O NASCIMENTO NA TERRA DA UTOPIA

August 21, 2019

Janeiro de 2031

Como todos sabem, nosso país – a Utopia – é um território independente.

 

Michel Odent, MD

   

Apesar de um nível científico e tecnológico elevado, guardamos e até mesmo desenvolvemos nossa principais características culturais. Preservamos, particularmente, nossa capacidade de fazer projetos irrealistas e de transcender os limites do que é publicamente correto. A fim de ilustrar  as características culturais da Utopia, vejamos, por exemplo, a história do nascimento.

 

Em 2010, duas celebridades haviam escolhido trazer seus bebês ao mundo via cesárea. E foi assim que, de repente, o nascimento virou um dos temas principais na mídia. Todos percebemos que as taxas de cesárea aumentavam de um ano ao outro. A opinião vigente se mostrava a favor das diretrizes autoritárias emitidas pela Organização Utópica da Saúde (OUS). Para enfrentar esta situação sem precedente, o diretor da OUS resolveu organizar um encontro interdisciplinar.

 

A palavra foi dada primeiro a um estatístico. Ele apresentou gráficos impressionantes, que tinham como ponto inicial 1950, ano no qual a cesárea segmentária havia suplantado a técnica clássica. Segundo suas extrapolações, parecia altamente provável que, depois de 2020, a cesárea iria se tornar a maneira mais comum de dar à luz. Um obstetra renomado sentiu-se imediatamente obrigado a comentar esses dados. Segundo ele, era necessário ver o aspecto positivo desse novo fenômeno. Ele explicou como a cesárea havia se tornado uma intervenção rápida, fácil e segura. Estava convencido de que, num futuro próximo, a maioria das mulheres evitariam os riscos associados ao parto vaginal. Para comprovar a segurança da operação cesárea, ele apresentou uma série de estatísticas canadenses, publicadas em 2007, sobre 46.000 cesarianas eletivas na 39ª semana devido à apresentação pélvica: não havia uma só morte materna nesta série. Ele também mostrou uma série americana publicada em 2009, de 24.000 cesáreas de repetição: havia somente uma morte neonatal nesta série. Ele explicou que, em muitas situações, uma cesariana programada antes do início do trabalho de parto era de longe a maneira mais segura de dar à luz. Ele resumiu seu ponto de vista dizendo: “ninguém segura o progresso”. Enquanto ele falava, uma parteira expressava seu desacordo em linguagem corporal.                                                       

 

Uma mulher conhecida pela sua eloquência – presidente da BWL (Association for Birth With Love) – imediatamente reagiu aos propósitos do médico. Antes de mais nada, ela perguntou quais critérios ele usava para avaliar a segurança da cesárea. É claro que ele mencionou unicamente os dados de mortalidade e morbidade perinatais, e as taxas de mortalidade e morbidade maternas. Então, a presidente da BWL explicou que esta lista limitada de critérios havia sido adotada há muito tempo, antes do século 21, e que uma ampla diversidade de disciplinas científicas em pleno desenvolvimento sugeria novos critérios para avaliar as práticas obstétricas. Foi quando esse encontro histórico e multidisciplinar mudou por completo.

 

O professor de hormonologia imediatamente respondeu a este significante e convincente comentário. E depois de referir-se a um acúmulo de dados sobre os efeitos comportamentais de hormônios envolvidos na parturição, lhe foi fácil concluir que as mulheres foram programadas para liberar durante o parto um verdadeiro “coquetel de hormônios do amor”. Ele expôs claramente que, durante a hora após o nascimento, os hormônios maternos e fetais liberados durante o trabalho de parto não são eliminados, e cada um deles vem a desempenhar um papel específico na interação entre a mãe e o recém-nato. Graças à perspectiva hormonal, disse ele, podemos hoje interpretar o conceito de períodos críticos introduzido pelas ciências do comportamento: já na metade do século 20, alguns pioneiros haviam entendido que, em todos os mamíferos, logo após o nascimento, existe um curto período que jamais se reproduzirá e cuja importância é fundamental para o vínculo/apego entre mãe e filho. Ele ousou concluir que ficava claro – combinando os dados que trazia com inúmeros estudos epistemológicos que sugeriam que a maneira de nascer tem consequências que perduram pela vida – que a capacidade de amar se desenvolve em grande medida durante o período perinatal. O obstetra ficou boquiaberto.


Depois de tais conclusões proferidas pelo professor de hormonologia, o chefe do departamento de epidemiologia da OUS não pôde ficar calado. Este epidemiologista tinha um interesse particular pela “pesquisa em saúde primal”.     


Ele havia compilado centenas de estudos publicados na literatura médica e científica, que evidenciavam fatores de risco no período perinatal para uma grande diversidade de condições patológicas na idade adulta, na adolescência e na infância. Ele expôs um panorama das pesquisas mais válidas do ponto de vista científico, principalmente as que compreendiam um grande número de sujeitos. Ele resumiu os resultados destas investigações observando que quando os epidemiologistas – adotando uma perspectiva de pesquisa em saúde primal – estudam condições patológicas que podem ser interpretadas como alterações da capacidade de amar (amor aos outros ou amor a si próprio), eles sempre descobrem fatores de risco no período perinatal. Referindo-se aos comentários da presidente da BWL a respeito da necessidade de novos critérios de avaliação das práticas  obstétricas, ele deu ênfase à necessidade de pensarmos a longo prazo. E, finalmente, sugeriu o banco de dados de pesquisa em saúde primal como instrumento para treinarmos a pensar a longo prazo.


Foi então que uma geneticista levantou, insistente, a mão. Ela apresentou o conceito de expressão dos genes como outra maneira de interpretar as consequências a longo prazo de eventos ocorridos nos períodos pré e perinatais. Explicou que, no material genético que o ser humano recebe na concepção, uns genes se tornarão silenciosos, mas sem desaparecer. A expressão dos genes é particularmente influenciada por fatores do meio ambiente durante os períodos pré e perinatais. O obstetra estava cada vez mais atento e curioso, como se estivesse descobrindo um novo assunto. Uma de suas perguntas judiciosas sobre a gênese das condições patológicas e dos traços de personalidade deu à geneticista a oportunidade de explicar que a natureza de um fator ambiental é frequentemente  menos importante do que o momento da interação. Explicou o conceito do período crítico para a interação gene e meio ambiente. A apresentação da geneticista suscitou uma frutuosa discussão interdisciplinar. O epidemiologista aproveitou a pergunta de um clínico geral para ressaltar uma das novas funções do banco de dados de pesquisa em saúde primal, que é de fornecer índices sobre os períodos críticos de interação gene–meio ambiente no caso de certas patologias e certos traços de personalidade.

Um bacteriologista que tinha permanecido calado desde o início da sessão destacou que também, segundo sua perspectiva, os minutos após o nascimento são de máxima importância. A maioria dos participantes não havia até então se dado conta que, ao nascer, o corpo do bebê não possui nenhum micróbio e que algumas horas depois esse corpo já está colonizado por milhões de germes. Os anticorpos chamados IgG atravessam facilmente a barreira placentária, por isso é fácil compreender que os micróbios familiares da mãe – micróbios amigos– já são conhecidos pelo corpo do bebê e, portanto, benignos para ele. Quando o bebê é imediatamente contaminado por germes amigos transmitidos pela mãe, ele fica protegido contra micróbios não familiares e potencialmente perigosos para ele. O bacteriologista também comentou que quando um neném nasce pelo períneo, é garantido que ele seja contaminado desde o início pelos micróbios que habitam a mãe, o que não ocorre com os nenéns nascido por cesárea. Para evidenciar  a importância da questão, ele mencionou que nossa flora intestinal é em grande parte formada nos minutos após o nascimento: consideração importante numa época na qual estamos aprendendo que nossa flora intestinal representa 80% do nosso sistema imunológico.


O bacteriologista concordou quando uma conselheira em aleitamento materno acrescentou que, num meio ambiente adequado, se a mãe e o bebê não forem nem um pouquinho separados, há uma alta probabilidade de que o bebê encontre sozinho o seio da mãe durante a primeira hora pós parto e consuma o primeiro colostro com seus micróbios amigos, seus anticorpos específicos e suas substâncias anti-infecciosas. O consumo do primeiro colostro provavelmente oferece vantagens a longo prazo, pelo menos a de influenciar o estabelecimento da flora intestinal.      


O presidente da OUS estava, obviamente, satisfeito com o andamento do encontro interdisciplinar que ele havia organizado. Pediu a um filósofo ancião, considerado o sábio da comunidade, para concluir. O filósofo explicou que não podemos ignorar uma dimensão especificamente humana, e sobretudo devemos começar a pensar em termos de civilização. Ele se referiu aos dados trazidos pelo epidemiologista. A maioria dos estudos que ele havia apresentado compreendia números enormes, necessários para detectar tendências e efeitos estatisticamente relevantes. Isto nos lembra que, em se tratando de seres humanos, convém esquecer indivíduos, anedotas e casos particulares, para lidar com a dimensão coletiva e, portanto, cultural.  Pelo que foi dito nesse encontro, ficava claro que a humanidade atravessava mares nunca dantes navegados. Hoje em dia, disse ele, o número de mulheres que dão à luz a seus filhos e expulsam suas placentas graças à liberação de um verdadeiro coquetel de hormônios do amor está chegando próximo a zero. O que será da nossa civilização se seguirmos por esse caminho? O que acontecerá depois de duas ou três gerações se os hormônios do amor forem tidos como inúteis durante o período crítico em torno do nascimento?  


Depois de uma tal conclusão, o diretor da OUS perguntou aos participantes o que pensavam da necessidade de controlar as taxas de cesariana. E todos, inclusive o obstetra, estavam convencidos da necessidade de agir, e de agir com urgência.

Foi assim que um segundo encontro foi marcado a fim de encontrar soluções eficazes.


                                         **************************


Ao iniciar a segunda sessão, o diretor da OUS perguntou aos participantes quais sugestões eles tinham para o controle das taxas de cesarianas e outras intervenções obstétricas. O obstetra apresentou um projeto de avaliação da eficácia de uma complexa estratégia de aprimoramento do critério das indicações de cesárea. Ninguém prestou atenção. Um jovem médico recém-formado falou sobre a necessidade de reconsiderar a educação dos estudantes de medicina e das futuras parteiras. A diretora da escola de parteiras disse que, pelo mundo inteiro, haviam existido várias tentativas de renovar a formação das parteiras e dos médicos, inclusive a dos médicos especialistas, mas sem nenhum efeito positivo sobre as estatísticas perinatais. Muitos dos participantes falaram de incentivos financeiros para diminuir as taxas de intervenções obstétricas. Numa intervenção, o diretor da OUS disse que tal solução já havia sido tentada em várias nações, que os resultados não haviam sido exitosos e que as taxas de cesáreas seguiam aumentando por toda parte independente do sistema de saúde em vigor; consequentemente, devemos  considerar outros fatores. Ele também aludiu ao risco de um aumento de partos vaginais prolongados, difíceis e com demasiado uso de substitutos farmacológicos em vez dos hormônios naturais. O que seria inaceitável numa época em que a cesárea havia se tornado uma intervenção rápida e fácil. A prioridade seria fazer com que parir se torne o mais fácil possível para que a necessidade de intervenções obstétricas fique reduzida ao mínimo.


E, de repente, o curso da discussão mudou radicalmente e a etapa crucial do encontro foi desencadeada por uma neurofisiologista conhecida pelas suas pesquisas sobre o comportamento dos mantis religiosa, uma variedade de louva-a-deus. Ela explicou que, havendo juntado os seus estudos científicos com a sua experiência de mãe, havia adquirido uma clara compreensão das necessidades básicas da mulher em trabalho de parto. De um modo geral, disse ela, as mensagens enviadas pelo sistema nervoso central aos órgãos genitais causam inibição. Ela entendeu essa simples regra ao estudar o acoplamento dos mantis religiosos.


Nesta espécie, não é raro que a fêmea devore a cabeça do macho durante a copulação... um meio radical de acabar com mensagens inibidoras! A atividade sexual do macho fica então consideravelmente aumentada assim como a prole. Ela havia compreendido uma regra geral: o efeito inibidor do sistema nervoso central nos episódios da vida sexual. Várias foram as vezes em que ela pôde comprovar essa regra e, fato interessante, uma dessas vezes foi ao parir seu primeiro filho.

 

Certa de que fora graças à redução de sua atividade neocortical que ela havia parido rápido e facilmente, ela lembrou a todos que o ser humano caracteriza-se pelo enorme desenvolvimento desta parte do cérebro chamada neocórtex.  Obviamente, seu neocórtex estava em repouso durante o trabalho de parto, já que ela não recorda vários detalhes do lugar onde deu à luz. Apenas se lembra vagamente que estava numa peça sombria, que não havia ninguém a não ser uma parteira sentada num canto fazendo tricô, e quando numa certa fase do trabalho de parto ela vomitou, a parteira simplesmente disse: “É normal, eu também vomitei quando tive meu segundo filho”. Mesmo que nem tudo estivesse bem nítido em sua memória, ela está convencida de que esse comentário discretamente sussurrado facilitou o trabalho de parto.

 

Com essa figura materna calma e experiente, ela se sentiu plenamente  segura. Retrospectivamente, percebeu que de fato todas as condições estavam reunidas para que o seu neocórtex reduzisse sua atividade. Ela pôde se sentir segura sem se sentir observada, na intimidade da penumbra e do silêncio. A sugestão prática que ela ofereceu era fruto do que ela havia aprendido como neurofisiologista e do que ela havia aprendido como mãe: reconsiderar os critérios vigentes de seleção dos postulantes às escolas de parteiras. O pré-requisito para cursar uma escola de parteiras seria ter a experiência de haver pessoalmente parido sem nenhuma intervenção médica e considerar esse parto como uma experiência positiva.  

 

O obstetra não estava nada de acordo com esta sugestão e declarou que trabalhava há muitos anos com excelentes parteiras que não eram mães. A diretora da escola de parteiras retrucou que todos conhecem boas parteiras que não são mães. No entanto, era o seu dever oferecer a garantia de que as parteiras formadas na sua escola possuíssem certos traços de personalidade que as capacitem para acompanhar uma parturiente, tendo uma presença que atrapalhe o mínimo possível a evolução do trabalho de parto. Por isso, não se pode chegar a melhores critérios do que os sugeridos pela neurofisiologista. E como esta sugestão estava além dos limites habituais da correção política, ela foi imediatamente considerada por quase todos como aceitável na Utopia.

 

Logo depois, uma voz masculina se fez ouvir desde um canto da sala. Era a voz do jovem técnico encarregado de gravar os debates: “ Como alguém de fora, posso fazer uma pergunta ingênua? E se o pré-requisito para se formar em obstetrícia também fosse ter tido a experiência de haver pessoalmente parido sem nenhuma intervenção médica e considerar esse parto como uma experiência positiva?

 

No mesmo instante, foi como se todos estivessem na situação de Arquimedes, gritando “Eureka!”...

 

Um inesquecível entusiasmo coletivo! Para todos os participantes, ficava óbvio que tal projeto era suficientemente irrealista para ser adotado sem maior discussão e sem  demora na terra da Utopia.


Um comitê foi imediatemente formado para organizar o período de transição que seria de 15 anos.


                                       *************************************


Hoje, em janeiro de 2031, podemos apresentar estatísticas válidas, já que o período de transição terminou em 2024. Estas estatísticas são impressionantes. Nossas taxas de mortalidade perinatais são tão baixas quanto as dos países com um nível de vida comparável. Os índices de transferência para unidades pediátricas diminuíram consideravelmente. O fórceps não foi utilizado uma só vez nos últimos quatro anos. Sendo a prioridade evitar trabalhos de parto longos e difíceis por via vaginal, ventosa e substâncias medicamentosas são rarissimamente utilizadas. E, principalmente, as taxas de cesárea são três vezes menores do que antes do período de transição. O índice de aleitamento materno até os seis meses é superior a 90%. Um psiquiatra infantil já notou que o autismo é hoje menos frequente do que no passado. Se o respeitável filósofo – o sábio da comunidade – ainda estivesse conosco, ele diria que agora, na terra da Utopia, a maioria das mulheres dão à luz a bebês e placentas graças à liberação de um “coquetel de hormônios do amor”.     

 

O novo diretor da OUS e seu gabinete estão preparando artigos para a  imprensa internacional. Eles organizaram um concurso para selecionar o melhor slogan de cinco palavras capaz de transmitir de maneira concisa e efetiva o essencial da nossa mensagem. O slogan selecionado foi:


SOMENTE A UTOPIA PODE SALVAR A HUMANIDADE!

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags