O QUE A CESÁREA ME TIROU

August 20, 2019

Já contei que minha pressão subiu na primeira gravidez e a médica simplesmente deixou rolar para ver no que dava; eu achava que era assim mesmo. Desta forma, tive uma pré-eclâmpsia que resultou numa cesárea meio que às pressas, com 35 semanas. A Gabi nasceu com peso de 32 semanas e isso a levou a ficar 25 dias na UTI. Ela foi arrancada de mim, a médica ainda disse que provavelmente ela nem choraria por causa da quantidade enorme de remédios que me deram, mas mesmo assim veio um chorinho, fraquinho.

 

Lembro de todo mundo contando piadas enquanto me cortavam. Mal pude vê-la quando nasceu. Foi às pressas para incubadora, longe de mim. Não pude segurar minha filha quando nasceu, só me deixaram fazer isso depois de mais de uma semana. Não pude amamentar minha filha no meu seio por mais de 10 dias, ela não tinha força pra sugar. Tiraram de mim o primeiro contato com minha bebêzinha.

 

Lembro que a primeira vez que a peguei no colo, lá na UTI, ela abriu os olhinhos e ficou me olhando. Chorei muito, fiquei com remorso de ter sido tão incapaz de manter minha filha no único lugar seguro para ela: dentro de mim.

 

Nos primeiros dias em casa, foi tudo tão estranho! Não sei porquê, mas a gente não se entendia. Juntou o fato de ser o primeiro filho, ao fato dela ser muito pequena (ela veio para casa com 1.985 kg). Para completar, ela já veio com prescrição de complemento de Nan e uma chupeta na boca! Se ela chorava, era só dar a chupeta. Se tinha fome, dava o peito (só mamou meu leite até os 4 meses) e depois a mamadeira.

 

Até que ficou só a mamadeira, que qualquer pessoa podia dar. Não era eu quem alimentava minha filha, era a mamadeira. Demorou para gente se acertar, se entender. Tive baby blues. E - me sinto mal em dizer isso - ter que cuidar dela me fazia sentir pior.

 

Já com a Júlia, tudo foi tão mágico!! Ajudei minha filha a nascer, trabalhamos juntas, e ela saiu de dentro de mim direto para o meu colo. Ficou quase que o tempo todo no quarto comigo. Abocanhou o seio rápido, sem problemas. Nos entendemos muito bem desde o primeiro segundo, em perfeita sintonia. Também tive baby blues na semana seguinte ao parto. Mas dessa vez o que me confortava era ela. Só eu sei a dor que me deu quando "tive" que complementar com mamadeira, naquelas 3 semanas em que meu leite diminuiu. E só eu sei o quanto chorei de alegria quando voltou aos montes.

 

Chupeta? Ela tinha, mas foi para o lixo faz tempo. Nunca usou, só queria o peito, o meu carinho, o meu colo. E é assim até hoje. Uma sintonia linda entre a gente. Amo minhas filhas da mesma forma, igualzinho. Mas sinto ter perdido muita coisa com a Gabi. Claro que com o tempo eu e ela nos entendemos, e hoje ela também é um grude só comigo. Sou mãe e amiga dela. Mas podia ter começado muito antes, no momento do nascimento.

 

O parto normal, além de me realizar como mulher, de me mostrar que sou uma fêmea capaz de parir sua cria, de mudar completamente todos os meus valores. O parto normal me devolveu uma coisa que me foi tirada no nascimento da Gabi. Devolveu-me a magia que existe no ato de parir um filho, que existe no primeiro contato entre a fêmea e sua cria. E é isso que eu tenho com Júlia, magia, sintonia. Graças ao parto, com ela foi no primeiro segundo, instintivo. Com a Gabi tivemos, eu e ela, que aprender com o tempo. Aprendemos, claro, mas teria sido menos sofrido para ambas se tivesse sido também por instinto.

 

Débora Meister tem 29 anos, teve duas filhas, uma nascida de cesárea de urgência em 1999 e outra de parto normal em 2003. É formada em Direito mas sua profissão atualmente é a de mãe. Mora em São Paulo capital.

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