“ENQUANTO A MAMÃE NÃO VEM”

A construção do caminho da maternidade inicia-se, na grande maioria das vezes, na infância da menina que brinca com suas bonecas. É neste brincar que podemos observar, dentre outras coisas, principalmente, o reflexo e a resposta do que ficou de registro simbólico e imaginário para esta criança dos primeiros cuidados e da maternagem de sua própria mãe. Ali, no campo da fantasia, ela começa a significar o que mais pra frente, provavelmente, vai utilizar como ferramenta para a construção de sua própria experiência de maternidade.


Contudo, existem outros fatores que geram fortes influências nos rumos que estas mamães em potencial tomam ao longo da vida. Além da história pessoal e familiar, contamos com uma cultura que divulga, quase como louvável e necessário o sofrimento materno; o social, que atualmente, e cada vez mais, medicaliza a gestação e o parto os aproximando da doença e da dor; e a cobrança psíquica da própria mulher em ser uma boa mãe e não poder errar. Todas estas contribuições calham, muitas vezes, em um puerpério inseguro, deprimido e cheio de interferências que afastam esta nova mamãe do vínculo natural e sadio de amor com seu bebê, atrapalham a amamentação e criam mais instabilidade para este momento que já é, por si só, psicofisiologicamente melancólico.

 

O interesse por este tema surgiu a partir da observação da prática clínica no atendimento ao pós-parto com queixas frequentes de bebês recém-nascidos que não dormem e que choram demasiadamente, de amamentações problemáticas e doloridas e de um alto nível de estresse materno. É uma tentativa sincera de procurar compreender as razões que levam estas relações mães-bebês se tornarem cada vez mais fragilizadas,  as interferências negativas no vínculo de amor tão fundamental para esta díade e reforçar a necessidade de apoio e suporte emocional nesta nova fase.

Entre a menina que brincava com suas bonecas e a mulher que acaba de  descobrir-se grávida, observa-se um espaço de tempo preenchido de construções imaginárias baseadas na falta de consciência corporal e psíquica, nas repressões sexuais, na má orientação e informação sobre os assuntos da gestação, parto e puerpério e também sobre o lugar da mulher na cultura e na sociedade. Tais desconexões desencadeiam, muitas vezes, uma série de dificuldades que poderiam ser evitadas e que estabelecem um ciclo vicioso.

Inegavelmente, é sabido que a gestação, mesmo que muito planejada, causa diversos questionamentos e medos, pois ela é a materialização de tantas mudanças que estão por vir. Ainda que o momento da constatação real e estampada no resultado do exame positivo de gravidez seja dado como marco inicial, não é a partir deste que esta gestação toma forma. Ela vem sendo construída muito antes no lugar subjetivo do desejo materno e paterno. Quando ela toma forma de realidade, assim como o parto e o pós-parto, suas reações são apenas reflexos da maneira como a maternidade e a paternidade se constituíram ao longo da história de cada um. 

Alterações hormonais importantes acontecem no corpo da mulher, sintomas físicos conhecidos de cada trimestre gestacional determinam tais mudanças, mas podemos relacionar, inclusive o aparecimento mais  frequente ou não destas mudanças com o psiquismo da gestante em cada  momento vivido e significado por ela. Todos nós falamos com o corpo e não é diferente na gravidez. Por isso, é fundamental que o profissional esteja atento e saiba escutar e compreender cada gestação como única.

Para que isso aconteça dentro do campo do respeito e da ética, deve-se procurar saber da história que construiu este desejo que culminou nesta gestação e em que pilares ela será sustentada.

Embora alguns dos exames pré-natais sejam fundamentais, o que observamos, atualmente, é uma supervalorização destas respostas físicas para determinar a saúde do bebê e da mãe. Ao pré-natalista, muitas vezes, pouco importa as dúvidas e inseguranças naturais deste momento, o que interessa é interpretar os resultados dos exames que obstetricamente falam que a mulher está saudável ou não. Não há tempo nem espaço para questões subjetivas, expectativas ansiosas ou ambivalências. Estas formas de tratamento deixam a gestante num buraco de conflitos e culpas que poucos se dispõem a ajudar, escutar e esclarecer. Aliás, no lugar disto entra o poder médico que acolhe,  resolve e decide ilusoriamente pela mulher. Inocentemente e por pura  falta de informação consciente, a gestante, muitas vezes infantilizada, entrega suas possibilidades, seu poder de decisão e este momento especial, nas mãos do obstetra que é capaz de determinar as normalidade e anormalidades na gravidez. Mas não é difícil de compreender estas atitudes se soubermos contextualiza-las na ânsia por racionalidade e controle.

Vivemos o tempo da resposta automática e por isso surgiu a intolerância pela espera, perdeu-se o respeito pelo curso da natureza das coisas e estamos no mundo do controle e do racional. Diante deste quadro, que espaço existe para a gestação, se é sabido que ela tem seu tempo, que suscita sensações psíquicas regressivas, que provoca reações hormonais? Muitas vezes fora de controle e do querer da própria gestante e que ela lida, principalmente, com um bebê, um filho que não se conhece, mas se imagina muito? Não há espanto ao constatar que muitas mulheres, neste período, vivenciam verdadeiros estresses emocionais, angústias, dificuldades nas relações e experimentam determinados sintomas físicos com muito mais força.

Não há dúvida que é, de fato, um grande momento. Que uma gestação é capaz de 

mobilizar diversos medos e que, por conta disso, detona alguns sofrimentos, mas há a necessidade de sofrer tanto assim? Porque não é possível encarar a gestação com menos pesar? Porque não é possível  aproveitar a oportunidade para se desenvolver e compreender-se positivamente dentro deste processo? Obviamente, pode-se encontrar estas respostas acessando a história pessoal de cada mulher, mas o que parece marcante é o quanto a cultura do sofrimento materno atua nesta questão. É compreensível que um dos versos brasileiros mais citados seja o: “Ser mãe é padecer no paraíso”, ou seja, ser mãe é primeiro sofrer, é ter a chance do paraíso, mas não ter a opção do prazer nele.

Seguindo esta configuração, a da “mulher obstetricamente saudável”, pergunta-se: porque é a cesariana que ela e seu médico escolhem, já que esta foi criada para casos de emergência e de risco para saúde materno-fetal? Ora, porque, diante deste quadro, esta cirurgia, ainda que seja de grande porte, atende lamentavelmente a demanda da atualidade. O que se esquece  é que estamos lidando com o  nascimento e com o que ele representa para o próprio bebê, para a mãe e para aquela família, em diversos aspectos.


Por falta de conhecimento, por medo da dor que é associada ao parto normal, opta-se cada vez mais por esta intervenção cirúrgica que tem  sequelas e rastros a curto, médio e longo prazo. Dentre tantos procedimentos médicos, muitas vezes, desnecessários, o mais grave de  todos e que interfere fortemente no vínculo mãe-bebê, é o afastamento do recém-nascido de sua mãe no ato do nascimento. É sabido que o bebê assim que nasce por meio desta cirurgia, na grande maioria das vezes, é levado pelo pediatra para realização de exames, medidas, aspiração e medicamentos. Só depois ele é apresentado à sua mãe, que impossibilitada de pegá-lo, por estar imobilizada na mesa de cirurgia, apenas pode fita-lo rapidamente. Não lhe é dado o direito de amamentá-lo nos primeiros minutos, dar-lhe carinho e exprimir seus sentimentos mais sinceros. Por parte do bebê, a perda também é imensa, pois deixa de ganhar, no momento de seu nascimento, a referência única que ele tem que o confortaria muitíssimo se pudesse ouvir a voz de sua mãe, sentir seu cheiro e seu calor.

O nascimento, por si só, além de representar vida, também é o encerramento de um ciclo importante para mulher e seu filho, ou seja, significa também separação e perda. Porém, isto é muito agravado quando se trata de uma cesariana ou de um parto normal sem os cuidados respeitosos fundamentais. Comumente observamos que o bebê, assim que nasce é levado para o berçário, a mãe, ao terminar a cirurgia, é levada para a enfermaria ou quarto individual e estes dois que por tanto tempo ficaram juntos, compartilhando dezenas de sentimentos, hormônios e experiências, ficam sem se ver por várias horas. Dentro deste longo espaço de tempo, este bebê, que nasceu saudável, fica em uma incubadora, é manipulado diversas vezes e recebe complemento alimentar, o leite artificial na mamadeira. Quando finalmente, pode ficar com sua mãe para re-conhece-la e para amamentar, as dificuldades começam para dois lados mais importantes e mais ignorados nesta história. Não é raro ouvir depoimentos maternos afirmando um estranhamento e dificuldade de aceitação do vínculo com seus bebês. Isto é tido como normal, mas gera uma angústia imensa na mãe que ainda não pode vibrar positivamente com sua maternidade mesmo depois do filho nascido. Enquanto todos os familiares a felicitam pelo momento, esquece-se que esta mulher ainda está sob o efeito de fortes medicamentos anestésicos que a afastam da realidade e que o próprio ato de nascer cirurgicamente a afastou da dimensão do significado deste acontecimento. 


Obviamente, seria mais uma covardia, dentre tantas cometidas com o feminino, afirmar que é menos mãe, aquela mulher que teve que passar por uma cesariana. Contudo, comprovadamente, é o parto vaginal natural que faz com que a mulher participe ativamente do processo de nascimento de seu filho, durante o trabalho de parto e é ele que a insere nas dimensões reais e imaginárias de sua maternidade. Este, por si só, já é um grande benefício.

Tido como o final de uma grande etapa, ao pós-parto, muitas vezes é dada pouca atenção. Porém, é neste momento, que tudo que estava latente e no campo da expectativa, tem início. A alta da maternidade, a chegada em casa e os dias que se passam durante o puerpério são francamente marcados, muitas vezes, pelo cansaço, medo, tensão e falta de apoio. Naturalmente a mulher sente-se mais fragilizada. Atravessa, ainda que o momento refira-se ao nascimento do filho, a tentativa de elaboração do luto de ser um para ser dois, do luto do seu corpo, do filho imaginado, ou seja, esta mulher vivencia, principalmente o luto pelo fim da inocência, como muito bem descreve Laura Gutman em um de seus artigos sobre o tema. Somando-se a isso, encontramos uma mãe tentando reconhecer-se nesta sua nova função, um bebê adaptando-se a tudo que há de novo em seu mundo e uma mãe e um bebê estabelecendo uma comunicação que transcende a verbalização. Muito embora a separação física tenha ocorrido com o parto, o que observa-se no pós-parto é a continuidade de forma subjetiva desta díade mãe-bebê. A mãe que puder escutar-se neste momento, saberá escutar e compreender seu filho intuitivamente.

Porém, as interferências dos padrões culturais, sociais, das opiniões externas de familiares e amigos, das auto-exigências e, naturalmente, da labilidade emocional que o momento trás, tratam de afastar esta mãe da profunda conexão com sua cria. E, atualmente, a prática profissional tem mostrado que cada vez mais mulheres retardam, inconscientemente, o quanto podem sua condição de maternagem, delegando a terceiros (enfermeiras, babás e familiares) os cuidados físicos e afetivos aos seus bebês recém-nascidos e tendo dificuldades com a amamentação, por medo de errar e, principalmente, de vincular e de tornarem-se mães.

Tudo há seu tempo e sem a intenção de tornar este estudo uma repetição das cobranças socioculturais que podem detonar este comportamento na atualidade e que é o ponto principal de crítica aqui, é importante salientar que a premissa básica é de que a maternidade, assim como a paternidade, é um processo de aprendizagem. Ninguém transforma-se em mãe ou pai da noite para o dia. A percepção interna e a tomada de consciência são diárias e é trabalho para uma vida toda. Assim como, não se trata aqui de questionar a necessidade maior ou menor de algumas mamães precisarem de uma rede de apoio. Aliás, cabe lembrar, que neste momento, é fundamental uma rede de apoio dedicada e amorosa.

Discorrer sobre o assunto é procurar compreender porque, atualmente,  existe um número crescente de mães que relatam a amamentação como uma prática estressante, muitas vezes, dolorida e desgastante e porque a comunicação disponível entre mãe e bebê não é acessada com menos tensão. As respostas para essas questões jamais podem surgir de uma leitura unilateral e radical do assunto, afinal somos seres biopsicossociais e singulares. Porém, sob a luz da hipótese de influência do fenômeno sociocultural, neste caso, pode-se entender que as demandas advindas daí sejam ambivalentes e, por isso mesmo, desencadeiem angústias e inseguranças. De onde vem a exigência do tornar-se mãe o mais rápido possível, vem também a demanda de uma mulher moderna que tem que conciliar maternidade com o mundo profissional e com a racionalidade. As mensagens são dúbias assim como as exigências. “É necessário que acesse o seu instinto materno, mas não há tempo para o seu parto. É preciso ser mãe, mas com a estética corporal de uma adolescente. Além de tudo, é preciso ser boa mãe, ainda que não se saiba o que isso significa, mas é preciso colocar o bebê na creche ou deixa-lo com uma babá para voltar ao trabalho logo. Precisa amamentar, mas a enfermagem deu leite artificial na mamadeira no berçário da maternidade. Precisa amamentar, mas tem leite fraco e escasso como das mulheres de sua família.” E seria possível citar tantas outras pressões internas e externas aqui. Mas, por hora, diante destas ilustrações pergunta-se: será que há espaço para a construção de uma subjetividade materna autêntica e consciente diante de tanta cobrança? Há lugar para acessar esta competência feminina no mundo moderno? Cada vez mais, estar “inconscientemente” inserida neste mundo e afastar-se da confiança do saber-se mulher, de acreditar-se capaz de gestar, parir e de ser mãe, torna as etapas da gestação, parto e pós-parto dificultosas, solitárias e estressantes. Não é sem motivo que, cada vez mais, encontram-se mães em seus leitos na maternidade com o medo estampado em seus rostos e que a depressão pós-parto é recorrente nos dias de hoje. Não se a ver com a natureza, não trabalhar a fantasia e não acolher o inesperado nestes momentos, podem desencadear uma série de bloqueios e dificuldades que poderiam ser evitadas e prevenidas.

Parecem motivos pequenos e sem importância se avaliarmos o caos mundial cercado de guerras, fome, injustiças. Mas é fundamental atentar-se para o início de tudo! É fundamental retornarmos o olhar para o gerar e o nascimento. Não há como fugir, é ali que tudo começa e dá-se início! Ali está nascendo uma história e uma vida e o potencial que esta carrega é enorme! Por esta razão, devemos cuidar do começo para que não tenhamos tantas dificuldades no meio e um final infeliz! Por isso, nós, educadores perinatais ou quaisquer profissionais de saúde envolvidos minimamente com o início da vida, temos a responsabilidade de trabalharmos com dedicação para que cada vez mais mulheres possam compreender sua força criativa, sua verdadeira importância e papel no mundo e que este, ainda que seja construído socioculturalmente, pertence, antes de qualquer aspecto ou influência, à natureza e ao espontâneo.


Autora: Fernanda Meireles, mulher, mãe do João de 4 anos, psicóloga e doula, amante da vida e sempre crescente, nova, minguante e cheia como a Lua!



BIBLIOGRAFIA


1)    GUTMAN, Laura. A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra. – o resgate do relacionamento entre mães e filhos. Editora Best Seller, 2010. Rio de Janeiro.

2)     El Instinto Materno Existe? – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

3)     El puerperio  – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

4)     El puerperio em el sigloXXI  – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

5)     El Nacimento de nuestro “ser madre”  – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

6)     La Lactancia savaje  – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

7)     Llegar a casa com un bebé recién nacido  – artigo online disponível em: http://www.lauragutman.com.ar

8)    PICININNI, Cesar Augusto. Expectativas e Sentimentos da Gestante em Relação a seu Bebê - Psicologia: Teoria e Pesquisa - Set-Dez 2004, Vol. 20 n. 3, pp. 223-232 Disponível em: . Acesso em: 08 de jul. 2011.

9)    SZEJER, Myriam & STEWART, Richard. Nove meses na vida de uma mulher – uma abordagem psicanalítica da gravidez e do nascimento. Editora Casa do Psicólogo, 1997. São Paulo.

10)   PAMPLONA, Vitória; COSTA, Tomaz Pinheiro & LEITE, Marcus Renato. Da Gravidez à Amamentação – O dia a  dia de um importante período de nossas vidas. Editora Integrare, 2010. São Paulo.

 

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