SEGUINDO SUA INTUIÇÃO

October 8, 2019

“Boa tarde Liliana,

 

Ao procurar informações na internet sobre parto normal e obstetras humanizados, encontrei seu depoimento sobre os seus partos, onde observei algumas semelhanças com o meu caso.

 

Tive minha primeira filha aos 17 anos, através de uma cesariana que hoje não vejo com bons olhos. Depois das complicações no parto, minha médica me explicou que o anestesista cometeu um erro... esse erro fez com eu precisasse ser sedada. Resultado: não assisti ao meu parto, não vi minha filha nescer e somente a conheci no dia seguinte, depois de passado o susto.

 

Hoje, aos 26 anos, estou grávida mais uma vez, com 21 semanas e muito preocupada com o que me espera adiante.

 

Assim como você, depois da cesariana, decidi por um parto natural. Assim como você, meu plano de saúde não me dá muitas opções.... Ainda não conversei com o meu médico sobre a minha preferência pelo parto normal, pois a minha decisão somente foi tomada alguns dias depois da última consulta.

 

No entanto, já estou muito preocupada por uma série de coisas. Você sabe que hoje são pouquíssimas as pessoas que nos estimulam a ter um parto normal. Usam a cesariana, como se o parto fosse uma etapa triste e sofrida da qual você tem de se livrar logo...

 

Na minha primeira consulta, eu me lembro que o meu médico, sem me perguntar sobre qualquer preferência, olhou um calendário, fez umas contas e falou: "Seu parto provavelmente será uma cesariana eletiva...". Na hora não me toquei pois ainda estava preocupada com as ameaças de aborto que sofri nos primeiros meses de gestação e nem pensava em um parto natural... No entanto, depois que decidi parei para pensar no comentário que ele fez e na própria rotina dele, que eu conheço e sei que é muito complicada.

 

Como nós sabemos, um parto natural dá trabalho para todos os envolvidos, pois não podemos precisar qual a hora da criança. Estou cheia de medo de ser "empurrada" para uma outra cesariana. Não sei se é bobagem minha, pois somente conversarei com ele sobre o parto na próxima consulta, dia 07/12, mas estou morrendo de medo de ele tentar me "forçar" a uma cesariana.

 

Além da previsão dele de uma cesariana logo de cara, além da rotina complicada que ele tem, pois também trabalha no interior, ainda me preocupo com o fato de os médicos "humanizados" mais conhecidos de Salvador não atenderem pelo meu plano. Além disso, somente duas maternidades atendem meu plano.

 

Além de tudo, ainda fiquei sabebdo que nem todas as maternidades aceitam a entrada de doulas. Muitas somente permitem a entrada se o médico indicá-la como parte da equipe médica...

 

Liliana, eu demorei a me decidir pelo parto normal por medo das dores.... Já superei esta parte e agora tenho uma certeza: cesariana só se for imprescindível. Gostaria que você emitisse a sua opinião sobre essa situação e me ajudasse, caso meu médico não demonstre interesse em apoiar a minha decisão.

 

Aguardo resposta.

 

Atenciosamente,

 

Samara”

 

Esta mensagem foi enviada para uma das fundadoras da ONG Amigas do Parto e grande amiga minha, Liliana que mora em Salvador. A copiei aqui porque ela exemplifica como é difícil ser mulher gestante hoje.

 

Senti ternura por Samara. Ela é atenciosa, conscienciosa e responsável... Mas é ingenua, como é normal sê-lo. Mas quem tem prática com a realidade obstétrica saberá logo quais são as intenções do médico. A cesárea é sua meta, ele não tem tempo para outra coisa. Já deixou claroisso logo no começo do pré-natal, querendo agendá-la. Por que Samara não se tocou?

 

Provavelmente, porque tendemos a não ouvir o que não queremos ouvir. E, em segundo lugar, porque nossa situação de gestante conscientes é tão complicada que se tende a manter uma ilusão para não encarar de frente a realidade dura e fria. Inclusive, essa é uma atitude tipicamente feminina... adoçar a pílula. Mas se for venenosa, não há açúcar que melhore.

 

A propósito, leiam o artigo em espanhol (vale o esforço) que publiquei no site: “Reflexiones sobre violencia... obstétrica”. Ele começa assim: “Érase una vez un país en el que las mujeres hechas y derechas dejaban de serlo aproximadamente en la semana 2 de su primera gestación. Ya nunca volvían a ser ciudadanas de primera categoría.” Sim, perdemos a cidadania (quando a temos!) logo nas primeiras semanas de gestação quando nossa vida de grávida passa a estar nas mãos de um médico “com uma agenda complicada”.

 

Nossa Samara é uma dama. Ela faz tudo certo. Até superou seu medo do parto. Mas o mundo à sua volta não ajuda e nesses momentos gostaríamos poder fechar um olho e sonhar ainda um pouco... É difícil acreditar que é realmente tudo tão complicado – e de verdade, não como a “complicada agenda” do médico. Para ele é uma questão de fazer caber seus compromissos dentro dos limites de tempo que ele se deu; para nós está em jogo um parto digno e respeitoso, nossa auto-estima e amor próprio. É uma questão de ser protagonista da própria vida e da própria maternidade ou não. Isso que é complicado!

 

O problema de Samara é que ela (como todas nós!) precisa confiar mais em si mesma. Se está “morrendo de medo” é porque algo dentro dela já tomou conhecimento da situação. Uma realidade impiedosa: falta plano, falta médico, falta dinheiro, falta tudo!

 

Não tenho receitas milagrosas, infelizmente. Como vivo dizendo, todos deveriam fazer um esforço para encontrar um ponto comum em meio à capitalização de tudo, inclusive do parto (humanizado ou desumanizado que seja). Os planos ainda não se “atualizaram”, o parto domiciliar ou humanizado ainda não é “padrão” por isso não entra nas estatísticas que movem as instituições de todo tipo.

 

Samara precisa da confirmação de sua intuição e certamente Liliana a dará. E, afinal, é para isso que servimos em primeiro lugar, umas com as outras: para confirmar o saber interior que cada uma tem. E com ele, promover a força e a determinação em buscar alternativas e assim construir um caminho novo. A gente pode.

 

Espero agora que Liliana, que contou suas duas cesáreas aqui: “Cesáreas e feridas na alma. Reflexões de uma militante da humanização”,  possa dar-lhe algumas boas dicas locais.

 



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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