QUEM ESCOLHE A DOULA?

A doula como "profissão" surgiu no Brasil em 2003. Até então ser doula era uma vocação. As poucas que existiam viviam da mesma forma como acompanhavam os partos: na sombra. Se "doula" vem do antigo grego e denomina a serva de uma casa, é da serva ficar na sombra, sem alardes. Na antiga Grécia não se questionava se isso era politicamente correto ou não, tínha-se certeza de que uma serva ocupa um lugar menor que o da dona da casa.


A doula portanto é uma mulher que dá apoio. É uma espécie de meio de campo entre a mulher que ela apoia e a parteira que ela auxilia (tipo: limpa o chão, traz mais água quente,

ferve as tesouras, dá suporte físico para a parturiente, lhe dá carinho, etc.). Figura ambivalente, faz um pouco de tudo e de fato não tem especialização, difícil chamá-la de "profissional" porque sua função é justamente a de dar um pouco de tudo sem ser especialista em nada. Num mundo hiperespecializado, uma personagem dessas é útil. O fato de doular não ser exatamente uma profissão nos moldes tradicionais não significa que seja menos relevante.


De fato, no cenário obstétrico do início do século XXI descobriu-se que a doula é figura que faz diferença, quase uma especialista em cuidados. Especialista em algo básico, elementar e humilde que a sociedade capitalista, calculista e impessoal esqueceu: o humano e relacional. Nos ambientes de parto onde a relação com a parturiente não existe, ambiente no qual ela não é tratada como sujeito mas como corpo, a doula compensa esse vazio com sua presença. A doula faz portanto diferença justamente naqueles espaços obstétricos onde falta o elemento humano, onde os profissionais do parto não se relacionam com suas "pacientes" de forma respeitosa.


A humanização do parto então introduz a doula para compensar a falta de humanização nos hospitais públicos e privados. Além disso, sua função foi também pensada para contrabalancear o desequilíbrio de poder na relação médico-paciente, dando força à mulher para tomar suas decisões. A doula é portanto uma carta na manga da mulher.


Uma carta na manga que a mulher pode usar ou não, porque doulas não são indispensáveis. Doulas são úteis onde existe uma carência de respeito, confiança, carinho e informação na relação entre a grávida e seu médico ou a grávida e o hospital com toda sua equipe de ilustres desconhecidos sem vulto e sem simpatia. Diante dessa situação, quem escolhe a doula deveria ser a mulher, justamente por ser a doula concebida como uma figura aliada. Quando a gestante não tem aliados busca um por conta própria. Faz sentido, não?


Felizmente, nem sempre é o caso da gestante estar rodeada pelo "inimigo". Existem, como todos sabem, profissionais excelentes do parto. Quando uma mulher tem a sorte de encontrar um, já achou seu aliado. A doula é ainda necessária? Talvez sim, talvez não. A confiança que uma grávida sente em seu médico ou em sua parteira há de incluir a discussão e eventual escolha da doula, pois a relação com o profissional é mais importante para a mulher do que aquela com a doula, já que quem vai ajudá-la em caso de problemas é a parteira ou o médico, não a doula. E se a relação com o profissional é boa, o elemento humano já está coberto, portanto a doula pode ser figura redundante, a menos que sua presença seja justificada.


Se toda mulher, como a humanização sustenta, sabe parir, ao estar com uma parteira ou médico no quais confia e por quem se sente respeitada, já tem sua equipe de trabalho, a qual inclui seu bebê que está por nascer e seu marido. A adição de uma outra pessoa precisa se encaixar harmoniosamente com o grupo já formado, pois é essencial para um bom desenrolar do parto que a equipe esteja em harmonia.


Se no território hostil e impessoal da relação médico-paciente e gestante-hospital, é importante que a mulher escolha sua doula para ganhar força e confiança, já que o ambiente e os profissionais não se preocupam com ela como pessoa, no território amoroso de uma relação humanizada entre profissional do parto e gestante a escolha da doula é coletiva. Encontra-se aqui a mesma questão que existe em todos os âmbitos de trabalho. Quando contratamos um mestre de obras para reformar nossa casa, se confiamos nele deixamo-lhe a escolha dos pedreiros, eletricistas, encanadores porque como poderíamos nós avaliar adequadamente a competência deles? Agora, se o mestre de obra não é de confiança, se temos a suspeita que, por exemplo, ele vá nos cobrar mais caro justificando que é para pagar seus funcionários ou o material, e se não temos outra escolha a não ser esse mestre de obra, então o que fazemos? O contratamos, mas cuidamos de contratar cada um dos outros profissionais que vão trabalhar com ele.


Qualquer trabalho de equipe, desde os de escritório aos de campo e aos obstétrico, funcionam tanto melhor quanto mais afinada estiver a equipe. Se à mulher cabe parir, à parteira ou ao médico cabe acompanhar criteriosamente e carinhosamente o processo. Nesse cenário harmonioso, à doula cabe se inserir com respeito e cautela para auxiliar a díade profissional-parturiente na obra que estão cumprindo juntas.


Em síntese:

> Se você for parir num lugar e com quem não lhe dá segurança, procure uma doula que lhe dê.

> Se você for parir num lugar e com quem lhe dá segurança, pergunte ao seu profissional qual doula indica. Se você gostar dela, contrate-a; se não gostar, peça nova indicação até encontrar a pessoa certa para você. Mas não contrate alguém que sua parteira ou médico de confiança não conhecem ou não estimam porque não vai ser positivo para seu parto.

 

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags