SEXUALIDADE E GÊNERO EM OBSTETRÍCIA

September 26, 2019

A sexualidade e sua problemática atua na prática obstétrica e no comportamento dos profissionais de saúde no sentido que parto e sexo estão tão intimamente ligados e na atual sociedade sexo é um tabu tão grande que uma das formas de lidar com isto foi justamente desassociando um do outro. A medicalização do parto, a transformação de um evento puramente fisiológico em algo medicalizado, com uso em demasia da tecnologia, é justamente uma forma de desassociar parto de sexo.

 

Tornando a gravidez e o parto em eventos médicos criou-se uma distância ainda maior da mulher com seu próprio corpo, tornou-se ainda mais complicado uma mulher lidar bem com o processo da gravidez, do parto e da amamentação, sendo que tudo que poderia ser visto como natural passou a ser visto como imperfeito, inseguro, arriscado. O útero é visto como um "lugar" perigoso de onde os bebês devem ser salvos tão logo completem 37 semanas. E devem ser salvos através de cirurgias em sua grande parte mal indicadas ou ainda sem indicação nenhuma.


A participação da mulher no parto é nula, já que os detentores do saber e do poder são os médicos e as enfermeiras, numa proporção tal que é dito que "todo mundo" FAZ o parto, menos a própria mulher.  Observamos esta situação também em partos que ocorrem de forma não planejada fora do ambiente hospitalar, onde nas notícias sempre dizem que o policial, o bombeiro, o taxista fez o parto, todos, menos a mulher a quem de direito se deve o parto.


Mesmo quando o parto é normal, as incontáveis intervenções (desnecessárias) feitas são para dar o controle ao médico e nunca à mulher. A prática da episiotomia (uma mutilação na minha opinião) é  mais uma agressão e uma forma de tomar o controle do parto! Tornar o parto o mais medicalizado possível, tirando da mulher qualquer chance de participação ativa e transformar o parto em evento médico é uma das formas de lidar (mal) com a questão da sexualidade na nossa atual sociedade! A gravidez é tocada pela sexualidade no imaginário inconsciente e consciente coletivo e individual porque o simples fato de se avistar uma mulher grávida é saber que ela fez sexo pelo menos uma vez. E o parto normal o que é? No imaginário das pessoas, é um bebê enorme saindo pela vagina de uma mulher! E não é só isso: é a nudez, a exposição, são os fluídos corporais...

 

Já vi partidários da cesárea eletiva falando horrores justamente dos  fluídos corporais, denegrindo o parto como sendo transformado em algo grotesco por haver sangue, líquido amniótico escorrendo pelas pernas da mulher, ou mesmo falando da possibilidade de defecar durante o parto. Eles diminuem assim tudo e qualquer coisa que diga respeito ao organismo humano/animal, como se parir fosse algo relegado aos bichos e como fazer parto norma fosse se submeter a algo inferior.

Permanece até entre os médicos o mito da vagina larga após parto normal. Além disto não ser verdadeiro, ainda reduz a mulher a um objeto de uso e deleite do homem, como se ela devesse se preservar para continuar dando prazer ao marido.


No que diz respeito às mulherse, problemas relacionados à vivência da sexualidade podem interferir no parto. Durante toda a vida a mulher cresce ouvindo, lendo e sabendo que tudo relacionado a sexo e ao seu corpo é errado, e deve ser escondido. A menina mal começa a olhar para o próprio corpo e já ouve coisas como:

"Tira a mão daí menina!"

"Senta de perna fechada!"

"Fale baixo!"


No parto, pessoas estranhas tocam na mulher o tempo todo, raspam-lhe os pêlos, tiram-lhe as roupas (levando sua identidade), a colocam de  pernas abertas, ela não pode gritar ou gemer se der vontade...

E isso para falar das coisas mais simples relacionadas ao feminino. 


A mulher não é estimulada a se conhecer, a conhecer o próprio corpo, pelo contrário: aprende que isso é errado, é sujo. A mulher não é estimulada (ainda hoje) a ter experiências sexuais variadas, com tantos homens quanto tenha vontade. Muitas mulheres são vítimas de abuso sexual na infância e levam para a vida toda o sentimento de terem sido as culpadas. Muitas mulheres são vítimas de assédio sexual no trabalho, na escola, na faculdade, na rua, e são sempre de algum modo responsabilizadas por isso. O mesmo ocorre em relação a estupro.


Como uma mulher que nunca teve a oportunidade de olhar para o próprio corpo, que nunca ousou tocar na própria vagina, que muitas vezes viveu anos de vida sexual com o marido e nunca sequer teve prazer, como uma mulher que aprendeu que o corpo é sujo, que é errado se tocar, se conhecer, vai conseguir o nível de envolvimento necessário para se entregar e se abrir literalmente para o nascimento do filho?


O ambiente na hora do parto geralmente não ajuda, assim como no sexo, a mulher precisa de tranquilidade, aconchego, segurança para poder se entregar e "curtir", e isso se torna impossível sem privacidade, sem respeito nas instituições por parte dos médicos e enfermeiros.

 

E o medo do parto deixar a vagina larga é algo que faz com que muitas mulheres escolham abrir mão de seus partos, por um medo absurdo, infundado e totalmente preconceituoso de que elas estão apenas para servir aos homens. Mulheres vítimas de agressões ou abusos podem ter mesmo problemas em se expor, em se sentir a vontade durante o parto. Enfim, de muitas maneiras uma sexualidade que não foi ou não é vivida com naturalidade pode mesmo trazer problemas no momento do parto.

 

Luzinete Carvalho é psicanalista e aluna do curso de formação em Educadora Perinatal da ONG Amigas do Parto.

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