HUMANIZAÇÃO DO PARTO

August 26, 2019

TEIXEIRA, Kátia de Cássia – CBES

katita.teixeira@gmail.com

BASTOS, Raquel – CBES


Resumo

Este texto apresenta os diferentes aspectos envolvidos na humanização do parto, desde sua

definição, até sua relação com profissionais da saúde, os esforços conjuntos entre entidades governamentais e a classe profissional até os fatores que dificultam sua  implantação. Este trabalho objetivou o levantamento bibliográfico sobre o parto humanizado que referenciaram a importância de sua implantação. Descrevemos a grande contribuição da assistência humanizada como redutor da mortalidade materno-infantil, seus benefícios para o bem estar da mãe e do recém-nascido e suas vantagens frente a modelos intervencionistas.

Palavras-chave: Parto, Humanização, Cesariana, Mortalidade


 

Introdução


O termo humanização atenta-se ao importante questionamento às práticas de saúde

excessivamente intervencionista (WEI, 2007). Este termo vem sendo utilizado, na assistência ao parto há muitas décadas, e seus conceitos difundidos por autoridades em obstetrícia médica no cenário internacional (DINIZ, 2005), objetivando recuperar o parto como evento familiar e natural e unir aos benefícios das modernas evidências científicas.

A humanização da assistência ao parto implica principalmente que a atuação do profissional respeite os aspectos de sua fisiologia, não intervenha desnecessariamente, reconheça os aspectos sociais e culturais do parto e do nascimento, promova a saúde e ofereça o suporte emocional necessário à mulher e sua família, facilitando a formação dos laços afetivos familiares e o vínculo mãe-bebê (DIAS, 2005).


Proposições oficiais


A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1996, propôs em suas diretrizes que o

objetivo da assistência é obter uma mãe e uma criança mais saudáveis com o mínimo possível de intervenção e compatíveis com a segurança para ambos, reduzindo, assim, a taxa de mortalidade neonatal.


Em 1998, o Ministério da Saúde inicia a implementação de uma série de iniciativas e

incentivos, voltados às questões da humanização, objetivando melhorar a qualidade da

assistência obstétrica, revalorizar o parto normal, reduzir as taxas de cesáreas desnecessárias, modelo que vem crescendo ao longo das ultimas décadas, e fortalecer a relação da mãe com seu bebê (BRASIL,1998; BRASIL,1999).


Prática atual


Na questão da assistência ao parto e ao nascimento, o Ministério da Saúde, destaca que

o atual modelo é muito dependente da tecnologia médica e tem diminuído a confiança na

capacidade inata da mulher para dar à luz sem intervenção. Os procedimentos, exames e

drogas, muitos deles utilizados com pouco embasamento em evidência científica, podem

envolver riscos desnecessários para as mulheres e seus filhos (BOARETTO, 2003).

Observa-se que, no parto vaginal parece haver maior facilitação para o estabelecimento da lactação mais precoce e efetiva, uma vez que não há dor incisional ou o efeito pós-anestésico, como da cesárea. Além do mais, no parto normal, o primeiro contato

mãe-filho ocorre mais precocemente, enquanto que na cesárea, dificilmente a criança vai até a mãe antes das primeiras seis horas pós-parto, propiciando a introdução de fórmula láctea ou glicose para o recém-nascido logo no berçário e, o que é pior, em mamadeira (FALEIROS, 2006).

Nesse sentido, observa-se a mortalidade neonatal decorrer de problemas relacionados

com a gravidez e o parto, que por sua vez estão intimamente relacionados com as

características biológicas das mães, condições socioeconômicas das famílias e a

disponibilidade e qualidade da atenção perinatal (GENTILE,1997). A concentração dos óbitos neonatais no período neonatal precoce, principalmente nas primeiras horas de vida, evidencia a estreita relação entre estas mortes e a qualidade da assistência nos serviços de saúde, durante o trabalho de parto e no atendimento à criança, no nascimento e no seguimento (BRASIL, 2004).


Paralelamente, a mortalidade materna tem como causas predominantes as obstétricas

diretas, destacando as doenças hipertensivas e as síndromes hemorrágicas, que se mantém, há décadas, como as duas principais causas, ora seguidas pelas infecções puerperais e o aborto, ora pelas doenças do aparelho cardiovascular complicadas pela gravidez, parto ou puerpério (BRASIL, 2004).


No ano de 2002, mais de 38.000 recém nascidos e 2000 mulheres morreram no país

por complicações no ciclo gravídico-puerperal e em decorrência de abortos. Nesse sentido,

ocorrem mais de 500.000 óbitos maternos no mundo, mais de 50 milhões de mulheres sofrem doenças ou seqüelas relacionadas com a gravidez, e pelo menos 1.200.000 recém-nascidos morrem por complicações durante o ciclo gravídico-puerperal. Os países em desenvolvimento concentram uma grande parcela dessas mulheres desassistidas, o que constitui um grave problema de saúde pública (DINIZ, 2005).


Dentre os principais elementos desconectados aos princípios da humanização, que

precisam ser vencidos para que os direitos da mulher e criança sejam assegurados estão: o

despreparo de equipes de assistência ao parto, a infra-estrutura pública inadequada e o

progressivo aumento de cesáreas (GENTILE,1997).

Segundo informações do Anuário Estatístico de Saúde do Brasil, em 2001, a

ocorrência de partos cesárea ainda ultrapassa as recomendações, ocorrendo cerca de 38% de partos cesárea e 50,75% de partos normais em todo o Brasil. Considerando as diferentes

Regiões, a incidência de cesáreas varia de 25,65% na Região Nordeste para 45,95% na Região Sudeste, ocorrendo em menores proporções nas Regiões Norte e Nordeste.

Estes dados demonstram a tendência mundial do avanço tecnológico e científico

resultando em uma enorme fragilidade no que se refere ao cuidado no momento do parto.

Esse avanço progressivo e danoso ocorre sem que haja maiores preocupações com a

integralidade, valorização das crenças e modo de vida (MOREIRA, 2006).

Método


Foram feitas pesquisas bibliográficas de teses e revistas indexadas através das seguintes

Bibliotecas: BIREME, CAPES, SCIELO e USP.


Resultados


Dentre o período pesquisado encontramos artigos entre os anos de 1996 a 2007, relevantes a nosso trabalho. Das doze referências, citamos sete artigos, sendo seis de periódicos nacionais, e um artigo publicado pela Organização Mundial da Saúde. Citamos as duas teses de mestrado referente e três Portarias publicadas pelo Diário Oficial da União referentes à área do parto humanizado.


Discussões e Conclusões


A valorização do parto humanizado deve ser levada em consideração por aumentar a

autonomia e o poder de decisão numa relação menos autoritária e mais solidária entre o

profissional da saúde e a mãe, com desdobramentos efetivos para uma boa evolução do

trabalho de parto e para a saúde das mulheres e das crianças.

No modelo atual, a humanização do parto implica na mudança da atitude, filosofia de

vida e percepção de si e do outro como ser humano. A sensibilidade, a informação, a

comunicação, a decisão e a responsabilidade devem ser compartilhadas entre mãe-mulher,

família e profissionais de saúde. O parto humanizado consiste em um conjunto de condutas e procedimentos que têm por finalidade a promoção do parto e nascimento saudáveis e a

prevenção contra morbimortalidade materna e perinatal.


No entanto, ainda necessitamos que as iniciativas governamentais sejam sinérgicas

para que a execução destas ações e a participação social seja efetiva garantindo serviços

qualificados de saúde, reduzindo a motalidade materna e neonatal.

Em relação à cesariana, não se pode negar o fundamental papel desta operação na

obstetrícia moderna como redutor da morbidade e mortalidade perinatal e materna. No

entanto, este procedimento cirúrgico sem as indicações precisas pode resultar em uma

mortalidade materna maior do que a observada no parto vaginal, além de implicar no dobro da permanência no hospital e gerar transtornos respiratórios neonatais e prematuridade iatrogênica. Assim, a substituição da cesariana indiscriminada pelo processo de humanização do parto poderia diminuir a mortalidade materna em até 12 vezes (BRASIL, 2004).

Adicionalmente, o bom desenvolvimento do trabalho de parto é necessário não

somente para o bem estar físico, mas também ao estado emocional da mulher, o que favorece a redução dos riscos e complicações. Para tanto, o respeito ao direito da mulher a privacidade, a segurança e conforto, com uma assistência humana e de qualidade, aliado ao apoio familiar durante a parturição, transformam o nascimento num momento único e especial.


A proposta de humanização do parto sofre influências diretas de modelos institucionais, do envolvimento e aderência desta proposta por gestores e profissionais, assim como sua capacitação. Entretanto, implantação efetiva da humanização do parto estará sempre

mais dependente da relação entre a mulher e o profissional de saúde, responsáveis por restituir o papel maternal de maneira mais ativa em um modelo de assistência de maior qualidade. 


REFERÊNCIAS

OMS. Care in normal birth; a pratical guide. Maternal and Newborn Health / Safe

Motherhood Unit. Family and Reproductive Health. Genebra; World Health Organization,

1996.

BRASIL. PORTARIA n°2815, de 29 de maio de 1998 - Institui o procedimento parto

normal realizado por enfermeiro obstetra no Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da

República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 02 de junho de 1998, seção 1,

p.47-8

BRASIL. PORTARIA n°2.816, de 29 de maio de 1998. Estabelece critérios para o

pagamento do percentual máximo de cesárea, em relação ao total de partos por hospital.

Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 02 de junho

de 1998, seção 1, p.48

BRASIL. PORTARIA n°985, de 05 de agosto de 1999. Criação dos Centros de Parto

Normal-CPN, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da República

Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 08 de agosto de 1999.

BRASIL. Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal. Ministério

da Saúde, 2004.

1477

BOARETTO, MC. Avaliação da Política de Humanização ao Parto e Nascimento no

Município do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de

Janeiro, 2003.

DIAS, MAB; DOMINGUES, RMSM. Desafios na implantação de uma política de

humanização da assistência hospitalar ao parto. Ciência e Saúde Coletiva. 10(3): 699-705,

2005.

DINIZ, CSG. Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um

movimento. Ciência & Saúde Coletiva, 10(3): 627-637, 2005.

GENTILE, FP; FILHO, GN; ALMEIDA, CA. Associação entre a remuneração da

assistência ao parto e a prevalência de cesariana em maternidades do Rio de Janeiro:

uma revisão da hipótese de Carlos Gentile de Mello. Caderno de Saúde Pública. 13(2):

221-226, 1997.

MOREIRA, KAP. A humanização no parto: um estudo bibliográfico. Online Brazilian

Journal of Nursing, 5(3), 2006.

MOURA, FMJSP. A humanização e a assistência de enfermagem ao parto normal.

Revista Brasileira de Enfermagem, 60(4): 452-5, 2007

WEI, CY. Ações Humanizadoras na Assistência ao Parto: experiência e percepção de um

grupo de mulheres em um hospital-escola. Dissertação de Mestrado, Escola de

Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo 2007.

 

Fonte: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/2809_1187.pdf

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