HUMANIZAÇÃO DO PARTO E FEMINISMO

August 22, 2019

O movimento pela humanização tem no Feminismo uma de suas principais  inspirações. Da anterior e inacabada luta pela emancipação das mulheres pôde resultar, de um lado mulheres que levam a sério o que querem, buscam informação, questionam e agem autonomamente; do outro, profissionais que levam a sério a experiência delas, que podem ouví-las e questionar modelos de atendimento pré-estabelecidos. Pois, se as mulheres fossem meros objetos (mesmo que “delicados”) da ação obstétrica elas mereceriam somente impessoal piedade por suas “dores de parto” e seu “destino cruel de mulher”; mas quando são vistas como sujeitos sua voz pode ser ouvida e o dialogo tem condição de nascer.

 

Parto: o privado que se torna político


A humanização do parto surgiu inicialmente como o movimento de um pequeno grupo de profissionais espalhados pelo território nacional que, alarmados com a condição obstétrica que presenciavam em sua prática diária, reuniram-se com o intuito de estruturar uma rede que apoiasse as necessárias mudanças no atendimento e compreensão do parto, oferecendo uma alternativa à tendência avassaladora da tecnologia  obstétrica contemporânea.


Num segundo momento, houve a entrada das mulheres, geralmente nas vestes de mães que, por consequência de partos felizes ou infelizes, elaboraram importantes reflexões e questionamentos. Com a inserção delas a humanização do parto se configura como um movimento social, não mais exclusivo de um grupo de profissionais sensibilizados.

O que ambos os grupos fazem é tirar o parto do privado do consultório médico para discutí-lo publicamente. Este deslocamento tem importantes reflexos sociais e políticos porque questiona as relações de poder e as hierarquias tradicionais, o lugar social das mulheres, a ética e cidadania de ambos.

A humanização do parto é um desafio tanto para os profissionais quanto para as mulheres. Se eles têm de abdicar de seu papel de inquestionáveis detentores do saber, elas têm de abrir mão da passividade de paciente. Esta transição implica para ambos um aumento da carga pessoal de responsabilidade, colocando-os em primeira pessoa no papel de agentes autônomos e conscientes de sua ação social e/ou profissional.


Os debates acontecidos desde então no âmbito público são a prova de que o parto é um fato da vida feminina e da comunidade como um todo que não pode e não deve ficar restrito ao gabinete do médico. A inclusão das mulheres no debate amplia a esfera de cidadania e participação cívica. Mulheres gestantes conscientes são cidadã ativas e exigentes. Assim, a humanização do parto promove a emancipação feminina e o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática e participativa.


Contextualizando saberes e práticas

É comum associar humanização do parto a parto natural. Mesmo existindo um generalizado consenso no movimento pela humanização do parto a respeito da excelência do parto natural desprovido de intervenções desnecessárias e provido de protagonismo feminino, reduzir humanização a parto natural desvirtua o propósito maior deste projeto social e obstétrico.

O que, em primeiro lugar, a humanização do parto proclama é a inutilidade e o dano psíco-físico do seguimento acrítico de rotinas obstétricas durante o parto (e o pré-natal). São postas em questão as normas que, como por decreto lei, vêm sendo aplicadas de forma generalizada e impessoal, permanecendo o hospital e os profisisonais  atores cegos e inconscientes de um agir sem sentido. Esta realidade certamente denuncia a falta de competência, recursos e habilidades político-profissionais das administrações hospitalares nos serviços público e privado de saúde, mas, é também necessário perceber que fazer uso de recursos sem avaliar corretamente sua necessidade e eficácia resulta danoso e denigra a vocação originária da obstetrícia.

Aplicar autoritariamente modelos de conhecimento e de ação abstratos e impessoais é um traço característico do pensamento patriarcal logocêntrico que não sabe dialogar com a vida, com o outro, com os desejos, contextos e nuanças. Este pensamento dita regras universais e as impõe, visando formatar a realidade segundo um modelo a ela externo: as Tábuas da Lei descem do céu das hierarquias consagradas e devem ser aplicadas sem discussão.

Este estilo de pensamento e de organização social produz pessoas que não sabem refletir e discriminar, não podendo contextualizar sua ação e seu saber, porque não sabem situar-se no fluxo dinâmico das mudanças científicas, sociais, pessoais... e obstétricas. Acompanhar um parto, observar seu desenrolar, estar ao lado, ir junto, progredindo como progride o trabalho de parto que é único e totalmente pessoal, individualizado do tamanho e da forma de cada mulher, se torna uma tarefa impossível no conceito e na emoção do profissional formatado no modelo padrão da obstetrícia contemporânea.

É uma contribuição essencial da reflexão feminista ter mostrado que todo saber é contextualizado, nasce de uma específica interseção entre diversos fatores social e culturalmente determináveis. Não existem tábuas de lei que não precisem ser revistas, não existem conhecimentos que não precisem ser adaptados às diversas realidades. Contexto é exatamente isso: colocar as coisas no lugar delas neste momento, com estas pessoas, dentro destas coordenadas específicas.


Individualização e relação

A contextualização do parto revela que ele é um evento único, que cada parto é um parto diferente apesar do processo fisiológico ser o mesmo para todas as mulheres. Permite compreender também que este processo está inserido na realidade psíco-física da mulher e que irá acontecer num determinado contexto sócio-relacional. O parto é fruto também de uma relação: aquela da mulher consigo mesma, com seu bebê e com o ambiente que a rodeia antes e durante o parto. A qualidade das relações interpessoais é um dos elementos implicados na qualidade do desenrolar do parto; quem tem olhos para ver, vê. Humanização do parto significa então atendimento individualizado que só pode ser realizado apropriadamente por profissionais individualizados capazes de se relacionar, abrindo-se para o outro (no caso, a outra), na troca dinâmica do dar e receber que caracteriza as relações saudáveis. O Feminismo nos mostrou que há diversos Feminimos, porque diferentes são as mulheres, seus contextos de vida e seus momentos pessoais. Assim os partos também são diferentes e sua unicidade deve ser respeitada, exigindo competência humana, inteligência técnica e emocional para colher e trabalhar com a singularidade de cada caso. É por isso que humanização do parto é mais e maior do que parto natural.


Consciência e ética social

Enquanto o pensamento patriarcal abstrato e impessoal permite que o indivíduo se omita no campo da ética, porque lhe tira toda a responsabilidade individual ao torná-lo um simples seguidor da Lei, o saber contextualizado e personalizado coloca o sujeito de frente para a questão ética de seu agir. Pois a ética não é efetiva quando permanece como sistema asséptico e universal, ao contrário, ela surge da urgência do momento, da vida à flor da pele - o que acontece somente contextaulizando-se, inserindo-se na relação como sujeito e objeto, ativo e receptivo ao mesmo tempo. Este mergulho permite a emergência da questão ética, promovendo a consciência como instrumento discriminador e avaliador do contexto e de suas exigências. A humanização do parto só pode ser um processo de ampliação da consciência, de empoderamento progressivo dos agentes envolvidos e de sua autonomia frente a sistemas estereotipados e embrutecedores.


Logo, rotinas autárquicas e aplicadas indiscriminadamente inibem o despertar da consciência e o agir ético. A imposição de normas pré-estabelecidas exclui a emergência da singularidade do momento individual perdendo o que há de mais precioso no humano: sua unicidade.


Ética social e valor de consumo


A geral impessoalidade das relações sociais que, mesmo em meio a simpáticos sorrisos corresponde ao atendimento obstétrico padrão, é reforçado pela crueldade do geral sistema econômico no qual o parto é visto pelo seu valor de consumo. Todos sabemos que a cesárea deve seu sucesso graças também ao status social e econômico construído entorno dela, enquanto o parto normal é jogado para as classes carentes que, tendo que recorrer ao sistema público de saúde, devem se contentar com o “parto dos pobres”. Entretanto, ambas as classes sociais na realidade se submetem: uma à elegante e branca cesárea, a outra ao deselegante e avermelhado parto normal.


A realidade espinhosa do parto humanizado oscila entre o projeto social que poderíamos chamar de “parto humanizado para todas” e aquele de “parto humanizado para as que podem pagar”. Vale lembrar e  frizar que o movimento pela humanização do parto não promove um novo tipo de parto, não tendo descoberto nenhuma modalidade exótica de dar à luz, cujo preço tenha razão de flutuar conforme as modas do momento. O parto humanizado há de ser um direito universal de todas as mulheres de qualquer classe social, idade, cor, origem geográfica; é trair o sentido íntimo da humanização do parto transformá-la em um novo bem de consumo.


Do que adianta promover o parto natural fisiológico e “animalizado” quando somente as elites podem comprá-lo? Bater na tecla do parto humanizado saudável e seguro para mãe e bebê sem questionar o valor monetário que está sendo cobrado é como mostrar o pão para o faminto que não tem como alcançá-lo. Brandir o discurso do indiscutível valor sócio-afetivo e médico do parto natural como justificativa para seu alto preço é esquecer da profissão de fé no valor humanitário da medicina que todo médico endossa ao ingressar na profissão. Apelar para os altos custos da vida moderna também não se  sustenta, uma vez que este discurso vale também para as grávidas e suas famílias.


A realidade hoje, é que uma mulher de classe média vive refém de uma escabrosa situação: se ela tiver condições para arcar com mais uma despesa extra mesmo que parcelada terá de enfrentar a via crucis do parto normal hospitalar do serviço público ou aquela da cesárea desnecessária e conveniente do médico do plano de saúde. Assim, se um dos objetivos da humanização é simplificar o atendimento ao parto, permitindo o emergir de sua natureza “animal” e instintiva, é um contrasenso torná-lo acessível somente a uma pequena elite.


Humanização do parto implica também em consciência social e resgate da essência da medicina: proporcionar uma melhor qualidade de vida a todos. Portanto, quando falamos em humanização do parto devemos ter os pés no chão e nos perguntar se estamos falando de um parto acessível a todas. Este é mais um ponto em comum com o Feminismo, cuja luta é e sempre foi em prol de todas as mulheres, colocando inevitavelmente em cheque as injustiças sociais nas quais elas estão mergulhadas.


Direitos das mulheres em obstetrícia


Por este caminho as mulheres descobrem uma zona antes meio apagada quando ingressavam na gravidez: elas têm direitos.


Direito a exigir informações e explicações compreensíveis


Direito a partilhar das decisões relativas às intervenções


Direito de escolher sobre como elas querem parir


Direito de ter seus filhos junto no pós-parto


Direito de questionar as rotinas obstétricas e neonatais


Direito de serem ouvidas e respeitadas


Direito a um ambiente de parto agradável, seguro e tranquilizador


Direito a serem ativas durante o parto


Direito de gritar, andar e fazer tudo o que seus corpos, mentes e almas lhes sugerirem durante seu parto


Direito de assumir suas responsabilidades como mulher adulta


Enfim, direito a um parto humanizado que caiba no bolso delas!



Protagonismo e consciência social


O engajamento na humanização do parto traz consigo como consequência  uma maior consciência do valor social da própria ação individual e implica desistir e ultrapassar a tendência muito humana e comum existente nas sociedades hierárquicas, de buscar o monopólio e o poder pessoal ao invés de partilhar e agir em prol do bem comum.

Uma vez que se começa a aprofundar o assunto descobrem-se as raízes sociais, culturais e psciológicas que sustentam o tradicional paradigma obstétrico das quais ninguém pode escapar; de modo que a humanização do parto leva a um geral questionamento das estruturas de poder tanto sociais quanto psicológicas que sustentam a identidade individual. É uma contradição insustentável querer mudar o sistema obstétrico sem questionar o próprio agir profissional e a qualidade das relações que se estabelece com colegas e grávidas. Da mesma forma, seria impossível uma mulher ter um parto ativo mantendo-se passiva e submissa durante todo seu pré-natal.

A mulher que for sujeito de seu parto, independentemente se este tenha sido natural ou não, alcança uma consciência e vivência diferenciadas de sua maternidade, terá no mínimo descoberto novas e encorajadoras potencialidades em si mesma, das quais não tinha consciência anteriormente. O mesmo vale para o profissional de saúde que sai amadurecido de cada parto humanizado que atende, tendo feito experiências que lhe permite gestar novos conceitos em obstetrícia e portanto novas práticas, a nova sabedoria do paradigma a ser criado.


O Feminismo da humanização do parto

O Feminismo da humanização se torna ainda mais evidente quando pensamos que este movimento é formado por dois grandes pólos de ação e representação: os profissionais da área de saúde e as mulheres. Se as mulheres não estivessem envolvidas, a humanização nada mais seria que uma reforma obstétrica que desceria sobre o parto das mulheres como novos decretos lei, tão autoritários e incompreensíveis como a rotina anterior. A presença das mulheres cria a necessidade de estabeler um dialogo, e, mesmo que elas dêem seus primeiros passos titubeando ou decorando as fórmulas de seus heróis pessoais, elas estão caminhando na direção da realização de um novo tipo de relação que põe fim àquela tradicional baseada na autoridade de um e na submissão ignorante da outra. Este processo é irreversível e se insere no mais amplo projeto de cidadania que resulta num povo maduro e consciente.


Os protagonistas do movimento pela humanização do parto, mesmo em seus pequenos passos diários estão contribuindo para a criação de um mundo melhor no qual seja possível conciliar criativamente e criticamente o respeito pelo outro, a competência profissional, o uso pontual e eficiente dos recursos disponíveis, o amadurecimento humano, a ética e a autonomia, a responsabilidade individual e a liberdade de escolha.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags