BUSCANDO UMA HUMANIZAÇÃO CONSCIENTE E RESPEITOSA. O PERCURSO DE UMA DOULA E EDUCADORA PERINATAL

Introdução


Quando comecei a questionar a forma como minhas filhas nasceram e meus horizontes foram se abrindo, percebi que existia um mundo novo, muito além do parto normal. Um mundo onde os nascimentos eram respeitados e acolhidos, e as mulheres tinham a oportunidade de vivenciar plenamente o processo do seu parto. Para mim tudo era muito novo e fui me acostumando com esse universo recém descoberto, com as pessoas que faziam parte dele e com as novas situações que se despontavam. Sempre acreditei no parto, mas não sabia que ele poderia ser uma experiência tão natural e bela.


A conseqüência desse novo cenário, que agora já é parte total da minha vida, me levou a várias mudanças pessoais. Primeiro comecei a absorver todas as informações que podia encontrar sobre humanização, parto e tudo que se referia ao tema. Estudei um pouco mais, aprendi um pouco e cheguei ao curso de Educadora Perinatal. Todos os temas me tocaram de alguma forma, e foi difícil escolher algum, ou alguns, mas aqui estou.

 

Psicologia do parto

 

Acho que escolhi a psicologia do parto, porque eu cresci muito com esse módulo. Primeiro, porque descobri muitas coisas a meu respeito e sobre o meu próprio nascimento, crescimento, amadurecimento e processos de parto. Quando li sobre as Deusas, descobri algumas coisas que explicavam muito de mim, como por exemplo, porque sentia tantas vezes, que a sociedade não me respeitava no meu desejo de maternidade. Deméter me ajudou muito a entender essa Deusa presa dentro de cada mulher. A entender os desafios que eu, e todas as mulheres, encontramos quando engravidamos, quando desejamos amamentar e criar nossos filhos de maneira coerente com nossas crenças. Eu mergulhei nesse universo e me embrenhei ao máximo. Percebi que por isso muitas vezes fui olhada com desconfiança, até mesmo por outras mulheres, pois hoje o importante é ser uma mulher produtiva para a sociedade, e esse conceito não inclui a mulher que deseja apenas ser a mãe dos seus filhos.

 

No início, tudo era muito confuso para mim, pois sentia essa pressão  externa, e não conseguia entender porque o meu desejo não era o mesmo de outras mulheres. Muitas vezes, desconfiei de mim quando não desejava voltar ao trabalho e ao contrário do esperado, eu tinha vontade de estar com o meu bebezinho todas as horas possíveis. Finalmente eu compreendi que poderia ser assim, mas que eu precisaria acreditar muito em mim para não me deixar levar pelas pressões sociais.

 

Essa libertação me levou a buscar muito mais, eu precisava aprender para argumentar. Então comecei a acompanhar gestantes e mulheres em trabalho de parto. Isso provocou em mim mais uma grande transformação, agora não era só a minha vida que mudara, mas eu podia ajudar outras mulheres a conhecer mais a respeito delas mesmas e a conquistar um espaço mais digno.

 

Não é uma jornada fácil, eu confesso, mas a cada dia eu desejo mais. Aprender sobre como ajudar os casais a conquistar uma gestação e um parto mais consciente é uma responsabilidade muito grande. Sinto que fico mais inquieta a cada novo aprendizado, pois tomo consciência de que não posso ser responsável por esse casal, não posso puxá-los pela mão, posso apenas informar e esperar pelas escolhas deles. Demorei muito para entender isso, e muitas vezes eu chorei ao perceber que tinha passado um tempo grande com alguns deles e que parecia que nada tinha sido feito.

 

Foi através do estudo da Psicologia do Parto que pude compreender o tempo de cada um e aceitar que preciso apenas apoiar as escolhas, e não questioná-las. Foi conhecendo Ártemis, que tive coragem para aceitar que eu poderia falhar em meu trabalho, mas que o importante era rever os meus erros e recomeçar sempre com muita humildade. Através desse conhecimento, aceitei melhor minha impulsividade e minha vontade de mudar tudo o que achava errado.

 

Agora consigo conversar de forma mais livre com as gestantes, deixo que elas falem e posso escutá-las com atenção. Ainda tenho muito que melhorar, pois preciso não julgar nunca. É difícil essa tarefa de ouvir e não julgar. É um exercício de paciência, caridade e humildade. Aprendi que é preciso ouvir a história de cada mulher e ir além. É preciso ouvir também os meus instintos e não ser assim tão “profissional”, mas deixar que a emoção também tenha espaço para fazer o seu trabalho.

 

Aceitar que o intelecto da mulher pode atrapalhar na hora do parto e conseguir fazer com que ela entenda isso é uma tarefa árdua, pois vivemos num mundo extremamente prático e objetivo, onde não há espaço para deixar os instintos nos guiarem. Muitas vezes durante as leituras do curso eu pensava em como mostrar para as mulheres esse “despir-se das armaduras sociais e intelectuais de Atena e mergulhar no seu ser matriz”. Confesso que com o fluir do curso, eu parei de me preocupar tanto com a metodologia e a abordagem com as mulheres que iria acompanhar e comecei a me preocupar em despir a mim mesma dessas armaduras e me deixei levar pelo meu ser mais profundo.

 

Foi difícil conhecer e aceitar o meu ser mais íntimo como ele é realmente. Não gostei de muita coisa que descobri. Descobri que eu achava que sabia tudo, que tinha feito as escolhas perfeitas e que tinha criado minhas filhas da melhor e única maneira que existia. Nossa, que mergulho assustador foi esse. Preparar-me para ajudar outras mulheres tinha que passar pelo autoconhecimento e descoberta. Essa conclusão me deixou meio assustada, mas mesmo com medo, tive coragem de começar o caminho.

 

Primeiro descobri que não sabia tudo, aliás, que sabia muito pouco, ou quase nada. Depois, que nem todas as minhas escolhas tinha sido perfeitas, e tive que aceitar as imperfeitas, e começar a vê-las como tais.  Pensei que se ficasse o tempo todo com minhas filhas seria perfeito para elas, mas percebi que falhei na criação delas, porque como todas as mães eu também não sou perfeita.

 

Descobrir que não somos perfeitos é um golpe e tanto, mas ajuda bastante a rever algumas coisas e começar de novo. Sinto que esse aprendizado me fez mais humana, e assim cheguei ao ponto em que posso falar de humanização sem parecer tão teórica. Descobri que humanizar é aprender sobre si e depois deixar esse aprendizado fluir para o outro. Sinto que estou um pouco mais forte e consciente de mim, e, como conseqüência disso, eu posso ser mais humilde e aprender mais com as mulheres com as quais trabalho. Não só as mulheres que acompanho, mas todas as outras que encontro em meu caminho.

 

Nosso mundo é esse real, cheio de cesáreas desnecessárias, cheio de dificuldades para amamentar e cheio de preconceitos. Acho que agora posso entender as opções que muitas mulheres fazem pela cesárea, afinal é o único universo que elas conhecem. Consigo vislumbrar a possibilidade de não ser vista como uma fanática pelo parto, mas uma apaixonada por ele. Respeito os meus limites e sei que não devo avançar os limites dos outros. Deixo apenas que me conheçam e conheçam a minha paixão, e devagar, e novamente com muita humildade, vou avançando a passos bem lentos.

 

São passos lentos, mas percebo que a cada passo dado, o espaço conquistado fica mais definitivo. Antes eu queria avançar rápido e criticava muito, agora sei que é preciso ir devagar e com humanidade. Aceitar a escolha de cada um com respeito e carinho, ajudar nas escolhas, descortinar uma nova opção, dar informações, ajudar a questionar, isso sim eu posso e devo fazer. Quando depois de tudo isso, eu consigo ver a transformação dessa nova mulher, ver a plenitude que toma conta dela depois do parto, e saber que fiz a diferença, o que fica são os números positivos, e o balanço pra poder melhorar e aprender a cada dia.

 

Acho que perceber o parto como essa luta para trazer o filho à vida, era uma coisa que eu não tinha tão consciente e plena como tenho hoje. Incentivar, apoiar e estar ao lado da mulher nesse processo faz com que, a cada parto, eu também passe por um processo de renascimento. O conhecimento adquirido me deixou com um sentimento ainda maior de que é preciso mudar a forma como encaramos a gestação e o parto. Penso que não basta atuar como doula e ver os absurdos acontecerem nos hospitais, e ficar calada. É papel da doula e da educadora perinatal conscientizar para poder denunciar. Acho importante citar aqui algumas falas durante o curso:

 

“Que nós, como educadoras perinatais, saibamos inspirar com frases, posturas, escolhas e, quem sabe, tocar fundo na alma de outras mulheres” (Cariny)

 

“Não há um protocolo a se seguir, não existe etapas a ser seguida racionalmente para se construir uma mãe... Carregamos, dentro de nós, estas informações. Somos filhas e temos uma história. Naturalmente, quando engravidamos procuramos estas informações, sem que percebamos! E como faz diferença saber-se autorizada ou não a ser mãe internamente!” (Fernanda)

 

“Gente! Somos poderosas, não superiores, mas seres dotados de docilidade e força, assumindo desejos, realizando conquistas há pouco tempo inimaginável. Cada uma em seu tempo e em seu ritmo.” (Luciane)

 

“Rebelem-se, rasguem suas fantasias, acreditem no invisível. Não deixemos que lhe digam o que fazer, nós crescemos agora, e nunca fomos de porcelana. Olhem para dentro de si, mesmo que hoje, agora, a imagem não seja tão boa. Mesmo que doa, conheçam-se. Deixem fluir seu poder de fêmea! Eu garanto que vocês vão se sentir em casa.” (Cariny)

 

Conclusão

 

Atuar como doula e educadora perinatal é um grande desafio para qualquer mulher, uma vez que em nossa sociedade há pouco espaço para esse trabalho. Percebo o quanto aprender um pouco mais sobre a psicologia do parto pode ma ajudar a atender melhor as gestantes com as quais trabalho. Acho que esse conhecimento traz uma riqueza muito grande, principalmente para mim. Acredito também, que nos grupos de gestantes das unidades de saúde onde atuo, poderei levar mais conhecimento a todas e ajudá-las no processo.

 

Conhecer a psicologia do parto teve um lado muito positivo para minha vida e para meu trabalho, mas em contrapartida me deixa triste ao perceber tanta riqueza que podemos trabalhar com as gestantes e ter consciência que a a realidade impede que o trabalho avance. Aliás, eu pude notar em muitas das alunas do curso, a mesma preocupação que me aflige. Vivemos a mesma realidade a nível nacional. A doula não é reconhecida como profissional, e, portanto não é respeitada pela classe médica, ou mesmo pela enfermagem. Aqui nos hospitais da cidade somos proibidas de atuar, só podemos exercer plenamente o nosso trabalho quando temos um parto domiciliar. Falando em psicologia da gestação, fica difícil acompanhar uma gestante que sabe que irá para o hospital sem a presença da doula e com uma enorme possibilidade de acabar numa cesárea por imperícia da equipe médica e hospitalar.

 

Fiquei pensando na melhor maneira de trabalhar com as mulheres que atendo. Acho importante que elas tenham consciência das dificuldades que vão enfrentar, e sei também que muitas desistem logo de cara, pois é mais fácil sucumbir à praticidade. Sinto que os conhecimentos que adquiri no curso, podem me ajudar na hora de preparar as gestantes. Acho que tenho hoje um pouco mais de conhecimento da fisiologia da gestação e do parto, e também posso desfazer alguns mitos e crenças com mais propriedade e segurança.

 

Apesar disso, não sinto segurança ainda, pois trabalho em campo minado. Trabalhar a gestante, encorajar, trazer informações, nem sempre garantem o parto que ela deseja, pois nessa realidade que vivemos, nem sempre querer é o que basta. Se uma gestante não pode investir num parto domiciliar, ou tem receio do mesmo, fica muito difícil ela conseguir parir apenas ficando em casa com o suporte da Doula. O desconhecimento que as pessoas têm de nossa profissão, faz com que elas não acreditem em nossa capacidade.

 

Acho que quando comecei a atuar como Doula, tinha vontade de mudar tudo e de brigar contra tudo aquilo que achava errado. Depois de certo tempo, tive algumas decepções, e isso me fez mais madura, mas o curso de Educadora Perinatal foi decisivo para que eu conseguisse me acalmar e amadurecer mais com relação à realidade obstétrica. Hoje quando começo o atendimento de uma gestante, acho que procuro agir com mais calma, dando a ela um tempo para assimilar as informações e digerir tudo. Só depois disso é que posso  perceber se ela estará apta para começar a pensar naquilo que aprendeu. Com o tempo e o conhecimento, e com mais pessoas se unindo aos ideais de humanização, poderemos ficar mais fortes e sermos respeitadas em nossa profissão.

 

Sinto necessidade de aprender mais e trazer mais informações para a realidade na qual estou. A vontade de continuar sempre, apesar de obstáculos que me parecem intransponíveis, faz brotar em mim o desejo de aprender mais a cada dia, para que eu possa ser um agente transformador.

 

Bibliografia

 

Empoderando as Mulheres. Psicologia perinatal, uma abordagem pós-junguiana e arquetípica de Adriana Tanese Nogueira, Editora Biblioteca 24horas.com, 2009

Abordagem psicológica em obstetrícia: aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério de Regina Sarmento e Maria Silvia Vellutini Setúbal

Maternidade: a trêmula conquista do poder de Adriana Tanese Nogueira em www.psicologiadialetica.com

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