STITCHED UP

September 9, 2019

O que acontece quando uma feminista poderosa se torna mãe? Para Naomi Wolf, significou o parto de duas crianças, fúria com o modo com que as mulheres são tratadas – e um explosivo novo livro. Katharine Viner encontrou com esta mãe que está numa missão.


Quando Naomi Wolf deu à luz pela primeira vez, nada aconteceu da maneira que ela achou que aconteceria. Ela chegou ao hospital às 3 da manhã, quando uma enfermeira brava a mandou ao banheiro para estimular seus mamilos – o que deveria estimular contrações mais fortes. E dentro de minutos, a enfermeira anunciou que o colo do útero não havia dilatado o suficiente e que o bebê estava em sofrimento. Ela foi levada às pressas para a sala de parto. Amarrada a um monitor fetal, ela foi forçada a deitar-se de lado. Drogas foram injetadas em suas veias para aumentar a dilatação. Ofereceram a ela uma peridural, e, como estava sentindo dor, ela aceitou: não permitiram que seu marido a abraçasse e, no entanto, disseram para ela que se ela se mexesse enquanto a agulha de quinze centímetros era colocada em sua espinha, ela ficaria paralítica para o resto da vida. Todos olhavam apenas o monitor fetal, e não olhavam para ela. Ela não conseguia sentir suas pernas. Disseram que se o neném não nascesse em 24 horas eles operariam; ela ficou apavorada e o trabalho de parto parou. O cirurgião abiu sua barriga; e ela teve ânsias quando sentiu uma puxada violenta. Um bebê foi levantado; Naomi estava deitada nua e morrendo de frio. Ela ouviu o cirurgião dizer, "Preciso colocar este intestino de volta para dentro". Com seu abdômen ainda aberto, ela não pôde segurar seu filho. Ela viu o reflexo da operação de costura da sua barriga através das portas de vidro do lado oposto. Ela viu um grupo de pessoas, com os braços enfiados até o cotovelo em seu corpo, "um caldeirão aberto cheio de sangue".


Isto não foi uma ocorrência escandalosa única; como Naomi descobriria, e sim um “parto ruim muito comum”, sofrido por milhões de americanas e, progressivamente, por britânicas todos os anos. Mas teve um efeito revolucionário nesta mãe. Naomi Wolf, autora do best seller feminista The Beauty Myth (O Mito da Beleza), importadora do poderoso feminismo estilo americano, conselheira controversa de Al Gore, uma mulher que veste branco em casamentos, a feminista radical que se parece com uma rainha de beleza, "a face ensolarada e brilhante do feminismo": quando ela deu à luz, as coisas ficaram feias. "Gravidez, parto e maternidade", diz ela, sem qualquer dúvida, "me fizeram uma feminista ainda mais radical do que eu jamais fui."


Nós nos encontramos em Woodhull, um retiro para mulheres em Nova Iorque. Hoje, ela se parece com uma mãe comum de fim de semana de duas crianças: seu cabelo geralmente bem volumoso está preso, ela está usando shorts pretos, sandálias, uma camiseta vinho que não esconde bem a alça de um sutiã rosa de seda. Seus olhos são da cor de seu anel de noivado de safira. Sua voz é acetinada, mas ela está furiosa. "Eu me sinto absolutamente chocada pelo que eu descobri após dar à luz", ela diz. "O parto hoje é como o agro negócio. É como uma granja: eles entram, eles saem."


O escândalo da medicalização do parto não é novo; a partir dos anos 60, ativistas como Ina May Gaskin e Sheila Kitzinger têm lutado contra a maré de intervencionismo que vê o parto como uma doença, ao invés de uma parte do “ciclo de bem estar" de uma mulher. Mas é um escândalo que já atingiu proporções extraordinárias: em 30 anos, a taxa de cesáreas na Bretanha mais do que triplicou; um bebê em cada 5 agora nasce desta forma. (Os números dos Estados Unidos variam de 50% para mulheres saudáveis, de classe media ao redor dos 30 e 40 anos em hospitais privados, a algo entre 1% e 15% para aquelas em hospitais públicos.) É claro, a Bretanha é diferente da América já que o Mercado não governa o sistema de saúde – os hospitais dos Estados Unidos recebem um bônus de US$1.000 para cada peridural pedida.Mas a história é absolutamente relevante aqui, com os médicos sob Constant pressão para evitar litígios, uma grande falta de parteiras, a crescente popularidade das cesáreas eletivas para as mulheres que ouvem constantemente que o parto vaginal é traumático e terrível, e as ameaças de interesses privados entrando no serviço de saúde.


Não é apenas o parto que chocou e radicalizou Naomi: é a gravidez e a maternidade também. Ela diz que durante toda a sua gravidez ela lidou com “o completo desprezo dos estabelecimentos médicos pelos direitos de informação da mulher", e deram a ela informações erradas, informações conflitantes ou nenhuma informação. Os homens comentavam apenas sobre o quão grande ela tinha ficado. Ela, neste meio tempo, estava em luto pela perda da mulher jovem independente e de espírito livre que ela havia sido; e percebendo, como muitas mulheres fazem, que a "verdadeira revolução" viria apenas quando a sociedade tivesse se reestruturado “radicalmente para apoiar os bebês e os novos pais". Em outras palavras, o mundo era um lugar liberado para mulheres jovens – até que elas tivessem filhos, quando tudo aquilo mudava.


Após o parto, ela sofreu de uma depressão debilitante, da qual ela tentou escapar andando, compulsivamente, pelas ruas à noite. Ela percebeu, muito cedo, que as expectativas de sua geração não seriam atendidas: grandes esperanças de combinar trabalho e lar, ambos os parceiros trabalhando com flexibilidade e dividindo os cuidados com os filhos. Ela estava agudamente consciente de um "rebaixamento social radical" e um senso de "falta de estado", agravado pela falta de valor que ela acreditava estar agregado ao trabalho de ser mãe. E ao seu redor ela via o relacionamento igualitário de suas colegas desabando em papéis, dificuldades e filas de gênero estereotipados. Como ela diz, as suas políticas haviam se re equilibrado ao redor de sua barriga.


"Eu acho que os Estados Unidos e a Inglaterra tratam as mães com condescendência", ela diz, expandindo seu tema de que não é só o corpo das mulheres que estão sob ataque, é a vida das mulheres. "Eu acho que há muito blá blá blá sobre a importância da maternidade, mas o trabalho verdadeiro da maternidade é visto como muito parecido ao de limpar restaurantes. É mal remunerado, subestimado e desrespeitado. Dê uma olhada num playground. O que os playgrounds dizem para as mulheres? Eles dizem - 'sabe o que é, foda-se! Você não tem um lugar limpo para trocar as fraldas sujas, foda-se, se vire. Vocês e seus bebês não tem a menor importância. Você vai ficar sentada durante horas debaixo do sol escaldante? Ótimo. Por que você não é importante. Este trabalho não é importante.”Não é nem o desconforto físico que importa – é o tapa na cara sobre a falta de status do trabalho que você está fazendo".


No livro, Wolf redige um “manifesto das mães" – que vai de horário flexível para mães e pais até transformar os playgrounds em “centros  comunitários de verdade" e fundar “bandos de brinquedos” nos bairros. Precisa haver um movimento radical de mães, ela diz. “Os políticos se sentem muito confortáveis usando as mães e as crianças retoricamente e estrategicamente, sem, na prática, ter que responder às representantes das mães sentadas à mesa”.


Então por que elas não têm voz política? “Bem, a primeira resposta é que estamos exaustas!" ela ri. "Mas em segundo lugar, os mais poderosos interesses estão empilhados contra nós. Por exemplo, quando a maternidade é colocada como seu problema particular, e o conflito trabalho/família é visto como um problema do seu estilo de vida, e você não consegue equilibrar-los, há algo errado com você e o seu papel de “super mulher” – então isto é muito útil para o lobby dos negócios, que está bem alinhado com a administração de Blair no seu país e a administração de Bush no meu."


Numa seção brilhante do livro, Wolf mostra como a “Mãe Máquina” – o ideal da superfuncional mãe/trabalhadora, que é capaz de trabalhar no máximo de sua capacidade até a data do parto, tirar de um a três meses de licença para parir, nutrir e criar laços, encontrar a creche top de linha e voltar para o trabalho" – nada mais é do que um produto do mercado. "Quem são os beneficiários da “Mãe Máquina?” ela pergunta. "Não são as mulheres, nem as crianças”.


A terceira razão para a falta de voz política das mães é ideológica: "Se a maternidade é definida como aquela que doa, doa e nunca diz: “Me ajude com isto”, então você se torna uma mãe ruim ao dizer: “Olá salário!!”


"Eu acho que as mulheres têm direito a tudo, e os homens também", ela diz. Mas a frase não deveria significar o que significa hoje. “‘Ter direito a tudo', como é definido agora, significa trabalhar o dia todo e ter uma família – alguém vai ter que pagar o preço em algum lugar. Acho que precisamos evoluir como uma sociedade na qual homens e mulheres tivessem vidas equilibradas como trabalhadores, companheiros e pais, e uma vida em comunidade real. Está é a “grande” conclusão no início do século XXI: se você der tudo ao Mercado de trabalho, as pessoas se tornam dentes em engrenagens e todos sofrem."


Nos Estados Unidos em particular, há um nível chocante de discriminação institucionalizada contra as mães que querem trabalhar: a única licença maternidade que existe é não-remunerada, de apenas 12 semanas - "e isso após uma luta de 12 anos. Bush (pai) disse que se tivéssemos isso, o capitalismo seria destruído. E foi uma das primeiras coisas introduzidas por Bill Clinton em 1992". As políticas de maternidade na Grã Bretanha estão, ela diz, “bem no meio. São piores que as da Noruega, Dinamarca, Suécia, Itália, melhores que as da Grécia e da Espanha. Na Alemanha, elas têm três anos, mas não é igual entre os gêneros. Eu não apoio leis que dizem que a mulher pode tirar um tempo de folga e o homem não, porque isso às transforma em prestadoras de serviços de cuidados com crianças". Como exemplos de boa política, ela aponta a China, onde pai e mãe podem tirar seis meses e podem escolher como alocá-lo, e o Canadá – mais de 90% do salário por mais de um ano de licença.


E dê uma olhada em sua vida: parece não radical, abrangendo toda a tradição e convenção de um casamento com vestido branco, dois filhos, um marido que ganha um bom salário, casa no campo. Por que ela escreve sobre o quanto é importante que as mulheres tenham certos direitos, enquanto ela mesma mantém uma certa distância destes direitos? "A razão para esta diferença tem a ver com a própria definição de feminismo em minha mente”, é sua resposta. "Para mim, o feminismo não é um conjunto rígido de determinadas posições, um discurso, uma ideologia. É bem mais radical que isso: é uma premissa de liberdade. Quando a premissa de liberdade conquistar as mulheres no mundo, então cada mulher terá o direito de tomar suas próprias decisões de acordo com sua própria sabedoria e consciência, e estas escolhas não serão monolíticas".


O que soa muito bem, mas quanto ainda teremos que esperar? "Bem, antes, eu gostaria que o mundo mudasse em digamos, 30 anos", ela diz, tirando o cabelo de seu rosto. "Desde que eu tive minha filha, eu quero que o mundo mude antes que ela complete 21 anos. Antes que ela complete os 10 anos. Amanhã. Ontem".


Sábado, 1° de Setembro de 2001
The Guardian  http://www.guardian.co.uk/weekend/story/0,3605,544353,00.html 

Traduzido por: Andressa Fidelis

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