O PARTO COMO POSSIBILIDADE DE RESGATE DA MULHER COMO SUJEITO

September 26, 2019

 

Fazer escolhas é uma prática tão normal do nosso dia a dia que podemos compará-la ao processo natural de respirar. Escolher é mais que um direito, é uma expressão natural da nossa identidade como sujeito. Entretanto o que provoca inquietude e reflexão é por qual motivo a mulher aparenta não ter capacidade de escolha.

 

São muitos os relatos e histórias que expressam essa negação que se assemelham a um filme de terror. São práticas de violência física e emocional dentro do lócus que cuida da sua saúde

 

O desrespeito à cidadania feminina como uma prática legalizada nas maternidades e hospitais transforma o evento do nascimento em uma realidade obscura feita de abusos à integridade, à vida  e à autonomia da mulher, apesar dela estar legalmente protegida pelos seus conquistados direitos reprodutivos

 

Assistir uma mulher em trabalho de parto sofrer intervenções desnecessárias e ser humilhada com gritos e palavras em razão da sua dor deixa claro que essa forma de tratamento oferecido a ela, tem muito a ver com o significado social de ser mulher.

 

No âmbito das políticas de saúde, o foco é a visão utilitária no atendimento à mulher. Historicamente, o modelo social predominante, inclusive na saúde, é de fundamentos patriarcais. Esse modelo influencia as práticas médicas para a exaltação da maternidade em assegurar o povoamento bem como reproduzir formas de trabalho e relações sociais. Ser mulher é ter um corpo que seja útil a outros interesses bem distante dela mesma.

 

A medicalização do nascimento e do parto e o elevadíssimo número de cesáreas confirmam o entendimento da mulher como um objeto. Toda vez que o outro é visto a partir de interesses que não lhes são próprios, o rouba-se-lhe a dimensão de sujeito.

 

Embora o parto sem dor seja amplamente comemorado na realização das cesáreas, a mulher continua destituída de ser sujeito. Com a desculpa de analgesiar a dor, analgesia-se também sua autonomia no parto e sua sensibilidade frente a um dos momentos que guarda uma das mais fortes percepções de prazer e alegria na vida: o parto. Toda intervenção desnecessária valida essa violência que nega à mulher a satisfação e o prazer pessoal no parto, e que a retira do seu direito incontestável de ser sujeito.

 

Buscar outros caminhos que neguem a desconsideração feminina é passar a olhar para a alma da mulher e conhecê-la- como a autora natural no nascimento. Isso significa ver a mulher integrada com o seu próprio parto da mesma forma que o parto em si é um processo natural e fisiológico que faz parte do seu corpo. Ver a sua alma é permitir que ela seja com as suas próprias escolhas e negar lhe isso é de alguma forma atentar contra sua vida emocional e física.

 

 

Katia Peres Alvares é pedagoga e doula, mora em Bauru, realizou esse artigo como conclusão do Curso Online ONG Amigas do Parto de Formação de Doulas Parto. Seu email de contato é katia_peres@hotmail.com

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