A DOULA PÓS-PARTO E A MATERNIDADE VISÍVEL E INVISÍVEL


A dimensão do cuidado, da qualidade da presença e da escuta que a doula pós-parto traz no puerpério reveste-se de capital importância dada a lacuna existente no atendimento que se pretende integral à mãe e ao recém nato. Refletir sobre este tema tem também por objetivo despertar/sensibilizar os demais profissionais para “... as frustrações e a monotonia do período de internação...” (Maldonado), e para a seriedade e delicadeza desta fase, quando impressões negativas ou equivocadas acerca de todo o processo vivenciado pela mulher podem não desaparecer se permanecerem sem resolução, vindo a interferir no relacionamento mãe-bebê.

 

É também importante frisar a participação que a doula pós-parto pode ter relativamente à trabalhar o significado da experiência do processo para a mulher e para o que mais se destacou para ela. “Algumas mulheres têm somente uma preparação física e informativa do parto e outras não têm idéia do que é um parto, fora o fato que corresponde ao nascimento de seu bebê – é a experiência em branco.” (Adriana Tanese Nogueira, 2010)

No puerpério, fase de novas transformações corporais e psicológicas, a mulher, ocupada com sua nova função/identidade, o de mãe de um bebê (os dois ainda não se conhecem bem), pode sentir-se confusa e sozinha. A doula pós parto pode ser de imensa ajuda apoiando-a de forma amorosa e respeitosa simplesmente estando ao seu lado com escuta paciente, sem qualquer tipo de crítica ou juízo, caminhando com ela, colocando-se à disposição para ajudá-la em casa com a nova família, quando esta se encontrará às voltas com a adaptação ao novo ritmo, à nova vida, aos novos papéis.


A princípio, o ideal é que o vínculo entre a doula pós parto e a mulher se inicie na GESTAÇÃO, pois é preferível que a relação vá se construindo passo a passo, sendo baseada na confiança e na empatia.


O ambiente impessoal da maternidade e pessoas desconhecidas acompanhando o trabalho de parto podem fazer com que, dentre outras, a sensação de ansiedade aumente. A doula durante o trabalho de parto, está com a parturiente, mantendo uma presença discreta, tranqüilizadora e criando uma atmosfera protetora à sua volta.


Ao término do parto, quando todos estiverem bem acomodados e após o bebê ter iniciado sua amamentação, a doula pós-parto permanece ao lado da mãe.


E quanto ao recém nascido? Este traz muitos sentimentos positivos à nova família, mas também grandes mudanças; mudanças esperadas, nem sempre pensadas e elaboradas, mas que agora são reais: sono, mamadas durante todo o dia e a noite (doação materna nem sempre conscientizada), cólicas, horários e também muitas dúvidas. É nesse contexto e necessidade de apoio, que a doula pós-parto pode auxiliar, proporcionando suporte físico,  informativo e emocional, à mãe e aos familiares.


Em relação à mãe, a doula pós-parto permanece junto dela, simplesmente. Ouve e clareia o que ela muitas vezes tenta mas não sabe como expressar o que lhe vai ao coração. Ajuda esta mãe com a recuperação do parto, informando a respeito das mudanças pertinentes e faz o que for preciso para que ela possa cuidar e apreciar o seu novo bebê. A doula  pós-parto ajuda a recém mãe a alcançar o sucesso na amamentação, garantindo confiança nesses primeiros momentos com o bebê e propiciando tranqüilidade para os momentos que virão. Fica junto à família durante esses primeiros dias auxiliando-a a transitar calmamente para sua nova realidade, esclarecendo dúvidas, acompanhando os primeiros cuidados com o bebê e sugerindo alternativas práticas.


A doula pós parto encoraja a mãe a cuidar de si mesma e de sua criança, para que ambas passem mais e melhor tempo juntos. Dispõe-se a ajudar o parceiro e os outros filhos do casal, se houver, no apoio à mãe. Certifica-se ainda que a mulher esteja bem alimentada, bem hidratada e confortável.


O acompanhamento de uma mulher como a doula pós parto, pode trazer conforto, apoio e informação à mãe, diminuindo as chances de depressão pós-parto auxiliando na detecção desse estado e no encaminhamento a tratamento. Existem pesquisas indicando que pais apoiados adaptam-se mais facilmente à situação familiar, têm maior sucesso na amamentação e sentem-se mais seguros. É importante frisar que, em caso de encaminhamento ao profissional especializado, psicóloga, por exemplo, não é papel da doula pós-parto resolver quaisquer tipos de problemas que façam parte da dinâmica daquela família.


Jean-Marie Delassus afirma que “sob a maternidade da qual se fala e que a técnica aperfeiçoa, existe a maternidade silenciosa, a verdadeira, aquela que as mulheres vivem e para a qual não há linguagem. Essa “maternidade psíquica” que geralmente não é percebida subentende a outra, a maternidade física e visível. A primeira condicionando a segunda.” Ele continua afirmando que “as dificuldades maternas são ocultas e agravadas por um ambiente que procura cada vez menos o envolvimento afetivo com o qual as mães deveriam contar para serem mães.”


Embora a presença do marido traga conforto, muitas vezes o futuro pai não se sente verdadeiramente confortável por não saber o que fazer ao lado da mãe, e os profissionais estão muito ocupados, cada um nas suas funções específicas, para orientá-lo. A doula pós-parto pode auxiliar a preencher esse grande vazio existente no ambiente hospitalar suprindo a demanda por afeto, priorizando as emoções da mãe e ajudando-a a colocá-las “para fora”, proporcionando alívio e o bem estar necessários!


A doula pós-parto está muito atenta também para a elaboração do parto pela mulher e cuida para que a "experiência em branco" não se estabeleça, auxiliando-a a ter uma vivência mais confortável e uma perspectiva mais positiva, ainda que processar a experiência possa levar algum tempo, em especial se esta foi assustadora ou traumática”.  A doula pós-parto então aguarda o instante de “semear as Sementes da Conquista”!


Maria Tereza Maldonado cita “o estudo de Klaus (1972) que sugere a influência da atual rotina hospitalar adotada pela maioria dos hospitais, nas experiências emocionais dos primeiros dias após o parto no que se refere à colocação do bebê no berçário, o que contribui para aumentar os sentimentos de depressão, frustração e ansiedade da mãe”, dificultando a formação/estabelecimento dos vínculos afetivos no binômio materno-filial. Nesse particular, segundo minha experiência, as mulheres podem desfrutar da imediata vinculação com sua criança graças ao Alojamento Conjunto, com amamentação ainda na sala de parto. Contudo, ao lembrar da filosofia abraçada pela Medicina Baseada em Evidências, penso que ainda há um caminho a percorrer, no que diz respeito aos procedimentos (iatrogênicos) como a episiotomia, o kristeller, o parto em decúbito dorsal...


A doula pós-parto se mantém ao lado da recém mãe apoiando-a e “empoderando-a” da melhor maneira possível com palavras de estímulo e força, quando muitas vezes as sensações físicas dolorosas continuam. Acredito que a doula pós-parto pode contribuir para  melhorar o fortalecimento de sua auto-estima, auxiliando-a a entrar em contato com sua força interior e com a sua capacidade em lidar com a dor em níveis tão dramáticos.


Conclusão


A doula pós-parto cria, dentre outros, espaço para que “a intervenção precoce, com o coração aberto para processar a experiência do parto, possa aumentar os aspectos positivos do parto (e o papel da mulher) prevenindo traumas psicológicos e influenciando positivamente a auto-estima e a saúde mental da mãe a longo prazo”. E, caso a mulher não    esteja pronta naquele momento, a doula pós parto pode plantar as Sementes da Conquista, que a fará recordar-se quando ela processar o parto.                                                                                                                                   

                                                                                                                                                                                                                                                       
Observação final da autora


Particularmente, destaco a “Experiência em Branco” que aprendi neste Curso, como uma das mais surpreendentes e vibrantes com a qual me deparei dentre os demais conteúdos! Mas porque estou valorizando tanto essa Experiência? É que simplesmente me dei conta que tive duas delas! E porque foram as minhas e só hoje, agora, com 62 anos, é que pude re-conhecê-las e entrar em contato com elas buscando elaborá-las aos poucos e a minha maneira é que reforço a necessidade fundamental (redundância?!) da presença da doula e da doula pós-parto ao lado de nossas mulheres guerreiras, auxiliando-as a “descobrirem por si mesmas, a força [desconhecida até então e] que elas podem utilizar no futuro”.



Referências Bibliográficas


- Anotações do Curso Doula Pós Parto Online do site Amigas do Parto.

- Apostila Novos Conceitos na Assistência ao Parto. Treinamento de Doulas Para Apoio no Trabalho de Parto. Associação Nacional de Doulas- ANDO, 2004.

- O Sentido da Maternidade. Jean-Marie Delassus. Editora Paulinas. 1999

- Psicologia da Gravidez, Parto e Puerpério. Maria Tereza Maldonado. Editora Saraiva. 14ª edição. 1997.

- Textos variados retirados da Internet.

 

Maria das Graças Teixeira é doula parto e pós-parto, atua no Rio de Janeiro. Este trabalho foi sua reflexão final para a conclusão do Curso Doula Pós Parto. 15 de julho de 2010.

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