ATENÇÃO INDIVIDUALIZADA PROMOVE NA GRÁVIDA A EXPANSÃO DE CONSCIÊNCIA

May 13, 2019


A sociedade e, pior, a mulher em si, tem perdido o sentido e o valor que a gravidez tem, ao ser uma manifestação espiritual da sua grandiosa possibilidade de conceber vida.

 

Introdução


Um dos aspectos que mais contribuiu para meu interesse em temas relacionados à maternidade, foi perceber, com muita tristeza, de que as mulheres, em geral, não tem a informação e apoio social necessários para viver uma gravidez que permita seu crescimento pessoal e a expansão de sua consciência. São vários os autores, entre eles Laura Gutman (2003), que estão de acordo no sentido de que “nossa sociedade valoriza ideologicamente a gravidez, ao mesmo tempo que a dessexualiza, representando a mulher grávida como santa, enchendo-a, então, de homenagens e cuidados, tais como evitar que tenha emoções fortes, preocupações. Esse tipo de comportamento da sociedade pode ser interpretado por vezes como uma discriminação, uma fragilização”.

 


A sociedade e, pior, a mulher em si, tem perdido o sentido e o valor que a gravidez tem, ao ser uma manifestação espiritual da sua grandiosa possibilidade de conceber vida. Com isso, a mulher tem perdido a noção do poder e força que possui. Somente na medida em que as mulheres recebam informação, suporte e apoio social, poderão retomar as rédeas de suas maternidades. Os grupos de apoio de mães para mães são uma boa alternativa para conseguir um primeiro passo nessa direção, mas é preciso levar-se em conta os aspectos individuais de cada uma das gestantes, para realizar um apoio e um suporte realmente efetivos.


As mudanças psico-emocionais durante a gravidez


Uma mulher grávida não é a mesma mulher de antes e isso não é de se estranhar. Posto que, tal como expõe Silvia Cordeiro, a mulher, ao estar grávida, “desde o ponto de vista psicológico, se encontra no cruzamento de um dos períodos de transição que fazem parte de seu desenvolvimento pessoal (junto com a puberdade e a menopausa)… Essas fases são consideradas instáveis devido às grandes modificações que envolvem tanto os aspectos sociais, como as novas adaptações emocionais, o que faz necessário um reajuste inter-pessoal e intra-psíquico”.


Sabe-se que as “transformações provocadas pela gravidez que ocorrem durante a gestação  são produto tanto da gama de hormônios próprios desse estado, como da história pessoal de cada mulher, assim como as condições socioculturais e afetivas que a rodeiam” (Maldonado) que são pessoalíssimas e que, em grande medida, determinam a qualidade da gestação e, posteriormente, do parto (Sabatino e Cordeiro).


Pessoalmente, considero que seja qual for a história pessoal, o desejo ou não da gravidez, a condição social e cultural e o conceito de maternidade, toda mulher grávida sabe, sente, percebe e demonstra, que “algo” mudou. Sem dúvida que nem todas elas estão conscientes de que a partir do momento da concepção estão experimentando em seu corpo-mente-espírito não só o milagre de gerir uma nova vida – que é a mudança que a maioria de nós percebemos e idealizamos- mas também esse reajuste inter-pessoal e intra-psíquico (Sabatino e Cordeiro) que deveria resultar numa completa conexão com o nosso interior, permitindo o crescimento pessoal e a recuperação da força interior que já não reconhecemos como própria, posto que essa sociedade patriarcal constantemente nos reprime.


A tomada de consciência da grande oportunidade que temos, como mulheres, de  nos transformar, crescer e amadurecer (Sarmiento) durante a gestação deve sem dúvida ser uma experiência quase mítica.  Mas a nossa imensa maioria desconhece essa possibilidade e o grande potencial quem tem para seu desenvolvimento pessoal. Nos dias de hoje, mulher está, em geral, “mais preocupada pelo aspecto exterior de sua experiência” (idem), o que resulta em que se “extingam as possibilidades de que compreenda o significado profundo do seu estado” (idem).


_______________


Minha  história pessoal


Depois de uma gravidez que transcorreu na ignorância (em termos do acima referido), uma cesariana não desejada e uma grave depressão pós-parto que custou muitas horas de terapia e de auto-análise, concluí que muito da minha frustração e raiva – ambos detonadores de um estado constante de insatisfação - provinha, justamente, do fato de eu ter passado tantos momentos na minha vida tentando suprimir meus instintos femininos mais primitivos e animais e, assim, o meu instinto maternal.


Sem dúvida minha história pessoal exerceu um papel fundamental no modo como vivi minha gravidez, meu “parto” e minha iniciação à maternidade. Isto   é o que descobri após ler o livro de Laura Gutman “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, e que foi reafirmado ao ter lido  o artigo de Gisele Sarmiento: “O papel da maternidade no processo de individualização feminino”.  Tanto o deixar de ser filha para converter-me em mãe, como a neurose conseqüente da adoção de um novo arquétipo e a falta de respeito social às sombras que envolveram meu processo, foram enlouquecedoras. Mas conforme fui aceitando as perdas que estão envolvidas na mudança de identidade e reconhecendo as sombras que fazem parte do meu processo, fui criando a minha nova identidade como uma mãe.


