AFRODITE E A DESMEDICALIZAÇÃO DO PARTO

Cultivar o jardim interior faz parte da cura para a doença chamada “coisificação”, o que torna tudo objeto, na qual está arraigada sua versão sofisticada chamada medicalização do parto”.

Tem a beleza algo a dizer sobre o parto? O parto é belo?

A associação entre parto e beleza não é comum. É preciso antes refletir sobre qual é nosso conceito de beleza e perguntarmo-nos: seria a beleza um fator de saúde mental? De fato, o Belo, proclamado desde Platão como um dos elementos imortais do mundo das Idéias, não faz bem somente aos olhos, faz bem à alma.

Beleza não significa riqueza, luxo e status, assim como feiúra não é sinônimo de pobreza. A beleza que nos interessa não é o conformismo a modas e clichês padronizados. É uma Beleza que nasce da sensibilidade e delicadeza para com o que é pequeno,

transitório e até efêmero, por exemplo, para com nossos jardins e parques, detalhes de ruas e calçadas. Este olhar feminino sobre o mundo, foi expresso na resposta que a prefeita, Marta Suplicy, deu numa entrevista (Folha, 02.10.2000, A3): "Beleza é fundamental.. Vou tratar dessa cidade como trato do meu jardim".

Segundo Ginette Paris, Ph.D. em Psicologia Social pela Universidade de Montreal no Quebec, o desejo coletivo de beleza é indicador do nível de civilização de um povo. Para ela, a verdadeira pobreza cultural se expressa na ausência total de Afrodite - a deusa da beleza e do amor. Segundo a autora do livro “Meditações Pagã” (Petrópolis: Vozes, 1994), a arte afrodisíaca da beleza tem a ver com o tornar a vida cotidiana mais bela e "civilizada".

Sim, a beleza é fundamental para nossa saúde mental! Verdadeiro bálsamo numa cidade estressada e poluída como é São Paulo. Escreve Ginette Paris: "Há um certo limiar, além do qual, a feiúra e a desolação ameaçam a sobrevivência psíquica". A feiúra do ambiente em que vivemos é um sintoma da patologia de nossa sociedade e cultura.

A beleza de Afrodite nasce da conquista do equilíbrio entre espontaneidade e cultura, natureza e arte. É uma beleza que não intimida, nem assusta - uma beleza que faz bem ao coração, relaxa os nervos, abaixa o nível de stress e reativa o fluxo vital gerando uma agradável sensação de alegria de viver.

O ambiente do parto, a postura dos que ali estão, a atitude da parturiente diante da experiência que está vivenciando falam também a linguagem da beleza. O parto belo não é o "parto 5 estrelas" de um hospital de luxo. Ele pode estar na cabana onde atende a parteira ou na casa de parto, no domicílio e inclusive num hospital se houver clima apropriado. A beleza de um parto depende do estado de espírito irradiado pelas pessoas presentes. Se expressa na beleza que está nos olhos de quem vê, na alma que acolhe, no calor do abraço e no sorriso de quem nasce.

Enxergar a beleza na biografia do ser que chega nesta dimensão constitui um ponto de vista radicalmente diferente do da medicina tradicional, mas tão necessário quando as condições que garantem um parto seguro. A qualidade do atendimento por detrás das aparências é para ver o ser espiritual e emocional, o ser vivo que nasce no parto. Para saber fazer isso é preciso que quem atende o parto seja, ou melhor, se sinta um ser espiritual. Só vê o espírito quem olha com olhos espirituais, enquanto quem se resume a um corpo disciplinado para repetir os mesmos comportamentos encara os outros corpos (o da parturiente e o do bebê) como matéria insensível. Onde está a beleza nos olhos de quem atende um parto?

Uma das qualidades de Afrodite é a sensibilidade, para mim a mais importante. Definimos a sensibilidade como o olhar a partir do coração. Não coração impregnado de sentimentalismo, anseios, medos, culpa e angústia. Mas aquele ponto de vista amoroso e belo que enxerga a presença do amor e da beleza à sua volta. Somente pelo amor vemos o belo.

Delicadeza do coração sensível e leve, verde como tudo o que está nascendo, fresco e úmido como o primeiro pulsar da vida, perfumado com uma flor. Cultivar o jardim interior faz parte da cura para a doença chamada “coisificação”, o que torna tudo objeto, na qual está arraigada sua versão sofisticada chamada medicalização do parto”.

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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