora Perinatal nesta sistemática é a de facilitar a comunicação, a livre expressão e contribuir com orientações práticas, além de trabalhar os conteúdos latentes em cada exposição, que mesmo num nível inconsciente, atuam intensamente no desenvolvimento da maternidade.

     A atenção da educadora deve-se voltar também à transição citada por Tanese Nogueira, de “Coré à Deméter”, de cuidada à cuidadora, período delicado, de transformação interna e de auto-autorização a ser mãe.

     É no encontro com estas dificuldades e belezas que se tornam muito nítidas nos Grupos de Gestantes que vemos aumentadas as possibilidades de lidar com o que até o momento poderia estar sendo negado e adquirir a consciência de responsabilidade e capacidade.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


     Uma mulher que tenha a possibilidade de lidar com seus aspectos inconscientes e conscientes, que sinta-se autorizada a expôr-se perante profissionais habilitados e respeitadores, incluindo a Educadora Perinatal, com certeza terá a chance de aumentar sua capacidade de maternar de uma forma mais feliz e humanizada, contribuindo na formação de uma sociedade eminentemente humana.

     Os obstáculos de um sistema de saúde, ainda precário quanto à consideração das individualidades e saberes dos sujeitos, podem sim atrasar o processo de protagonismo feminino, mas, de forma nenhuma podem ser vistos como impeditivos na construção de indivíduos conscientes e responsáveis.

     A Educadora Perinatal, inserida no sistema de saúde pública, necessita levar em consideração a realidade na qual atuará. Ela se deparará com situações em que oferecerá uma alternativa à gestante, mas não necessariamente representará a "porta de entrada" para o acompanhamento desta. Por ser ainda uma atividade desconhecida no serviço público, ou que ainda não chegou a ser reconhecida e valorizada (também por escassez destes profissionais), necessita estar inserida no trabalho em equipe, interagindo com outras profissões. Entende-se a necessidade de o profissional aprender a lidar com a frustração (comum no desempenho da função pública) e utilizá-la para seu fortalecimento profissional. Desta forma poderá construir seu espaço de atuação, onde poderá tornar-se, gradativamente, útil e importante no processo.

     O fortalecimento deste saber no serviço de saúde pública atuará em grau elevado para a mudança de relação entre profissionais e pacientes ou usuários, contribuindo, de forma profunda, para a verdadeira Humanização.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


• Boletim da Saúde – Escola de Saúde Pública/ RS, vol 18, nº2 / 2004

• Tanese Nogueira, Adriana. Empoderando as Mulheres. Psicologia Perinatal, uma abordagem pós-junguiana e arquetípica. Editora Biblioteca24h.com, 2009.

• Odent, Michel. Boletim de Primavera, 2000 (7), nº4



SITES CONSULTADOS:

• www.fazendogenero.ufsc.br

• www.portal.saude.gov.br

• www.wikipedia.org


OUTRAS FONTES:

* Material de discussão do curso Educadora Perinatal

 

 

 

Luciane Rippel Vieira, Psicóloga, 41 anos, Trabalho de conclusao do Curso Educadora Perinatal ONG Amigas do Parto, Julho/2011. Contato lurippel@zipmail.com.br

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