Foi quando pude deixar fluir meu coração e minha feminilidade. Tudo ficou mais simples, mais claro, menos doloroso e o fluxo de mina maternidade tomou um belo curso. Ninguém me ensinou a fazê-lo, simplesmente dei cabo ao que ditavam minhas entranhas e de modo que a Llana tão racional acabou sendo relegada a um segundo e maravilhoso plano! Daí nasceu um “novo ser”, que pode, sem dúvida, ser resultado desse processo de introspecção e que me permitiu “avançar no meu processo de individualização” (Sarmiento).

As vivências pessoais que aqui narro (de forma extremamente breve) resultaram não só na conscientização do que a maternidade significava para mim, como também me levaram a descobrir minha verdadeira vocação.


Os cursos psicoprofiláticos


Eu fiz um curso de psicoprofilaxia perinatal que, naquela época, me pareceu “bastante completo”. Sem dúvida, depois das dificuldades que já expus, comecei a perguntar-me se de fato aquele curso teria servido para alguma coisa. Uma série de informações técnicas sobre o processo gestacional e descrições detalhadas sobre contrações uterinas, fases do trabalho de parto, respirações para aliar a dor e qualquer outra técnica de relaxamento não forma suficientes. Teria gostado se alguém tivesse me posto à par de que as sensações tanto positivas quanto negativas que experimentei durante a gestação e após o nascimento de minha filha, eram normais, comuns a muitas mulheres e que esse era um bom momento para enfrentar meu passado pessoal, revisar e começar a curar carências afetivas da minha infância e a ajudar-me a conectar comigo mesma.


Então me surgiu a idéia de criar um curso psicoprofilático que incluísse esse tipo de apoio e, com grande surpresa, encontrei num artigo de Sabatino e Cordeiro, uma referência sobre Tereza Maldonado, criadora do modelo denominado Intervenção Psicológico-Educacional, que incorpora componentes do método psicoprofilático, que ajudam a reduzir a ansiedade da gestante e promovem a maturidade pessoal. O trabalho realizado pelo Grupo de Parto Alternativo do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ao preparar casais mediante cursos teórico-práticos para promover um período grávido-puerperal vivido em harmonia, é maravilhoso ( e gostaria de conhecer mais sobre ele). Preparações para a maternidade como essas são modelos inspiradores e que dão uma luz de esperança para que possamos tomar consciência do grande significado da maternidade. Definitivamente, essas duas referências serão fundamentais para o futuro da associação civil que estamos atualmente criando em Cancún.


Estou convencida de que estes tipos de cursos podem contribuir para que a mulher tenha a oportunidade de conectar-se com ela mesma desde o período gestacional e inclusive, antes mesmo de engravidar. Informar a mulher sobre a importância que tem trabalhar assuntos “pendentes” do seu passado, sua infância e sua pré-concepção da maternidade são fundamentais para ajudar no sentido de que o seu processo de “ruptura da alma” (Gutman, 2003) que acontece após o nascimento de um filho, seja menos abrupto e, possivelmente, um encontro menos doloroso com suas própria sombras.


A atenção individualizada


Os grupos de apoio mãe-mãe podem ser um espaço maravilhoso para que as gestantes compartilhem experiências, medos, ansiedades, sonhos e desejos. Creio que podem ser muito efetivos na redução da ansiedade e dos sentimentos de culpa gerados pela ambivalência emocional (Maldonado, o que Betina nos deu). Sem dúvida, um dos comentários mais enriquecedores do curso até agora foi o de Betina Bitar, que deixou claro que:  posto que “para algumas mulheres esse processo (a gravidez) acontece de forma muito tranqüila e  intuitiva, elas conseguem compreender e aceitar com facilidade o que lhes acontece. Outras não tem essa mesma facilidade e precisam ser ajudadas. Para muitas mulheres informar sobre as mudanças na gestação é um grande passo, mas nem sempre é suficiente... simplesmente falar que esse tipo de sentimentos é comum às gestantes ajuda, mas não facilita a tomada de consciência...”


A tomada de consciência é um passo muito pessoal e nosso papel é simplesmente facilitar e convidar a  mulher grávida a refletir sobre seus próprios sentimentos, para que “escute a si mesma e se compreenda” (Betina Bittar). Nosso papel como profissionais é, para Betina Bitar, estimulá-las a caminhar sozinhas e a descobrir-se. Isto é realmente, trabalhar por uma gestação mais humana.

 


Monografia realizada como trabalho final do Curso Humanização, Módulo Gestação (dede 2011 este módulo se tornou um curso independente) em 15 de maio de 2007. Ileana vive em Cancún, México.

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