A DOR DO PARTO: UMA QUESTÃO FEMINISTA

August 23, 2019

A dor do parto é universal: dói dar a luz. Já que esta é uma experiência tão comum, isto poderia ser visto como algo reconfortante, um elo entre as mulheres, uma verdade fundamental que confirma nosso papel biológico especial e afirma a importância de nossa contribuição para a sociedade. Com freqüência, entretanto, esta dor é vista como um agouro, uma imposição desnecessária, uma aflição que devemos suportar como o preço por termos filhos.

 

Esta visão, sustentada pela percepção de que a dor é um sintoma de males e doenças,

permitiu que os médicos homens nos convencessem de que a dor é dispensável durante o parto, e que ela não tem nenhum valor, um mal a ser curado com tratamentos modernos e tecnologia. Esta visão da dor do parto como uma aflição parece prevalecer mais entre as mulheres ocidentais. Em muitas culturas, a dor do parto é aceita como necessária, uma parte desconfortável do parto, e não é vista como um problema insuperável. Talvez o fato de que estas mulheres são geralmente cuidadas por outras mulheres, que entendem o parto e seus benefícios misteriosos para a psique feminina, seja a razão central pela qual a dor não é temida, mas aceita. A forçosa mudança do parto dos lares para o hospital estabeleceu o parto como um ato médico e a pronta disponibilização de drogas e tecnologia em hospitais encorajou seu uso (Wagner 1994).

 

As mulheres, com freqüência sem a companhia de pessoas que possam lhes fornecer suporte com bons conhecimentos, e em situação vulnerável por seu estado emocional e hormonal, estão prontas para aceitar mensagens sedutoras dadas por "experts" de que a dor do parto não tem benefícios. Muitos destes "experts" são homens que tem uma visão biológica diferente das mulheres como resultado de informação reprodutiva masculina. Como os homens jamais darão à luz, eles não têm necessidade de instintos de parto inatos, e, portanto, não podem ter um profundo senso de intuição e entendimento do processo de parto. Talvez isto explique porque os homens com freqüência se sentem desconfortáveis ao redor de mulheres em trabalho de parto - eles são incapazes de se conectar com o processo num nível instintivo. Desconfiança e medo podem ser criados em tal clima.


As mulheres em trabalho de parto têm uma grande necessidade de se sentirem “nutridas” e protegidas, para aumentar a probabilidade de um resultado seguro para elas e seus recém nascidos. Esta necessidade de depender dos outros deixa as mulheres propensas a abusos - se elas confiarem nas pessoas erradas durante o parto, elas podem terminar em um ambiente inseguro com resultados não desejados.


As mulheres foram enganadas para confiar nas pessoas erradas durante o parto? Colocamos nossa fé em médicos homens quando nós deveríamos ter tido mais fé em nós mesmas e encontrado companhias femininas para o parto e nascimento?


O aumento incessante nas intervenções no parto certamente sugere que este é o caso. A constante pressão para expandir o uso de drogas durante o parto salienta outra inconsistência: as mulheres grávidas são encorajadas a evitar drogas durante sua gravidez, mas quando o trabalho de parto começa, oferecem-lhes várias medicações para alívio da dor, como se estas não tivessem nenhum efeito sobre o bebê que nem nasceu! As mulheres são encorajadas a usar medicações para alívio da dor para seu próprio bem com pouca referência aos possíveis efeitos colaterais para o bebê. De fato, muitas mulheres quando descobrem que estas drogas cruzam sim a placenta, são motivadas a tentar métodos não invasivos de alívio da dor, já que prejudicar o bebê (mesmo que pareça uma possibilidade remota) não é bem vindo. Muitas mulheres descobriram que a dor do parto é suportável se ela significa uma saúde melhor para o bebê.


Como não há provas de que nenhuma droga é segura para os bebês durante a gravidez ou trabalho de parto (Haire 1994), prevenir um possível dano para nossas crianças faz com que seja necessário que as mulheres uma vez mais aceitem que a dor deve ser um componente necessário do parto. Além disso, a dor durante o parto pode oferecer algumas vantagens positivas para o bebê, já que sua presença é uma parte integrante do processo e, portanto, é improvável que seja uma adição sem algum beneficio biológico. Se há algum propósito biológico para a dor, então o entendimento deste papel pode alterar atitudes para sua ação, assim permitindo insights no gerenciamento do trabalho de parto que melhorem ao invés de bloquearem esta entidade fisiológica.


Então, se há dor no trabalho de parto, qual é seu propósito, e como podemos nos beneficiar dela?


Todos os animais nascem com instintos inatos que servem para assegurar que a espécie sobreviva e aumente. Dois corpos de informação giram ao redor de habilidades de sobrevivência e comportamentos reprodutivos, e estão implantados nas partes mais profundas do cérebro primitivo no inicio da vida fetal. Cada um é caracterizado por sistemas de respostas automáticas, utilizando vários hormônios para programar os mecanismos fisiológicos envolvidos. Da perspectiva da natureza, ambos os sistemas devem ser simples e confiáveis. Os comportamentos reprodutivos, portanto, devem ser inerentemente eficientes e feitos de tal forma que todos os animais (exceto aqueles com defeitos indesejáveis) possam conseguir ter filhotes saudáveis. Colocado de maneira simplista, eles devem ser “à prova de falhas” - todos têm o potencial de se reproduzir. Além disso, para encorajar atividade reprodutiva suficiente, não só para fornecer estoque de reposição, mas sim um excesso que garantirá número excedente, deve haver algumas recompensas intrínsecas para os participantes.


Estes são pontos importantes que a mulher deve considerar. A gravidez evolui sem “assistência” exterior e o parto é similarmente direto, feito inteligentemente para ser o mais eficiente quanto possível. Virtualmente todas as mulheres têm o potencial de parir de maneira fácil e segura, e nenhum conhecimento especial ou aprendizado é necessário. O intrincado sistema de hormônios, num equilíbrio requintado, assegura sucesso quase todo o tempo. O pequeno número de falhas é necessário para assegurar o sucesso reprodutivo entre o estoque de reprodutores mais fortes.


Além disso, as recompensas são intrínsecas, para encorajar futuras gravidezes. Muitas destas recompensas vêm na forma de prazeres sexuais, porque como se sabe a reprodução tem tudo a ver com sexo. A inclinação natural das pessoas de manter suas vidas sexuais privadas também foi contra as mulheres em idade reprodutiva, e tornou a discussão sobre a sexualidade inerente ao parto e amamentação difícil. Se o parto não fosse sexual, talvez tivesse sido mais fácil para as mulheres expressarem suas necessidades e para os outros reconhecerem a importância de preservar o fluxo fisiológico natural do processo: manter a natureza sexual do parto “fora de vista” torna mais fácil evitar confrontar estas questões.


A principal necessidade da dor no parto está centrada na necessidade de a mulher saber que o trabalho de parto começou, para que ela possa se retirar para um local seguro enquanto o processo se desdobra. A necessidade de um local seguro é crucial para o bem estar tanto da mãe quanto do bebê, já que ambos estão imobilizados e vulneráveis durante o evento e imediatamente depois (Odent, 1994). Os comportamentos típicos de “aninhar” de uma mulher grávida demonstram esta necessidade instintiva de preparar um local seguro. É irônico que de todas as espécies animais do planeta, os seres humanos sejam os únicos que fazem seus ninhos em um lugar e depois vão para outro lugar, um hospital, para parir. Esta mudança fundamental no local do parto pode explicar as dificuldades experimentadas particularmente pelas mulheres ocidentais durante o parto. De fato, Dick-Read identificou estes problemas nos anos 30 e 40. Ele corretamente diagnosticou que as mulheres tinham medo e eram  ignorantes e que era isso que estava atrapalhando seus partos. Entretanto, ele sugeriu uma solução médica de aulas e educação ao invés de atacar a causa subjacente de que as mulheres estavam sendo transferidas de suas casas para hospitais para o nascimento de seus bebês.


O papel da ocitocina


A ocitocina é o hormônio central em todos os aspectos do comportamento reprodutivo. Em cada área da reprodução (relação sexual, trabalho de parto e parto, amamentação) ela funciona do mesmo modo e é afetado pelos mesmos fatores inibidores. Um breve sumário das ações da ocitocina está listado abaixo:


Ocitocina - no ciclo sexual:

• Causa as contrações uterinas.

• Inicia comportamentos de “tomar conta” nos homens e mulheres.

• Causa uma ação de “sugar para dentro” no colo do útero - ajuda no transporte do esperma.

• Aumenta a produção de esperma e adianta a ovulação.

• Após o orgasmo, reduz a ansiedade e a depressão.

• Aumenta a temperatura da pele.

Durante a gravidez e parto:

• Contrações uterinas freqüentes ajudam a manter a gravidez e a estimular o fluxo sanguíneo da placenta.

• A pressão do bebê contra o colo do útero durante o trabalho de parto estimula as contrações.

• A distensão dos músculos do assoalho pélvico e a abertura da vagina mantêm as contrações, e há a necessidade de expulsar o bebê para fora no segundo estágio.

• O estiramento do períneo causa um aumento de ocitocina logo após o parto - ajuda na manutenção do tônus uterino.


Logo após o parto:

• A estimulação dos mamilos ou outros locais sensíveis à ocitocina causam a ejeção do leite.

• A liberação de ocitocina reduz o risco de hemorragia.

• Ajuda o útero a voltar ao seu tamanho anterior à gravidez.

• Aumenta os comportamentos nutriz da mãe.

• A temperatura aumentada do seio durante a amamentação é reconfortante e protetora para o bebê.


Todas estas ações da ocitocina estão inter relacionadas, e acontecem através de todos os aspectos da reprodução. Portanto, aqueles fatores que inibem a liberação de ocitocina em uma área do comportamento reprodutivo terão os mesmos efeitos em outras áreas. Por exemplo, como Michel Odent diz "o local correto para parir seria o local correto para fazer amor." (Odent, 1982). Esta interconexão é geralmente omitida, especialmente por aqueles que acham que a noção de que o parto e a amamentação são eventos sexuais é de mau gosto e até mesmo chocante. Nossa má vontade em reconhecer a sexualidade inata do parto tem sido um importante fator na contínua humilhação e degradação das mulheres ao parir.


Ao nos recusarmos a aceitar o papel central da ocitocina, nós nos liberamos de encontrar meios eficazes de assegurar seu fluxo seguro e sem impedimentos, e no processo infligimos partos desnecessariamente longos e dolorosos às mulheres. As “falhas” resultantes durante o parto têm sido atribuídas a uma fraqueza inerente às mulheres, quando deveriam ser reconhecidas como uma falta de entendimento da ação dos hormônios básicos do trabalho de parto e uma má vontade em fornecer as condições necessárias para sua liberação desimpedida.


A liberação da ocitocina é acionada durante o parto por diversos fatores:

• Distensão da vagina.

• Estimulação do clitóris.

• Pressão no colo do útero.

• Distensão dos músculos do assoalho pélvico.

• Estiramento do períneo durante o coroamento.

• Estimulação dos mamilos.

A liberação da ocitocina é inibida por influências diretas:

• Medo e ansiedade.

• Injeções anestésicas, que fazem “dormir” as áreas sensíveis à ocitocina.

• “Inundação” dos locais receptores por doses exógenas de ocitocina --- que reduzem a sensibilidade a ocitocina endógena.

• Episiotomia - reduz o estiramento do períneo.

• Separação da mãe e do bebê, com a perda resultante de contato pele com pele.

E influências indiretas:

• Crenças e atitudes, que podem levar à vergonha, embaraço.

• Lembranças, ex.: abuso sexual anterior - levando ao medo e à ansiedade.

Quando a liberação da ocitocina é inibida, os resultados são:

• Falha para atingir o orgasmo.

• Sentimentos de “nutrir” diminuídos/falta de comportamentos de “tomar conta”.

• Diminuição do ritmo do trabalho de parto.

• Segundo estágio prolongado.

• Maior probabilidade de hemorragia pós-parto.

• Problemas com a amamentação.


De onde vem a dor?

A fonte básica de dor durante o trabalho de parto é ação que está acontecendo no colo do útero. O útero possui nervos sensoriais que apenas registram dilatações e lacerações. Uma laceração significa uma ruptura uterina - um evento muito raro, mas que representa risco de morte para o qual um sinal claro é necessário. A dilatação do colo do útero é a ação primária durante o trabalho de parto, e indica que o parto está acontecendo. O grau variável de dilatação e o grau variável de dor resultante são um mecanismo para a mulher para que ela saiba o quanto o trabalho de parto avançou.


Como o útero está cercado de outras estruturas dentro do abdômen, pode haver mensagens de nervos sensoriais, algumas vezes dolorosas, de outras fontes, tais como pressão sobre a bexiga cheia ou a compressão de um nervo devido à posição da cabeça do bebê. Estas fontes de dor têm uma qualidade diferente e estão geralmente presentes entre as contrações, indicando algo a mais que precisa de atenção.


Endorfinas


A necessidade biológica para a dor no trabalho de parto é mediada pela capacidade de o corpo produzir endorfinas nos momentos de stress físico agudo. Este fenômeno é bem conhecido entre atletas e aqueles que fazem exercícios aeróbicos regulares. Os efeitos benéficos e a natureza protetora das endorfinas são úteis para melhorar a performance, já que elas são similares aos opiáceos em sua estrutura química e ação, e têm a habilidade de causar dependência naqueles que experimentam a liberação de endorfinas com freqüência.


As endorfinas oferecem vários benefícios para as mulheres grávidas e em trabalho de parto:

• Elas são analgésicos naturais, produzidas em resposta ao trabalho pesado da gravidez e o stress das contrações uterinas.

• Comportamentos de introversão são encorajados, úteis para a auto-consciência e proteção.

• Elas criam uma sensação de bem estar e promovem sentimentos positivos.

• Elas podem ser um importante elo na ligação mamãe-bebê - criando um clima emocional positivo para o primeiro encontro com o bebê.

• Os sentimentos de conquista e satisfação com o parto aumentam a confiança e a auto estima.

• O efeito amnésico das endorfinas permite que as mulheres esqueçam as piores partes do trabalho de parto dando um incentivo para que se  reproduzam novamente.

• Elas oferecem uma recompensa natural para o esforço envolvido em parir.


Da perspectiva do bebê, as endorfinas também podem ser importantes, assegurando que a mãe está se sentindo positiva e nutriz quando eles se encontrarem pela primeira vez. Os hormônios produzidos no corpo do bebê em resposta ao trabalho de parto (noro-adrenalinas) são importantes para a sobrevivência imediata de todos os bebês, assegurando que eles sejam capazes de manter o calor corporal e respirar corretamente, devido à produção adequada de surfactant. Além disso, as pupilas do bebê dilatam e exibem um comportamento bem alerta - ambos muito importantes para atrair e manter a atenção exclusiva da mãe (Lagercrantz & Slotkin 1986).


As endorfinas são os analgésicos naturais da natureza, com inúmeros benefícios extras para as mães e os bebês. Elas são liberadas em reposta ao trabalho e esforço do trabalho de parto, e especialmente quando a dor está presente. Portanto, as mulheres precisam primeiro do trabalho de parto e a dor das contrações para assegurar que elas consigam as endorfinas de que precisam. Sem estes fatores, as endorfinas não serão produzidas e a mulher não só sofrerá durante o trabalho de parto, mas poderá estar num estado aquém do ótimo para receber seu novo bebê. O processo de ligação com o bebê, geralmente considerado como um bom "extra" em um bom parto, é na verdade crítico para o sucesso reprodutivo e é garantido por várias interações hormonais. Tendo feito considerável esforço para gerar e parir um bebê, a máxima da natureza é assegurar a sobrevivência do bebê através de "capturar" o comprometimento da mãe para sua nutriz continuada.


É hora de reconhecer que os problemas com a amamentação e a falha de  comportamentos de ligação e de nutriz para com o bebê em novas mães pode ser o resultado de práticas inadequadas durante o parto resultado da insensibilidade ao equilíbrio delicado e intrincado dos hormônios da gravidez e parto. Podemos realmente nos dar ao luxo de ignorar o poder e a necessidade de ocitocina e endorfinas para o bem estar de mulheres e crianças?


Os efeitos da adrenalina


Quando o fluxo natural do parto é perturbado, o corpo toma ações instintivas de evasão para assegurar a sobrevivência e proteção da parturiente e seu bebê. O mecanismo envolvido utiliza a adrenalina como o meio - a resposta hormonal é de “correr ou lutar” com a qual nós todos temos familiaridade. A produção de adrenalina é uma resposta automática em qualquer situação ameaçadora ou assustadora, e as mulheres que estão em trabalho de parto são especialmente vulneráveis. Além dos bem conhecidos sinais e sintomas da produção de adrenalina no corpo (pressão arterial elevada, pela fria e úmida, batimentos cardíacos aumentados, respiração rápida, pupilas dilatadas, agitação, etc.) uma mulher em trabalho de parto confrontada com esta situação, e seu bebê, precisam de proteção extra, para prevenir uma perda reprodutiva. Do ponto de vista da natureza, se as circunstâncias são perigosas para a mãe, então não há lugar para um recém-nascido indefeso, e uma ação biológica é necessária para evitar o parto iminente. A liberação de adrenalina pode ser iniciada por vários estressores claros ou obscuros: barulhos altos, pessoas estranhas, ambientes para o parto hostis ou não familiares, interrupções e distrações, falta de privacidade e procedimentos invasivos. Medos subconscientes também podem desencadear a liberação de adrenalina, assim como um sentimento de vergonha agudo.

 

Quando quer que a adrenalina comece a fluir, vários sinais clínicos aparecerão:

• Comportamentos de pânico.

• Aumento da pressão sanguínea.

• Lentidão das contrações devido ao efeito da adrenalina na produção de ocitocina.

• Aumento da dor causada pela redução do fluxo de sangue oxigenado para o músculo uterino.

• Uma pausa na dilatação já que as fibras musculares circulares do útero se contraem e se contrapõem à ação de outras camadas musculares.


Estes sintomas e reações normais e esperados são geralmente mal diagnosticados como:

• "Falha no progresso".

• "Falta de coordenação da ação uterina".

• "Distocia".

• "Ação myometrial ineficiente".

Quando um diagnóstico mais correto seria:

• "Uma resposta natural a uma situação ameaçadora".

• "Ação hormonal perfeita nas circunstâncias".

• "Reação normal ao ambiente hostil".


A falha ao se diagnosticar esta situação corretamente é um bom exemplo do modelo médico que está sendo aplicado a um processo corporal normal. Rotular esta condição como uma “falha” da mulher deu à medicina uma desculpa para assumir o parto e orquestrar os partos das mulheres para que estejam dentro de critérios arbitrariamente definidos por pessoas com pouco insight sobre funções corporais normais. O controle sobre o corpo das mulheres é desta forma atingido e mantido, e como um insulto adicional, as mulheres são enganadas a acreditar que um parto gerenciado e previsível não é somente desejável, mas também seguro para elas próprias e seus bebês. A epítome desta abordagem é o “gerenciamento ativo do parto” - uma agressão calculada à função hormonal normal da  mulher feita com precisão mecânica e uma total falta de consideração  pelo grande plano da natureza para o sucesso reprodutivo.


Quando o papel verdadeiro da adrenalina no parto é entendido, isto é, prevenir o parto quando o momento não é adequado, remédios que reduzam sua necessidade e aumentem a produtividade do parto se tornam aparentes.

 

As sugestões seguintes não estão em nenhuma ordem particular e deverão ser tentadas à luz das circunstâncias individuais:

• Identificar a fonte de medo ou inquietação e removê-la.

• Usar métodos básicos para o controle do pânico.

• Disponibilizar privacidade.

• Evitar procedimentos desnecessários.

• Mudar o ambiente.

• Luzes fracas, providenciar calor e quietude.

• Reduzir o número de atendentes, começando por pessoal desnecessário.

• Providenciar a continuidade dos atendentes empáticos.

• Remover qualquer um que estiver dando sinais de ansiedade.

• Dê tempo para que a adrenalina diminua e que a ocitocina e endorfinas reapareçam - pelo menos uma hora após as novas condições. 

• Sussurrar, evitar contato visual e conversas.


Ao considerar estas opções, os seguintes pontos importantes devem se notados:

• Se a mãe e o bebê não demonstram sinais de problemas médicos, não há necessidade de se tomar uma ação médica.

• Evite usar uma linguagem negativa e rótulos, pois eles dão cor a percepções e comportamentos.

• Ocitocina intravenosa e drogas analgésicas só devem ser usadas como último recurso, quando tudo o mais já foi tentado e teve tempo de fazer efeito.


As mulheres e seus médicos estão começando a reconhecer que o parto é às vezes desnecessariamente doloroso. A solução, da maneira tradicional, tem sido aplicar o modelo médico aos problemas e a ciência médica veio com a anestesia peridural como o modo mais “aceitável” de se avançar. A promoção enérgica desta tecnologia, ainda não testada em grande escala, mais uma vez fez a mulher focar a dor do parto e interpretá-la como um mal, uma entidade evitável que não tem benefício algum para ela ou seu bebê.


Talvez seja tempo de olharmos a necessidade de epidurais de uma perspectiva diferente - a perspectiva da falha dos hospitais em dar às mulheres ambientes para o parto seguros e protetores. Ao invés de rotular as mulheres como “falhas” quando seus corpos se assustam com as condições fornecidas, o pessoal do hospital, e particularmente as parteiras deveriam reconhecer os riscos inerentes quando as mulheres vão parir em suas instituições e tomar ações para reduzir as fontes de medo.

 

As epidurais seriam então oferecidas somente quando todo o resto tivesse tido testado reconhecendo a falha do hospital em fornecer ambientes seguros para o parto, ou então com base em uma necessidade médica clara. As parteiras, com seu entendimento do processo normal de parto e seu interesse em proteger as mulheres e o parto fisiológico, estão bem colocadas para destacar a real situação que acontece diariamente em nossos hospitais e para tomar ações corretivas.


Uma questão feminista


Melhorias e mudanças virão quando as mulheres assumirem seus corpos e reconhecerem o papel especial de seus hormônios durante o parto. Nós precisamos:

• Exigir locais seguros para o parto - tais como casas de parto e partos domiciliares.

• Resistir a intervenções desnecessárias durante o parto.

• Exercitar nossos direitos legais de preservação sa nossa integridade corporal - nenhum toque não solicitado e nenhum tratamento sem consentimento.

• Exigir informações que sejam equilibradas, imparciais e compreensíveis.

• Nós precisamos chegar a um acordo com a dor do parto. Ela não deve ser temida, mas sim bem vinda por seus benefícios instintivos e recompensas: a dor é uma parte necessária do parto normal e é importante para o bem estar maternal físico e emocional. É também boa para os bebês!

• As parteiras precisam recuperar suas habilidades em sentar e esperar na esperança de um parto normal. Elas também precisam agir - especialmente quando elas testemunham o abuso ritual de mulheres nas salas de parto. Como podemos nos manter em silêncio quando nossas irmãs estão sendo tratadas desta forma?

• Precisa haver um treinamento melhor para parteiras, baseado em experiências práticas do parto em locais que melhorem a fisiologia normal - o lar seria o local ideal para começar. As apostilas precisam incluir informação sobre hormônios e suas ações durante o parto - meu livro Empowering Women (“Empoderando as Mulheres”) é o único livro que vi onde a ação e importância dos hormônios são explicadas. Os textos de parteiras de estilo médico parecem ter deixado este tópico de lado como "irrelevante".

• As mulheres estarão mais bem servidas quando as parteiras deixarem de ser enfermeiras e praticarem seu ofício centrado nas mulheres. Abandonar o modelo médico é difícil, especialmente após muitos anos de doutrinamento durante o treinamento de enfermagem, ainda assim abraçar o modelo social de parto é peça central para seu sucesso.

As mulheres grávidas precisam de informação baseada em pesquisa. Nós precisamos dizer a elas para:

• Confie em seu corpo - ele funciona bem.

• Esqueça a “respiração” e outros comportamentos aprendidos - eles estão dificultando sua autodescoberta e tirando poder de você num momento em que você mais precisa explorar suas próprias capacidades inatas.

• Consiga para você mesma um bom apoio para o parto - já foi mostrado que isso diminui a duração do trabalho de parto e diminui sua necessidade de drogas analgésicas.

• Evite a indução num esforço para controlar seu corpo durante o trabalho de parto e nascimento, a não ser que haja uma necessidade médica comprovada.

• Pense com cuidado sobre onde você quer parir - o comportamento de “aninhar” tem um propósito!


O sistema de saúde, apesar de ser uma estrutura monolítica, está sendo forçado a algumas mudanças oportunas, devido ao crescente custo da tecnologia e as crescentes reclamações vociferantes das usuárias. O nascimento, sendo uma condição de bem estar, requer consideração e provisões especiais de cuidado com a saúde: locais seguros como casas de parto, apoio e promoção do parto domiciliar, e um aumento do cuidado através de parteiras.


A dura realidade é que nós mulheres permitimos que nossos corpos fossem controlados por idéias vendidas pelos médicos de que a dor no parto é desnecessária e evitável de maneira segura. Nós condenamos este controle porque nós temos sido mantidas ignorantes sobre a natureza e o propósito da dor no parto, e nós fomos influenciadas por argumentos que parecem persuasivos, mas não são baseados em fatos. Chegou a hora de reclamar a nossa dor - nós e nossos filhos precisamos dela para sobreviver!


Referências

Odent M. 1982, Birth Reborn, BBC Documentary video.

Haire D. 1994, “Obstetric drugs and procedures: their effects on mother and baby”,

paper presented at the Future Birth Conference, Australia.

Lagercrantz H. & Slotkin T. 1986, “The ‘stress’ of being born”, Scientific American,

April, pp. 92-102.

Newton N. 1971, “The trebly sensuous woman”, Psychology Today, vol. 98, pp. 68

71.

Newton N. 1978, 'The role of the oxytocin reflexes in three interpersonal

reproductive acts: coitus, birth and breastfeeding', Clinical Psychoneuroendocrinology in Reproduction, proceedings of the Serono Symposia, Academic Press, vol. 22, pp. 411-418.

Robertson A. 1994, Empowering Women - teaching active birth, ACE Graphics, PO Box 173, Sevenoaks Kent UK TN14 5ZT.

Wagner M. 1994, Pursuing the Birth Machine - the search for appropriate birth technology, ACE Graphics ibid.

Whittlestone W. 1982, “Obstetric practice and lactation: the inhibitory effects of large doses of oxytocin”, unpublished manuscript, available from ACE Graphics ibid.

Andrea Robertson é educadora perinatal, atuando na Austrália e nos Eua, palestrante internacional, diretora do site www.birthinternational.com .

Tradução por Andressa Fidelis

Este artigo foi retirado de http://www.birthinternational.com/articles/painlabour.html 
Direitos Autorais 1997-2001, Birth International.

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