COMO VACAS PARA O MATADOURO OU: A HIPOCRISIA NA QUAL VIVEMOS

August 22, 2019

Humanizing birth

means understanding

that the woman giving birth is a human being,

not a machine and not just a container for making babies.

Showing women

---half of all people---

that they are inferior and inadequate

by taking away their power to give birth

is a tragedy for all society.

Marsden Wagner

 

O caso que ocorreu no dia 2 de Julho (de 2011) no Rio de Janeiro é abominável. Uma mulher, em trabalho de parto e com sangramento, chegando ao Hospital Miguel Couto, na zona Sul, foi encaminhada por um médico para o Fernando Magalhães, na zona Norte da cidade. Lá a mulher, Manoela dos Santos, de 29 anos, foi submetida à cesárea com quadro de descolamento prematuro da placenta. Seu bebê nasceu morto.

 

O que podemos comentar a respeito? A primeira coisa que me vem à mente são as palavras do “Comunicado da FEBRASGO em Relação Às Casas de Parto” que, reunida em Brasília dia 12 de Junho passado, “reitera sua posição contrária à implantação das chamadas “Casas de Parto”.

A FEBRASGO – continua o documento – reitera serem inadmissíveis, além de serem temerárias sob o ponto de vista materno-fetal, as tentativas insistentes e freqüentes de afastar o médico obstetra, profissional que detem os maiores conhecimentos e habilidades do processo do atendimento ao parto.” Assinam, além da diretoria da FEBRASGO, uma longa lista de associações, todas compactas em formação tartaruga como ensina o exército romano (http://pt.wikipedia.org/wiki/Forma%C3%A7%C3%A3o_tartaruga) na defesa da Imprenscindibilidade do Médico. Não há argumentos. Há dogmas e decretos. Amém.

 

Pergunto, então, aos senhores da FEBRASGO o que fez essa figura Superior e Insustituível na hora em que deveria demonstrar ao mundo sua Necessidade e Competência? Rabiscou no braço de uma grávida em franco trabalho de parto as linhas de ônibus para que fosse do outro lado da cidade parir seu filho.

 

O que é realmente imprenscindível, senhores Doutores, é aquele Respeito às mulheres que suas academias não ensinam. Imprenscindível é desenvolver entre seus membros aquela Empatia essencial no trato com o outro. Imprenscindível é encontrar de vez uma solução entre a frieza necessária para operar sobre o corpo do outro e a Sensibilidade para com o outro. Imprenscindível é ensinarem a esses estudantes de Medicina como lidar com suas Emoções sem perdê-las e desenvolver um conjunto elementar de Habilidades Relacionais para não decairem na paródia do Juramento de Hipócrates.

 

Outra grávida carioca, Marina Peres, de 23 anos, que fazia seu pré-natal na Maternidade Escola do Rio de Janeiro em Laranjeiras, desistiu. “Maternidade cobaia” ela a batizou. Sua presença lá não passava de mero corpo opaco que médicos e estudantes estudavam e analizavam. Suas perguntas caiam no vazio, ela era sequer olhada. Futuros médicos e médicas, com ares de superioridade, faziam piadas e riam entre si exibindo elitismo e grosseria.

 

Cadê sua humanização? E ainda têm a coragem de chamar seu trato de humanizado? Por que usam anestesia? Não fazendo a mulher sentir, estão livres para fazer com ela o que bem entenderem. Isso não é humanização. É manipulação. E quando sorrisos e boas maneiras acontecem é porque cada minuto de seu tempo é pago com várias notas de 100 reais. Triste realidade. Se a mulher não tiver suficiente economias para investir, ela não passa de “vaca para o matadouro”. Mais uma, com número e tudo, para ocupar um leito, para incomodar com seus gritos, para atrasar seus compromissos.

 

Nessa sociedade autoritária na qual vivemos, é sobre as costas das mulheres que os fardos pesam. Qual sorte terá o tal médico plantonista do Miguel Couto? Será certamente bem protegido e cuidado por seus colegas.

 

E vamos um pouco além: cadê o pai daquele bebê? Onde estava o co-responsável por aquela criatura que na hora de seu nascimento haveria de estar presente para proteger sua mulher e seu filho? Cadê o genitor que deveria mandar o plantonista do Miguel Couto para aquele lugar e exigir que sua mulher fosse internada imediatamente? Que deveria gritar e berrar, fazer um escândalo digno de país civilizado para exigir que seus direitos fossem cumpridos?

 

E mais um passo à frente, para completar o quadro de hipocrisia no qual vivemos. Ainda tem-se a pafúrdia de chamar de criminosas as mulheres quando estas não querem gestar e parir uma criança que elas não podem sustentar e que ninguém vai ajudá-las a criar. Sob um outro ponto de vista, talvez em outra Era da Civilização, isso poder-se-ia chamar de responsabilidade, não de crime. Mas estamos numa sociedade hipócrita e machista. Então é crime.

 

O réu é sempre a mulher. Quem se dá mal é ela e ai de levantar sua voz. Quando ela engravida é porque quis, ainda no esquema bolorento e ridículo do pobre Adão e da tentadora Eva. Cabe-lhe se virar. Neste rastro, vão dizer agora que a culpa pelo ocorrido outro dia no Rio de Janeiro é da tal grávida que resolveu ir ao hospital errado e acabou perdendo seu filho.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags