PARTEIRAS TRADICIONAIS BRASILEIRAS: ENTREVISTA COM O DR. MARCOS LEITE DOS SANTOS.

September 26, 2019

Entrevista com o Dr. Marcos Leite durante a Reunião Nacional da Rede  Nacional das Parteiras Tradicionais – Salvador, 24 Setembro de 2004


Amigas do Parto: Como convidado a participar da Reunião, quais foram as suas expectativas?

Dr. Marcos Leite: Em primeiro lugar, é uma questão que está relacionada a uma visão de um novo modelo de assistência ao parto que não exclui ninguém, é um modelo includente, um modelo que eu imagino que seja construído numa forma de rede, onde cada profissão seria um nodo dessa rede. Cada nodo se relacionando com outro sem hierarquia, ou seja, profissionais ou profissões com formas de aquisição de conhecimentos diferentes, mas com um só objetivo: o de prestar a melhor assistência possível a essas mulheres, crianças e famílias.

 

Em segundo lugar, entra a questão da valorização do profissional. Eu acho que do jeito que as coisas estão, do jeito que estão acontecendo, se diminui a importância de cada um na medida em que cada um não entende e não aceita o papel do outro. Então, por exemplo: eu sou obstetra, passei seis anos me formando, mais um monte de tempo me especializando. Hoje eu sou um especialista em obstetrícia, tudo no serviço público, nunca paguei um centavo para estudar. Então, existem duas questões: primeiro, da minha especialização, e segundo, da resposta que eu dou a esses anos todos que investiram em mim. Do ponto de vista da minha especialização, o meu lugar de trabalho tem que ser na maternidade, bem equipada, onde vou ter condições de atender a grávidas com patologias, com problemas. Do ponto de vista da minha responsabilidade social tenho a necessidade de retornar à sociedade aquilo que essa sociedade investiu em mim. O melhor lugar para dar esse retorno é onde eu possa exercer tudo aquilo que a sociedade investiu em mim, ou seja, numa maternidade de alto risco. Então, se eu entendo isso, e, veja bem, não é uma questão de preto e branco, médico e parteira. Tem toda uma tonalidade de cinza nesse meio termo. Têm as enfermeiras obstetras, têm todos os outros profissionais. Eu não consigo mais ver a assistência ao parto por um profissional único. Eu acho uma coisa muito complicada para ficar só na mão do obstetra. Então, quando começo a entender o meu papel eu me sinto valorizado no meu papel como médico quando estou trabalhando numa maternidade onde vou atender ao risco. Da mesma maneira que a parteira vai se sentir absolutamente valorizada quando eu, médico, ou eu como a categoria médica, reconhecer a qualidade do seu trabalho, a importância desse trabalho, historicamente perceptível no Brasil e no mundo, já que não é só uma questão brasileira. Então, você trabalha com a valorização do profissional, entendendo todos eles com o mesmo objetivo, mas com uma maneira de trabalhar, de perceber as coisas, completamente diferente. Essa é a minha visão. É a idéia que eu tive quando vim para cá. Como médico, poder contribuir de alguma forma para que a gente entenda todas essas questões e comece a lidar com a questão do poder de uma maneira completamente diferente, realmente sem hierarquia. Porque eu não considero o meu conhecimento melhor que o conhecimento delas. O meu conhecimento é diferente do delas. E eu considero esses conhecimentos como complementares. Então, se a gente consegue, cada um, complementar esse modelo de assistência, todos saem ganhando: as mulheres, os bebês, as famílias, as parteiras, os médicos e a sociedade.

A minha expectativa ao vir para cá foi exatamente essa, de poder conhecer melhor a realidade. Porque ainda é uma realidade muito encoberta. E como ReHuNa, não mais como Marcos Leite, mas como ReHuNa, tentar colocar essa questão dentro da ReHuNa e fazer com que ela assuma essa briga pela regulamentação da profissão numa tentativa de melhorar a interface entre o serviço público e as parteiras como um objetivo prioritário para o próximo ano (2005).


Amigas do Parto: Falando na regulamentação da profissão e no Projeto de Lei da Deputada Janete Capiberibe, onde é mencionado o trabalho da parteira dentro do hospital sob a supervisão de médico ou enfermeiro, o que você pensa dessa situação?

Dr. Marcos Leite: Eu consigo pensar isso dentro da perspectiva da mulher. Acredito firmemente que as mulheres deveriam ter todas as opções disponíveis. Então, se for desejo dessa mulher, por questões próprias dela, ter um parto hospitalar e se for desejo dessa mulher, que dentro do hospital ela seja atendida por uma parteira, eu acho que isso deve ser garantido. Mas eu não sei como isso se daria na prática, porque eu não consigo enxergar uma parteira tradicional entrando num hospital e não sendo totalmente tolhida pelo ambiente, pelos médicos, pelo clima literalmente hierárquico que existe dentro do hospital. Eu vejo isso como uma complicação muito grande, apesar de existir experiências em outros lugares onde isso se dá de uma forma bastante ajeitada, como na Holanda, por exemplo. A diferença é que lá isso não se dá com as parteiras tradicionais e sim com as midwives, que receberam um treinamento, nm curso de três a quatro anos, e que têm um relacionamento absolutamente de igual para igual com os obstetras. Eu não sei como ficaria a questão de colocar uma parteira dentro de um hospital. Continuo achando que hospital é para grávida com problema. Então, no futuro, eu acredito firmemente que a gente vai investir mais na volta do parto domiciliar e na criação de Centros de Nascimento fora do ambiente hospitalar.


Amigas do Parto: Você já conhecia a RNPT (Rede Nacional de Parteiras Tradicionais)?

Dr. Marcos Leite: Eu já conhecia através de relatos, nunca havia participado de um evento como esse. Surpreendeu-me o número, me surpreendeu a qualidade dessas mulheres, a força que elas demonstram, a forma como elas se colocam, a integridade, até o orgulho de serem parteiras. Elas se mostram pessoas muito especiais, isso eu já sabia no contato individual, mas eu nunca havia participado de um encontro com tantas reunidas. E você vê uma pessoa que veio lá do Oiapoque falando com uma propriedade, com uma capacidade de expressão, e que é analfabeta. A gente passa a tomar contato de perto com uma realidade que na minha cabeça ainda era uma  fantasia, de relatos, de leitura. A oportunidade que se tem num encontro como esse de sentar, como eu fiz, por exemplo, começar conversando com uma parteira, e daqui a pouco ter dez parteiras conversando, todas contando as suas experiências e dificuldades... Você começa a entender muito mais profundamente como é a vida dessas mulheres e até passa a ter uma admiração muito maior por elas. Porque quando comparo a facilidade de trabalho que tenho em uma maternidade, num hospital escola... para mim é um mundo completamente diferente daquele de uma pessoa que está a dezoito horas da cidade mais próxima. Ou seja, ela tem que contar somente com ela mesma, com suas mãos, sua fé e mais nada. E aí você vai conversar com essas pessoas e vê que elas realmente não têm medo dessa situação. Elas incorporam essa situação no seu dia-a-dia como uma ordem natural das coisas e enfrentam situações absolutamente estressantes apoiadas única e exclusivamente na sua fé e resolvendo de fato a imensa maioria das complicações que acontecem.


Amigas do Parto: Percebemos que a maioria das parteiras presentes na Reunião é da zona rural, de regiões distantes e de difícil acesso. Você vê a possibilidade da parteira tradicional atender ao parto nos centros urbanos? Temos conhecimento de alguns casos isolados, como a Márcia Pirmez em Santa Catarina, porém, a maioria é enfermeira obstetra.

Dr. Marcos Leite: Eu volto dentro da mesma questão da opção. Eu acho que necessariamente a mulher tem que ter toda a gama de opções disponíveis. E existe uma demanda para isso. Lá em Florianópolis, como é que eu trabalho: tenho um consultório privado onde, na primeira, segunda consulta, eu exponho as possibilidades de escolha que ela tem. Ela pode ir para o Hospital Universitário, pode ficar numa clínica privada, pode ter um parto domiciliar com um médico de família, com uma enfermeira obstetra e agora, incorporando a parteira Márcia Pirmez como mais uma opção. Ou seja, a mulher recebe informações sobre todas essas possibilidades e fica totalmente livre para escolher o seu caminho e voltar. Ela não tem que assumir nenhum compromisso no início do pré-natal de que o parto vai ser de forma A, B, C ou D. Mas ela, sabendo e procurando se informar melhor, e marcando um encontro com essas pessoas, ela vai vendo dentro do que pensa aquilo que se adequar melhor às sus necessidades. Acredito que é uma coisa fácil de ser feita, muito fácil. Entre a gente não há nenhum problema, nenhum constrangimento, nenhuma disputa. Quando alguém procura, por exemplo, essas enfermeiras obstetras elas fazem a mesma coisa, dão as mesmas opções e dessa forma a gente tem como oferecer um atendimento muito mais amplo dentro da individualidade daquela pessoa, e de uma forma dinâmica.


Amigas do Parto: Falando em parteiras tradicionais atendendo nos grandes centros urbanos, falando em cidade, lhe pergunto sobre a doula, que é uma nova profissional no atendimento ao parto. Como você vê a situação atual da doula, que ainda não é uma profissional, porém está se encaminhando para sê-lo, e está cada vez mais presente nas grandes cidades, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre?

Dr. Marcos Leite: Essa é uma posição muito pessoal que eu tenho. Vejo da seguinte maneira: a doula denuncia a incapacidade que a gente tem de prestar um serviço adequado. Em resumo é isso. Porque se nós prestássemos um serviço adequado, eu como um profissional que estou ali construindo aquele relacionamento um a um com aquela mulher, me sinto absolutamente capacitado para fazer o serviço da doula. Ao introduzir um novo profissional nesse ambiente, você estará, em primeiro lugar, retirando algumas responsabilidades que deveriam ser minhas. Em segundo, vai estar transferindo para um outro profissional, introduzindo uma terceira pessoa num ambiente que já é muito íntimo. Acho que quanto menos pessoas estiverem no momento do parto, melhor. Por outro lado, se você entra numa maternidade pública, como a maioria das maternidades brasileiras, onde o acompanhante não entra, onde a mulher não é respeitada, onde os profissionais fazem o que querem com essa mulher o tempo inteiro... Nesse “teatro” eu acho a figura da doula importante, porque ela serve ao mesmo tempo como apoio emocional e como uma pessoa que está ali. Só a presença dela já vai coibir uma série de atrocidades que normalmente são feitas nessas maternidades. Mas eu não vejo o papel da doula como uma fiscalizadora. Acho que se ela entrar nesse papel vai bater de frente com um poder muito maior que o dela e ela não vai conseguir desenvolver o seu trabalho. Acredito que exclusivamente nesses lugares ela tem um papel importante. Não é uma questão fechada na minha cabeça, é uma coisa que eu venho pensando, mas no momento acho que é mais ou menos assim.


Amigas do Parto: A doula particular, ao mesmo tempo em que é colocada como uma figura que vai ajudar no empoderamento da mulher, não poderia vir a atrapalhar esse empoderamento a partir do momento em que se tornar necessária para que o parto natural transcorra da melhor forma? A doula não tiraria a autonomia da mulher?

Dr. Marcos Leite: Eu acho que o empoderamento da mulher acontece no momento em que a gente começa a estabelecer a relação no pré-natal. Para mim o principal objetivo do pré-natal é contribuir para essa mulher tirar os preconceitos, as influências da sociedade em relação a ela não conseguir parir. Quando você introduz a figura do obstetra, você já está dizendo que ela precisa de ajuda, que ela não dá conta sozinha. Acrescenta a figura do pediatra mostrando que ela é incapaz de tratar do seu bebê. Aí introduz uma terceira pessoa, que é para dar suporte emocional, mostrando que ela está emocionalmente abalada. Ou seja, são símbolos muito fortes. Eu acho que o ideal é que toda mulher deveria buscar o parto sem nenhum profissional. Não estou dizendo que isso deve ser feito dessa maneira, mas assim o profissional que está participando desse momento tem que ter muito claro isso: quanto mais invisível ele ficar na hora do parto, melhor foi o trabalho dele durante o pré-natal. Então, eu realmente acredito no seguinte: em casos excepcionais. Por exemplo, é como a analgesia, nenhum ser humano em sã consciência pode ser contra a analgesia de parto. Agora, eu acho que no trabalho da gente não se deve fazer analgesia assim que a mulher entrou. Precisa tentar fazer o possível para que essa mulher não venha a precisar da analgesia. Para mim é a mesma coisa com a questão da doula. Eu não sou contrário à doula. Deus me livre. Eu acho que em determinados momentos, em determinadas situações ela é muito importante. Mas o meu objetivo é fazer com que essa mulher não precise da doula, incluindo os acompanhantes que ela escolher, por exemplo. E, obviamente, quando falo em incluir o acompanhante, não digo “permitir” que ele esteja presente, é completamente diferente. Incluir é incluir mesmo. É desde o pré-natal ter um diálogo com essa pessoa, fazer perguntas, tentar fazer com que essa pessoa perceba a importância dela no momento do parto. Na hora do parto essa pessoa vai estar lá do lado. Essa ou essas, não tem que ser uma. Então, nessa situação, quando você consegue atingir o seu objetivo, a doula se faz desnecessária.


Amigas do Parto: Falando em parto domiciliar e em doula, a gente percebe que esses temas estão sendo cada vez mais discutidos. Como você vê a situação da mulher que quer ter o parto domiciliar ou o parto natural no hospital, tendo em vista que muitas mulheres brasileiras já passaram por cirurgias cesarianas? Quais seriam os fatores limitantes para o parto natural no hospital e no domicílio?

Dr. Marcos Leite: Começando pelo hospital. Se a gente for ver a minha experiência pessoal, que não vale muito porque é muito pequena, mas principalmente se a gente for ver os artigos publicados no mundo inteiro, a gente percebe que na imensa maioria das vezes o parto normal depois de um parto cesáreo é perfeitamente exeqüível sem nenhum problema. Agora, tem um percentual de complicação superior a uma mulher que não tenha tido filhos ou que tenha tido um filho por parto normal. Acontece uma incidência maior de ruptura uterina. Isso é sabido, comprovado, é um número e não tem como brigar contra isso. Mas têm algumas considerações a fazer. Esses números foram obtidos em atendimentos hospitalares, e a gente sabe que a qualidade dos atendimentos hospitalares não é das melhores. Então, você teria um viés bastante sério em termos de ver quem é que está atendendo a esse parto normal, se foi tão normal assim quanto ele foi apregoado. Por outro lado, a gente tem que lidar com os números que a gente tem. Quando se vai para o domicílio entra uma questão anterior. Quem decide é a mulher em conjunto com o seu companheiro, mas o poder de decisão tem que ser colocado na mão da mulher. Se você conversa com ela, mostra esses números, mostra que existe uma chance de ruptura uterina, que essa ruptura uterina não se tem como saber que vai acontecer na maioria das vezes, você só sabe depois que aconteceu, que na grande maioria das vezes é apenas uma abertura da incisão, sem nenhuma conseqüência para essa mulher, mas que eventualmente é real, com sangramento e risco de vida para mãe e o bebê.... Se esse casal, depois de receber informações e discutir bastante, tendo consciência do risco que está correndo, optar pelo parto domiciliar, eu acho que ele tem que ser respeitado.

Existem vários protocolos, no mundo inteiro, de inclusão e exclusão tanto para parto domiciliar quanto para Casas de Parto. Aproximadamente 80% dos protocolos na Inglaterra aceitam essas mulheres nas Casas de Parto. Ou seja, apenas 20% dos Centros de Nascimento não aceitariam atender a uma mulher que já tivesse sido submetida a uma cesariana. E os resultados que eles apresentam são muito bons: uma taxa de transferência pequena, taxa de complicação pequena. Então, eu acredito que se trata mais de uma inversão na relação entre o profissional de saúde e a cliente. Eu acho que à cliente cabe autonomia na decisão. Ela não vai ter o direito de forçar um profissional de saúde a atendê-la em casa, mas se encontrar um profissional que tenha tranqüilidade para atuar num momento como esse, eu acho válido. Porque eu acredito que a autonomia está na mão da mulher, é ela quem decide. O corpo é dela, o filho é dela, e eu estou ali apenas para prestar o melhor atendimento que eu possa prestar naquela situação.


Amigas do Parto: Hoje é o último dia da Reunião Nacional da RNPT. O que você diria para as mulheres sobre tudo o que você viu aqui? Como você contaria dessa experiência para uma mulher?

Dr. Marcos Leite: Eu falaria da mesma maneira como eu ajo no meu dia-a-dia. Por exemplo: atualmente não tenho uma infra-estrutura em Florianópolis suficientemente boa para fazer grandes cirurgias ginecológicas. Eu não operaria a minha mulher lá, eu não operaria a minha filha lá. Eu transferiria as duas para São Paulo ou Rio de Janeiro. Eu sempre trabalho assim, fazendo com o outro aquilo que eu  faria comigo ou com os meus familiares. Eu te garanto, se a minha mulher estivesse grávida, obviamente seria ela quem iria decidir, conversaria com ela durante toda a gravidez para a gente ser atendido por uma parteira na hora do parto.


Amigas do Parto: O que você pensa sobre as propostas do Ato Médico?

Dr. Marcos Leite: Penso que foi a melhor forma encontrada para desviar a atenção da incapacidade que a gente tem no momento de responder às demandas da sociedade. A Obstetrícia é um caso clássico, se a gente for avaliar os resultados apresentados pelo modelo hegemônico, tanto do ponto de vista da mulher quanto dos bebês, nós vamos concluir que ele é bastante inadequado. Se nós agregarmos a uma pesquisa quantitativa uma pesquisa qualitativa que avalie a satisfação das mulheres atendidas nas nossas maternidades, aí a questão piora ainda mais. Ao invés de eu trabalhar nas faculdades de medicina, melhorando a qualidade dos cursos, formando obstetras, melhorando a qualidade na atenção, eu crio uma reserva de  mercado dizendo aquilo que só eu sei fazer, ninguém está habilitado.  Crio uma lei e com isso consigo reservar esse mercado. Então, para mim é um grande desvio de conduta. È uma coisa sobre a qual a sociedade deveria se pronunciar categoricamente de forma contrária. Eu não entendo como um profissional pode legislar sobre a profissão de outro. Acho que cabe às enfermeiras legislarem sobre a própria profissão, aquilo que lhe é de direito ou não.

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