UM MUNDO MELHOR ATRAVÉS DO PARTO?

May 13, 2019

Perth, Oeste da Austrália. O Programa de Parteiras Comunitárias está se unindo e fazendo lobby para sobreviver aos cortes do Departamento  Estadual de Saúde. Isto está acontecendo apesar de as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendarem programas como este, e não o cuidado “high-tech” dado nas “suítes de parto” dos hospitais  públicos e privados mais importantes do país.

 

O que são Parteiras Comunitárias?

As parteiras comunitárias operam no princípio de que a gravidez e o parto são uma parte natural e saudável da vida de uma mulher. Elas oferecem à mulher grávida suporte contínuo de uma parteira durante a gravidez, o parto e o pós-parto. A OMS diz claramente: as parteiras que fazem o cuidado primário destas mulheres são “as profissionais de saúde mais apropriadas e com melhores custos a serem designadas para o cuidado de mulheres em condições normais de gravidez e parto, incluindo para a avaliação de riscos e o reconhecimento de complicações.” (OMS, 1999, Cuidados para o Parto Normal).


O motivo? Enquanto os médicos são especialistas no que fazer quando algo dá errado, as parteiras são expert em apoiar a mulher através da progressão natural, normal da gravidez e parto, incluindo na identificação de quando a ajuda médica será necessária.


O Modelo Médico

Fazer do obstetra, ou mesmo o clínico geral, a primeira pessoa a se chamar durante uma gravidez, resulta em um excesso de serviço exorbitante às custas do público e das empresas privadas. O dr. Marsden Wagner, anteriormente responsável da OMS pela Saúde Materna e da Criança na Europa, diz que usar um obstetra para cuidar de um parto saudável é o mesmo que contratar um pediatra para tomar conta de uma criança que já anda.


Mas o problema vai mais além do que o serviço. Ao contrário da crença popular, quando uma mulher grávida toma a rota médica, ao invés de reduzir riscos, o resultado estatístico é exatamente o oposto. Como explica Wagner, a escolha em se gerenciar o parto com os médicos e não com as parteiras impõe sérios riscos à saúde e bem estar da mãe e do bebê. (Wagner, Marsden “Fish Can’t See the Water” em Birth International.)


Sem uma saída fácil: Custos e intervenções estão cascateando

Uma cultura médica paternalista convenceu um número grande e em rápida expansão na Austrália e nos Estados Unidos de que elas não podem suportar a dor do parto. A mágica da anestesia peridural ou a Cesárea são oferecidas para partos de baixo impacto.


Wagner descreve o que ele diz ser um uso epidêmico de peridurais, que levam à uma cascata de intervenções. A primeira intervenção, como a indução do parto, tende a acionar uma cascata de intervenções médicas caras e arriscadas. (em "Parto Normal: Quais as chances?” de Sally Tracy em Birth International.) Induzir o parto aumenta a intensidade das dores do parto. Isto geralmente leva ao bloqueio peridural. Este bloqueio eleva as chances de um parto cirúrgico com fórceps ou o extrator a vácuo. Cada procedimento traz riscos à saúde da mãe e do bebê. De acordo com Wagner, procedimentos cirúrgicos invasivos na mulher resultam em danos ainda evidentes seis meses após o parto, incluindo 54% de dor no períneo, 18% com incontinência urinária, 19% com problemas intestinais, 36% com hemorróidas e 39% com problemas sexuais.


Uma cirurgia como a cesárea é realmente como um parto?

Se ela possui um convênio médico privado, a mulher grávida provavelmente irá escolher um obstetra particular e um hospital que por si só aumenta as chances de cesárea em 40%, comparada com uma taxa média Australiana já excessiva de 21%. Diz-se que nenhum obstetra jamais foi processado por fazer uma cesárea, mas sim por não ter feito uma. A percepção é de que fazer uma cesariana é o equivalente de médico que toma o máximo de cuidado. As estatísticas nos Estados Unidos, Canadá, Itália e Reino Unido são similares. E ainda assim, de acordo com a OMS, apenas 10% das mulheres deveriam recorrer à uma cesariana.


As cesáreas são as únicas formas de cirurgia de grande porte que uma mulher pode considerar (e o governo vai subsidiar) sem indicações clínicas. Embora seja vendida como a maneira fácil de se ter um filho, as mulheres raramente recebem todos os fatos de precisam para tomar uma decisão informada. Birthrites: Healing After Caesarean, Inc. (Ritos de Parto: Cura Após Cesárea), uma organização comunitária no Oeste da Austrália, oferece muita informação sobre os riscos das cesáreas para a fertilidade da mulher no futuro, seu bebê e ela mesma. Uma das estatísticas dessa organização entrega o jogo: as cesáreas aumentam o risco de morte maternal em 4 vezes.


Invertendo a culpa

Um outro problema com o paradigma corrente é o da responsabilidade. O modelo médico de cuidado pré-natal e parto usa de persuasão para fazer com que as mulheres sejam responsáveis em uma área, a maternidade, onde sua responsabilidade completa é iminente. Tendo os cuidados com elas mesmas e seus filhos confiados ao sistema médico, alguém se surpreende quando as mulheres então olham para este mesmo sistema e querem que este seja responsável por quaisquer eventos adversos? O paradigma de “culpa e processo” na obstetrícia é um fator chave na crise de identidade médica na Austrália.


Pressionando por uma Reforma do Parto

Uma década atrás, a Nova Zelândia reformou o cuidado materno para promover o trabalho das parteiras. Esta estratégia de saúde pública resultou em até 80-% das mulheres grávidas recebendo cuidados de uma parteira, com visitas à um obstetra apenas em casos de complicações médicas. Entre muitas outras coisas, isto resultou numa grande redução na taxa de mortalidade maternal entre as mulheres Maori, Caindo para igualar a taxa da população européia.


A experiência bem sucedida da reforma da maternidade na Nova Zelândia foi muito inspiradora para as mulheres australianas que querem reverter estas tendências ameaçadoras. Em 2002, a Coalizão da Maternidade publicou o Plano de Ação para Maternidade Nacional. Com sede em Victoria, este plano defende reformas no sistema se saúde maternal para possibilitar às mulheres acesso a cuidado com parteiras bancadas pelo estado como parte da estratégia de saúde nacional. Ao invés de dar mais passos para implementar esta visão, no final de 2003 o governo do estado disse estar pensando em oferecer ao programa de Parteiras Comunitárias um machado para ajudar a acalmar suas preocupações com o orçamento, enviando a Coalizão da Maternidade e seus membros para a ação.

Junto com a comunidade, o próprio Programa de Parteiras comunitárias, o Cura Após Cesárea, Inc (http://www.birthrites.org/)., o Birthplace (http://barkingowl.com/~birthplace/ ) e o centro de Nurturing da família, a Coalizão da Maternidade começou mobilizando os usuários do Programa de Parteiras Comunitárias, parteiras e outros advogados para o programa. A Coalizão está juntando não apenas testemunhos individuais de apoio de mais de 60 pessoas que participaram do programa e fez uma grande reunião, mas também recebeu apoio político de Membros do Parlamento e do autor do relatório obstétrico do próprio Estado.


E você pode ver o por que. O parto é possivelmente a experiência mais íntima e vulnerável que uma mulher pode ter. Dentro do sistema prevalente de parto medicalizado, a maioria das mulheres dará à luz em lugares estranhos para elas, sob o escrutínio de estranhos vestidos em aventais cirúrgicos brancos, cercadas de equipamentos “high tech” barulhentos e sujeitas a riscos muito mais altos do que o necessário.


As mulheres precisam reeducar-se na área do parto, assim como temos que fazer em tantos outros aspectos de nossas vidas. Com a ajuda das coletâneas da Boston Women's Health - Our Bodies Ourselves (Saúde das Mulheres de Boston – Nossos corpos por nós mesmas - http://www.ourbodiesourselves.org / ) e após décadas de trabalho pioneiro para a saúde das mulheres, nós hoje somos consumidores mais bem informados e estamos fazendo escolhas melhores sobre o nosso cuidado médico. Apenas no momento de trazer uma criança ao mundo é que a tendência aponta para uma outra direção, e a maioria das mulheres está entregando de maneira cega todas as suas decisões para os médicos.

E se a principal coisa que uma mulher grávida saudável precisa fazer para assegurar uma experiência de parto saudável for experimentar a dor do parto, com o apoio contínuo e especializado de uma parteira que ela conhece e em quem confia?

 

Amy.Bachrach@westnet.com.au
Amy Bachrach é uma Nova Iorquina em recuperação vivendo em Perth, oeste da Austrália onde ela é uma organizadora de mudanças sociais. Ela é co-autora de Making News (Fazendo Noticia), uma apostila de mídia para o setor de serviços à comunidade, e editora do Not-For-Profit Webliography: a Resource Book of Selected Websites for the Community Services Sector (Webliografia Sens Fins Lucrativos: Um Livro de Referência com Websites Selecionados para o Setor de Serviços à Comunidade). Ela atualmente trabalha para o Conselho de Serviço Social do Oeste da Austrália www.wacoss.org.au, e foi a organizadora da lista EMILY’s www.emilyslist.org.au no oeste da Austrália. Ela vive com seu marido, Simon Cox, e sua filha Abby de 2 anos e meio, a quem pariu sob os cuidados de uma parteira no Centro de Parto da Família em Subiaco.

Traduzido por Andressa Fidelis.

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