A BELA GRÁVIDA ADORMECIDA



Atendi recentemente uma grávida que exemplifica um padrão de abordagem à gravidez que muitas gestantes apresentam. Chamarei este padrão de “complexo da Bela Adormecida”.


G. me contatou via msn e esta foi nossa breve conversa.

G.: vc faz parto? te achei num site ontem pesquisando sobre partos.

Adriana: não faço parto. sou psicoterapeuta

G.: humm...

Adriana: e trabalho com parto e nascimento

G.: estava pesquisando porque estou gravida de 9 meses e o meu bebe esta sentado 

Adriana TN: é possível que o bebê esteja sentado porque vc está insegura e indecisa com relação ao parto e/ou à maternidade

G.: serio ..e verdade eu to com medo do parto 

Adriana TN:  então é por isso

Giselle: nossa .......vc e inteligente

Adriana TN:  ele está esperando que vc se decida

G.: to com medo da maternidade tambem de nao me atenderem na hora certa

Adriana TN: maternidade entendo também a maternidade, o se tornar mãe

G.: e bem assim mesmo

Adriana TN: por que não pensou em enfrentar essas coisas antes? e esperou a última hora? quanto falta para o parto?

G.: no inicio nao tinha medo. e pra o dia 26 ate 1 de outubro

Adriana TN: tem umas semanas

G.: verdade

Adriana TN: o que vc deseja fazer?

G.: nao sei

 

Depois disso, G. não me respondeu mais, de qualquer jeito deixei escrito que “se quiser preparar-se para o parto e superar seus medos, podemos fazer consultas online…” e etc., desejando-lhe boa sorte.

 

Por que G. não retornou? Porque toquei no ponto e isso a deixou desconfortável. Ao invés de enfrentar o problema, ainda mais que ele  estava ao alcance da mão, claro e definido, ela recuou. Talvez se sinta culpada, mas poderia ter tentado se livrar desse peso, pois certamente isso iria acontecer se ela resolvesse tomar as rédeas de sua situação.

 

Com certeza, G. é nova. Engravidou e não pensou o que seria, como seria e quando seria. Curtiu a gestação, desejo que assim tenha sido. Se a gravidez foi planejada ela deve ter curtido o momento, se tiver sido pega de surpresa, teve ou que digerir a notícia, no caso ela quisesse engravidar, ou teve que engoli-la e pronto. De qualquer forma, muitas mulheres simplesmente não pensam no depois, por isso G. pode dizer que “no inicio nao tinha medo”. Claro, o parto estava mais longe da China, no início.

 

Talvez, seja melhor assim. Viver cada dia, cada momento, ir entrando devagar na gravidez, mergulhando e se deixando levar pelo desevolvimento da própria barriga, pelo seu crescer e arredondar-se e pelo bebê começando a mexer-se nela…

 

Mas, é natural que uma certa hora o parto comece a aparecer no horizonte. Não no nono mês, porém. Antes. O processo natural da gestação, se fluisse naturalmente, ou seja se as mudanças tanto físicas quantos psíquicas ocorressem, o parto viria à tona, melhor, à mente, bem antes do novo mês. Prova da alienação psicológica na qual vivem tantas mulheres é essa, a de chegar a enfrentar a questão via um problema “lateral”, por exemplo, o bebê está sentado.

 

E o “problema” não é somente o parto, mas a maternidade também, o que é ser mãe, como se vai dar conta de cuidar de um bebê e muito mais. A relação com o parceiro, casados ou não que estejam, sofrerá mudanças, como estas serão? Talvez ele não tenha ainda aceito a gravidez, pode ser que não esteja pronto para se tornar pai…

 

Muitos são os fatores que confluem. Mas todos estão firmementes presos na questão central: a tendência feminina a ser e permanecer uma Bela Grávida Adormecida. O conforto que essa posição oferece permite criar a ilusão de que o bebê é um boneco, que o parto alguém irá fazer por ela e que depois… bem, sei lá o que vai ser depois. Depois é depois.

 

Quando se fala em gravidez e parto como ritos de iniciação não se trata, pelo menos a meu ver, de algo misterioso, charmoso e “na moda”, mas de uma mudança de rota bem simples: é deixar a gravidez fazer seu trabalho não meramente físico (a barriga cresce) mas psicológico também. É permitir-se crescer e se tornar uma mulher adulta, além de uma mãe.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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