O MEGA RITO DE INICIAÇÃO

August 28, 2019

A paternidade é um espelho onde um homem se verá refletido pelo resto de sua vida, uma vida que inspirada ao amor maior por outro ser. 

 

Nome: Beltrán Lares Díaz

Idade: 50 anos

Profissão: Médico obstetra e ecografista

Quantos filhos: 4

Ano de nascimento dos filhos: 1981,1993,1996 e 1996

Cidade: Caracas, Venezuela

 

Estado: Distrito capital

E-mail de contato: beltranlares@hotmail.com

Autoriza a publicação: sim

Data de preenchimento do questionário: 06.02.2007

 

Seu(s) filho(s) nasceu/nasceram por qual tipo de parto?

Antonio nasceu de cesárea por sofrimento fetal agudo (líquido meconial) durante o primeiro parto de Isabel. Isadora nasceu de parto em água depois quando ambos nos envolvemos profundamente com a humanização do parto e nascimento em 1993. Em 1996 nasceu morto Simoncito, de parto com anestesia epidural, por uma circular de cordão apertada, e 10 meses mais tarde Lucía María nasce de cesárea elegida por Isabel.

 

Você acompanhou o nascimento? Como foi a experiência para você?

Antonio é filho do primeiro casamento de Isabel e, portanto, é uma experiência dela. No parto na água de Isadora, eu trabalhava como obstetra e estava em plena mudança de paradigmas profissionais com relação ao parto; foi uma experiência cheia de emoções. Muito entusiasmo, alegria e compromisso, e muito medo e ansiedade, que se aleviou graça ao apoio de um grupo de mulheres venezulanas e de homens comprometidos com o parto natural. Eu estive presente como pai, sem tomar decisões médicas nem tirar fotos. Foi um exercício vital de paciência, amor e confiança em Isabel, a quem vi transformar-se de uma mulher submissa para alguém que fica sobre seus próprios pés e empoderou-se de uma imensa força feminina universal que se materializou no trabalho de parto e no parto. Vi-a vencer a dolor e o medo de forma espetacular... Eu me senti orgulhoso e dalí em diante arrogante...

Simoncito deixou de viver numa agradável manhã de inverno. A partir daquele momento, uma onda de dor profunda e de imensa tristeza me acompanhou enquanto tratava eu mesmo de acompanhar Isabel nas 6 ou 8 horas de duração do trabalho de parto. Queríamos um parto em casa, porém não pôde acontecer. A dor e a tristeza do parto, não nos deu descanso. Eu o recebi das mãos do médico e o lavei e limpei do mecônio. Conversei com ele e lhe disse várias coisas como se podesse  me ouvir, com a voz entrecortada e os olhos cheios de lágrimas. Minha irmã e minha mãe me ajudaram a vesti-lo e assim o entreguei a Isabel para que ela o abraçasse e ficasse com ele. 12 horas depois lhe demos sepultura. Essa experiência me trouxe um sentimento de culpa e de vergohna que ajudou a derrubar toda a arrogância acumulada. Um trabalho psicoterapêutico individual, de casal e em grupo me ajudou a processar o conflito e a integrar essa vivência em meu ser. Hoje em dia entendo que agora posso compreender e ajudar a outras mulheres, homens e famílias que passam por uma perda reprodutiva similar.

Lucía Maria veio muito rapidamente e o conflito ainda estava sendo elaborado. Neste mesmo ano morreu Simoncito em fevereio e meu pai em outubro; em dezembro nasceu Lucía. Pensava que Isabel teria um parto natural outra vez, porém, conscientemente e cheia de angústia e medo, ela quis uma cesárea. Eu aceitei sem argumentar. Ela enquanto mulher decidiu, e eu entendi então que as mulheres têm o direito de decidir como nascem seus filhos... E em nada a pude criticar ou julgar. Pode-se opinar diferente, tentar fazê-la decidir pelo que nos parece ser a melhor decisão, porém, às vezes, há limites que devem ser respeitados. Eu sei que ela se sentiu apoiada por meu amor e não por minha razão, isto foi suficiente e bom. Lucía nasceu de cesárea e não se separou de mim em quasi nenhum momento, exceto por uma brevíssima avaliação neonatal, logo foi ao peito de sua mãe do qual não se desgrudou mais.

 

Quando lembra do momento do nascimento do(s) seu(s) filho(s)  o que lhe vem à mente?

Luz, emoção, alegria, medo, entrega, união e amor.

 

Sua companheira amamentou?

Sim, a todos seus filhos e filhas.

 

Até quantos meses?

8 meses.

 

Ela encontrou dificuldades em amamentar? Quais?

Não muitas, somente a escassa produção de leite aos 8 meses de vida dos bebês.

 

Qual foi sua participação perante essas dificuldades?

Ajuda em casa (um pouco), tirar as gazes à noite, cuidar dos outros filhos, ter paciência com ela.

 

Sua visão da paternidade mudou após o parto?

Sim, entendi a responsabilidade que esta implica.

 

Como você se via como pai nos primeiros meses de vida de seu/sua filho/a?

Como um pai participativo, não tão paciente e muito amoroso.

 

O que você pensava sobre a paternidade durante a gestação e depois do parto?

Uma coisa é o que se pensa e outra é o que se vivencia depois...

 

Mudou de visão nos meses a seguir?

Sim. Ampliou-se.

 

O que pensa da paternidade?

É a maior atividade que uma pessoa pode fazer para conher a si mesma.

 

Quais são as coisas mais importantes que um homem encontra ao se tornar pai?

A paternidade é um espelho onde um homem se verá refletido pelo resto de sua vida, uma vida que inspirada ao amor maior por outro ser.

 

Como você definiria a paternidade?

Prova vital universal. O mega rito de iniciação.

 

Tem vontade de ter outros filhos?

Em outra vida...

 

O ser pai de hoje é algo que você aprendeu ou veio espontâneo?

As duas coisas.

 

O que seu/sua filho/a exige mais de você?

Presença permanente e incondicional.

 

Quais descobertas a respeito de você mesmo a paternidade lhe trouxe? 

Minha capacidade de amar e dormir pouco.

 

Acredita que é um homem precisa experimentar a paternidade para sentir-se uma pessoa completa? Por que?

De certa forma sim. Pode-se ser pai de uma idéia, de um projeto ou de qualquer outra coisa. Porém, ser pai de um bebê de carne e osso é  transformador. Se um pai não experimenta algo assim porque abandona seu filho, então não é pai.

 

O que diria à você mesmo e à sua companheira antes do parto?

Confia na natureza.

 

Sua relação com o mãe de seu/sua filho/a mudou em consequência da paternidade? Como e por que?

Sim. Ficou mais sólida, mais unida. O AMOR CRESCEU.

 

Qual conselho daria aos pais de primeira viagem?

Confiem na natureza.

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