PROTAGONISMO DA MULHER E DO BEBÊ

A II Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento, realizada no Riocentro, no Rio de Janeiro (RJ) entre os dias 30 de Novembro e 03 de Dezembro de 2005 e definida pela secretária nacional da ReHuNa, Heloisa Lessa, como o maior congresso sobre parto natural do mundo, tendo registrado 2136 inscritos, ofereceu uma gama vasta de novas informações, idéias e debates paralelos em diversas oficinas. No geral, a abordagem teve um corte prioritariamente médico, foram discutidos assuntos voltados principalmente para o público de profissionais, médicos e enfermeiros obstetras. As mulheres – ou consumidoras, segundo um termo na verdade pouco satisfatório para designar as usuárias dos serviços obstétricos – foram especialmente contempladas na conferência proferida pela parteira mexicana Naolí Vinaver** e que teve como título “Protagonismo da mulher e do bebê no parto”. A questão do protagonismo é de grande importância hoje nas discussões internas ao movimento brasileiro pela humanização do parto, e a forma como Naolí apresentou-o despertaram-me algumas reflexões.


A expressão “protagonismo da mulher” tornou-se um slogan conhecido e  repetido. É importante, porém, ir além das fórmulas prontas e refletir um pouco mais sobre o que isso quer dizer. A fala de Naolí trouxe pelo menos três elementos significativos para esse debate, que permite um ajuste e um aprofundamento da questão, em função de um verdadeiro resgate da capacidade feminina de parir.


Em primeiro lugar, ela religou a idéia de protagonismo àquela de natureza. Esta simples conjunção de dois termos “protagonismo” e “natureza” me levou a uma série de outros pensamentos, alguns inclusive abordados pela própria Naolí. Se pensarmos o protagonismo da mulher fora do contexto daquilo que é natural, espontâneo e livre, estaremos enveredando pelo mundo do teatro e da representação, visto que protagonismo remete à ação de uma personagem principal na cena de um filme, por exemplo. Nesse caso, é  fácil enxergarmos que protagonismo se torna algo que tem a ver com o  aparentar, exibir, mostrar – e não com o ser. E parto é tudo, mesmo uma representação artificial, construída e calculada. O próprio plano de parto não quer ser um “programa de trabalho”, um itinerário  pré-definido. O plano de parto serve de orientação à equipe hospitalar no caso em que a mulher for dar à luz em um hospital onde ninguém sabe nada dela, de seus desejos e necessidades.


Aí cabe a reflexão que Naolí levantou: “É normal você ir ao hospital e se colocar nas mãos de quem não a conhece? Alguém que vai pegar sua energia e colocá-la numa caixa, encerrá-la num armário e lhe dizer: ‘Agora você está pronta. Agora você está nas minhas mãos’.” O que tem de natural nisso? ela pergunta. De fato, respondemos, esta se parece muito mais com a cena montada de uma comédia trágica e cômica ao mesmo tempo: uma mulher redonda como uma lua cheia, grande e brilhante, delega sua força a uma equipe de desconhecidos que irão tratá-la como uma lua nova, sem voz e sem vez, privando-a de sua iniciativa e decisão. Seria tão natural quanto um guepardo cuja corrida ultrapassa os 100km/h usar uma bicicleta para se locomover, ou uma águia usar um delta plano para voar, ou um falcão binóculos para enxergar e uma abelha a geometria para construir sua colméia...


Ser protagonista não quer dizer atuar um papel na cena do parto. Isso me lembra Michel Odent comentando os efeitos negativos da invasão de câmaras e filmadoras no parto. Eu acredito que se deva fazer aqui especificar que o ponto a ser focado não é simplesmente ter ou não uma máquina fotográfica sendo usada enquanto você está parindo; mas é se você está ligada na máquina ou não, se o parto é feito pelo ego que quer apresentar um espetáculo (“para inglês ver” como se dizia uma vez) ou se é feito com o ser interior e inteiro da mulher. Se o ser íntimo da mulher estiver no comando afastará decididamente de si tudo o que o incomodar e permitirá junto a si tudo o que se afinar com ele.


Voltamos, portanto, ao ser profundo feminino. O protagonismo da mulher no parto não corresponde à atuação dessa mulher no âmbito do trabalho ou da sociedade. São situações completamente diferentes. Nessas últimas, quem atua é a individualidade de um@ profissional ou cidadã. No parto quem “atua”, ou melhor, quem existe, emerge e deve triunfar é o ser interior daquela mesma mulher – ser que muitas vezes não teve outras oportunidades na vida para se manifestar. Esse ser é algo natural, profundamente instintivo, livre e espontâneo. Assim, parto natural é aquele que é espontâneo, solto, que corre como um rio, cujas pedras fazem parte do caminho mas não o impedem de correr rumo ao mar....


E nasce o bebê. Chegamos ao segundo ponto que me chamou a atenção na fala de Naolí Vinaver, aliás, já no título: ao protagonismo feminino, tantas vezes repetido no Brasil, acrescentou-se pela primeira vez aquele do bebê. Pergunto: teríamos nos esquecido do bebê? Não exatamente. Acho que num primeiro momento, se quis focar a importância da mulher assumir as rédeas de sua gravidez e parto. Mas aí, caiu-se no extremo oposto: tende-se a esquecer do bebê. Poderíamos considerar um parto como empoderador se terminar em morbo-mortalidade fetal? É evidente que podemos transformar toda experiência num momento enriquecedor para nossas vidas e consciências. Entretanto, é preciso lembrar, como sublinhou Naolí, que o protagonismo da mulher não se desvincula daquele do bebê. O que implica em duas coisas: primeiro, que o tempo e o ritmo do bebê devem ser respeitados, pelos profissionais assim como pelas mães. Surge inevitável a pergunta: é ético e respeitoso retirar um bebê de seu mundo uterino antes que ele tenha dado sinais de que está pronto e querendo sair? Não seria uma relação de violência. É responsável por parte de médicos e de mães?


Em segundo lugar, eis mais uma contribuição de Naolí: o protagonismo do bebê implica que a mulher, ao resgatar sua força de parideira, sua sabedoria feminina e sua autonomia, deve levar sempre em conta seu bebê. A decisão a respeito do parto e de como conduzi-lo é na verdade uma decisão da dupla mãe-bebê que, segundo a parteira mexicana, formam uma unidade indissolúvel. Assim, Uma mulher sintonizada com seu interior, com sua instintualidade e responsabilidade como fêmea humana estará representando em suas atitudes e decisões uma vontade coletiva, dela e de seu filho.


Mais uma vez, fica evidente que o parto não é uma questão de ego. Transcende e extravasa para algo místico e mais profundo. A liberdade da mulher no parto não é a mesma da liberdade de voto, ou de trabalhar. Não é o mesmo tipo de liberdade que se tem como indivíduo, profissional e cidadã. Essa outra liberdade, carregada de  responsabilidade e de amor, enraizada em seus instintos e transcendente para o espiritual, na qual ela e seu filho estão unid@s, está conectada à força profunda e inarredável da vida em sua manifestação mais plena, que é o nascimento.


O terceiro ponto que me chamou a atenção ouvindo a conferência proferida por Naolí, é sua referência à história pessoal de cada mulher. Diz ela que em algum momento de sua vida a mulher abriu mão de seu poder. Quando foi? Naolí sublinha várias vezes em sua fala que se queremos falar em empoderamento da mulher, precisamos primeira falar de seu desempoderamento. Quando começou e como aconteceu?

Emerge aqui a questão de gênero. Com a expressão “relações de gênero” se quer significar relações sociais em que o poder está distribuído de forma desigual, entre homens e mulheres. No nosso caso, ocidental, branco e cristão: o poder está em mãos masculinas, e masculinas são também as qualificações que têm valor. As mulheres permitem que se faça conforme a vontade deles. Elas seguem um modelo  externo a si próprias, traindo sua inteireza e sabedoria. É por isso que chegamos ao que Naolí aponta: a mulher abdica de sua energia e precisa então de alguém que lhe diga como parir. Isso é tão absurdo, como seria receber instruções sobre como namorar... Entretanto, até isso acontece, não é?


A questão da história das mulheres e de cada uma pessoalmente levantada por Naolí, que traduzo aqui com a questão das relações de gênero é um ponto fundamental que geralmente não é abordado nos discursos corriqueiros sobre “protagonismo feminino”. Naolí tem razão: quando se fala em retomar nosso poder, não se pode deixar de olhar para trás e nos perguntar: quando é que perdemos esse poder? Estamos, a meu ver, diante de uma doença, social e psicológica. Mulheres desempoderadas são uma lástima para a sociedade e uma tragédia para si mesmas. Como chegamos a isso? Não rever nossa história social e pessoal é fazer do slogan “protagonismo da mulher” uma fórmula superficial a ser colada como uma etiqueta no avental desconfortável da parturiente quando esta entra em sala-parto com nas mãos seu plano de parto, na cabeça suas idéias “libertárias” e no coração o vazio de uma história não resgatada, inconsciente e solitária.

Se uma mulher quer ter um parto empoderador, é preciso que se pergunte quando foi que perdeu seu poder? Que cada uma reflita sobre isso. Quando foi o primeiro momento em sua vida em que sua integridade feminina foi violada? Quando foi, como acrescentou Naolí, que ela entregou o que lhe era mais precioso para outrem? Quando começou a deixar de decidir por si mesma? Quando abriu mão de sua autonomia? Quando priorizou receitas externas ao invés de sua confiança interior? Quando foi a primeira vez em que acreditou que suas intuições não funcionavam? E aceitou como “loucura” a vontade de seu ser profundo? Quando começou a achar que não era capaz e não sabia o que queria?


Concordo com Naolí quando diz que “protagonismo” fora desse contexto não passa de uma palavra fria, uma etiqueta. Lutar para ser protagonistas em nossos partos não é como lutar para conseguir os mesmos salários que os homens recebem ou para alcançar um novo cargo. Entendido dessa forma, o protagonismo não nos levará muito adiante, mas fomentará ainda mais a incompreensão acerca do universo feminino e do ser mulher, sobretudo entre as mulheres. O que é preciso resgatar no parto é a força da vida em ação, da vida ao vivo. As mulheres precisam aprender a se (re)conectar com o poder pulsante, alegre, sério e profundo da vida que respira em cada contração e que goza a cada nascimento. Para isso, deve enraizar-se em si mesma, a custo de encontrar experiências doloridas, cicatrizes e marcas de um passado opressor. É com a carne que parimos e esta precisa ser resgatada das cadeias que uma cultura secular baseada no masculino cerebral, abstrato e moralista aplicou, cultura refletida na criação e na educação que todas nós receberam em casa, nas escolas, pela TV e pelo mundo afora.


** Naolí Vinaver é parteira tradicional e profissional mexicana com 17 anos de experiência em atendimento do parto domiciliar. É uma das  principais ativistas do movimento do parto natural em México e conferencista internacional. É antropóloga de formação e autora do livro "Um Bebê Nasce...Naturalmente" (editorial Mercuryo Jovem), assim como de dois vídeos/documentais sobre o parto e nascimento: "Dia de Nascimento" e "O Mundo Nasce ao Ritmo do Coração". E-mail: naolivinaver@hotmail.com e www.nacimientonatural.com .



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags