PARTO DOMICILIAR: UMA QUESTÃO DE DEMOCRACIA

August 23, 2019

“Sou Graciema Rangel Pinagé, residente em Brasília, 28 anos. Tive dois filhos, o primeiro de parto normal hospitalar e o segundo de parto normal domiciliar. Enquanto vivência pessoal, enquanto evento na minha história de vida como mulher e mãe, o parto domiciliar foi muito melhor. Foi meu parto, e não o parto do médico segundo os protocolos do hospital. No entanto, o ponto que quero levantar não é o de minha própria história. O que acho inconcebível, absurdo, inadmissível nessa postura dos médicos em geral contra os obstetrizes é que, por corporativismo e noções pré-concebidas (e não revisadas de acordo com os dados da OMS e de países como Holanda e França), eles se mostram dispostos a negar às mulheres que desejam ter seus filhos em casa o mais básico dos direitos dentro de uma democracia, que é o de ter autonomia sobre o próprio corpo e a própria história, e o de fazê-lo em segurança, no caso, com o auxílio de um profissional de saúde. Sem esse direito, qualquer pretensão à democracia é uma farsa. E os Conselhos de Medicina se mostram disposto a negá-lo.”


Graciema, você tocou o cerne do problema. A política dos Conselhos de Medicina se caracteriza como monopolizadora e anti-democrática. À  centralização dos cuidados se associa a desvalorização dos demais profissionais, sobretudo das enfermeiras obstetras. Quero frisar, sem desenvolver nesse âmbito, que essa contraposição tem fortes conotações de gênero. Agora, permanecendo no terreno científico, os argumentos que eles levantam contra o parto domiciliar e as casas de parto não dão razão de sua obstinada rejeição das formas diferentes de atender a gravidez e o parto. Desta vez não é a opinião pública que exige mudanças, mas pesquisas científicas, OMS e profissionais de renomes que têm dados teóricos e experimentais em seu favor. O que fazem então os eminentes doutores? Tapam os ouvidos e se enclausuram em seus lugares de poderes tradicionais. Desqualificam e  apertam o punho para não deixar as rédeas escapar de suas mãos.

Humanizar o parto é uma questão de cidadania. É porque o Brasil tem uma longa história feita de ditaduras e submissão que tamanho abuso de poder existe nos consultórios obstetras. É porque as mulheres estão acostumadas a serem tratadas como cidadãs de segunda categoria que aceitam a manipulação do profissional que entre sorrisos e alertas faz o que quer.

Será um acaso que todos os países da América Latina apresentam os dados alarmantes das cesáreas desnecessárias? América do Norte e América do Sul têm diferentes explicações para o mesmo fenômeno. Nos EUA as altas taxas de cesáreas são devidas: 1) à infatuação pela tecnologia num país onde o contato humano é regrado de uma forma inconcebível para os latinos; 2) pelo medo das denúncias, como bem mostra Marsden Wagner, pois a obstetrícia tem o maior número de denúncias dos ramos da medicina. No Brasil, as altas taxas de cesárea são devidas, mais tristemente, à desinformação e à submissão das mulheres que andam em paralelo à desigualdades nas relações de poder. Junta-se a fome com a vontade de comer.

Prova disso é que nos EUA as pessoas já acordaram para as novas pesquisas científicas e estão atentas quanto ao que lhes faz realmente bem. Portanto, o movimento pelo parto em casa é muito mais difuso do que no Brasil e só no Sul da Flórida há umas quanto ou cinco centros de parto normal conduzido por midwives.

Por que isso não acontece no Brasil? Porque parto domiciliar é uma questão de cidadania. Ainda vivemos os resquícios das ditaduras do passado – em particular da última. Liberdade para parir do jeito que a mulher decidir e respeito pelo indivíduo e suas escolhas são pilares de uma verdadeira democracia. 

 

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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